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Ensaios
sobre gestão
de pequenas
empresas


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A FÍSICA DA FALÊNCIA
A FÍSICA DA FALÊNCIA A lama baixou, mas a dívida subiu. Tiago, dono de uma pequena livraria na Cidade Baixa, via os livros ainda encharcados sobre o balcão torto. Henrique, credor, pisava firme no chão manchado: "Quero meu dinheiro." Foram a juízo. O advogado invocou Bergson: "O tempo é fluxo, não cronômetro." O credor invocou o contrato. "O capital também é movimento." O juiz Cas
Carlos A. Buckmann
há 5 horas1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - DESUMANIZADOS
DESUMANIZADOS Na escadaria da Rua 24 de Maio, os azulejos coloridos pareciam guardar fragmentos de histórias esquecidas. Pessoas subiam e desciam apressadas, como se cada degrau fosse apenas um obstáculo entre um ponto e outro da cidade. Sentado num degrau, Pedrinho observava o movimento. Aos quatorze anos, carregava um peso maior que a mochila que abandonara junto com a escola. Em casa, os conflitos eram constantes; na vida, a
Carlos A. Buckmann
há 1 dia1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A FÍSICA DA FALÊNCIA
A FÍSICA DA FALÊNCIA A lama baixou, mas a dívida subiu. Tiago, dono de uma pequena livraria na Cidade Baixa, via os livros ainda encharcados sobre o balcão torto. Henrique, credor, pisava firme no chão manchado: "Quero meu dinheiro." Foram a juízo. O advogado invocou Bergson: "O tempo é fluxo, não cronômetro." O credor invocou o contrato. "O capital também é movimento." O juiz Cas
Carlos A. Buckmann
há 5 horas1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - DESUMANIZADOS
DESUMANIZADOS Na escadaria da Rua 24 de Maio, os azulejos coloridos pareciam guardar fragmentos de histórias esquecidas. Pessoas subiam e desciam apressadas, como se cada degrau fosse apenas um obstáculo entre um ponto e outro da cidade. Sentado num degrau, Pedrinho observava o movimento. Aos quatorze anos, carregava um peso maior que a mochila que abandonara junto com a escola. Em casa, os conflitos eram constantes; na vida, a
Carlos A. Buckmann
há 1 dia1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A PERFEIÇÃO DO OFÍCIO
A PERFEIÇÃO DO OFÍCIO Estação Rodoviária. O homem desceu do ônibus como quem desce de si mesmo. Na Voluntários da Pátria, a noite era um ritual de corpos trocados por moedas. Ele observou as meretrizes: gestos automáticos, sorrisos ensaiados, olhos que não perguntavam. Nenhuma delas, pensou, se detinha para questionar o próprio ofício. Eram eficientes, técnicas, mas vazias de sentido. Viu. Ela era d
Carlos A. Buckmann
há 2 dias1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM ENCONTRO DOMINICAL.
UM ENCONTRO DOMINICAL. Ernesto, filósofo e ateu convicto, mantém uma antiga amizade com o padre Alexandre, que vem desde os bancos escolares do Colégio Julio de Castilhos. Na nave da pequena Igreja da Restinga, a penumbra acolhia mais um de seus encontros dominicais. Conversam sobre os “Pensées de Pascal”, invocando o cálculo da aposta divina como suprema prudência. “Se aposto na eternidade, ponderou o clérigo, nada perco na finitude e poss
Carlos A. Buckmann
há 3 dias1 min de leitura


REFORMA TRIBUTÁRIA e os Desafios Competitivos das Farmácias Optantes pelo Simples Nacional
Reforma Tributária e os Desafios Competitivos das Farmácias Optantes pelo Simples Nacional Introdução A Reforma Tributária brasileira introduziu profundas mudanças na forma de tributação do consumo, substituindo gradualmente diversos tributos pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). Embora o Simples Nacional tenha sido preservado, as farmácias optantes por esse regime precisarão avaliar cuidadosamente sua estratégia tributária
Carlos A. Buckmann
há 4 dias4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O PERTENCENTE
O PERTENCENTE Há um lugar em Porto Alegre onde o asfalto se desfaz em paralelepípedos gastos, e os paralelepípedos se desfazem em memória. Chama-se Maria Degolada, nome que a geografia oficial insiste em chamar de Vila Santo Antônio, mas que a boca do povo consagrou com a violência poética de uma degola que ninguém lembra mais quem sofreu. Talvez tenha sido uma mulher, talvez uma santa, talvez o próprio bairro, decepado do mapa afetivo da cidad
Carlos A. Buckmann
há 4 dias6 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A MENSAGEM DO OLIMPO
A MENSAGEIRA DO OLIMPO O vento de outono empurrava folhas secas pela calçada quando nos sentamos na confeitaria da Av. Goethe. Chamava-se Aletheia, como a deusa grega da verdade, pensei. Entre xícaras fumegantes e nomes de filósofos lançados ao ar, ela fez a pergunta inevitável: “Você acredita em Deus?” “Qual deles?”, devolvi, sorrindo. Diante do seu olhar perplexo, convoquei os séculos. Falei de Anúbis,
Carlos A. Buckmann
há 5 dias1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O ÚLTIMO DIÁLOGO.
O ÚLTIMO DIÁLOGO O diretor de jornalismo inclinou-se sobre a mesa de madeira escura do Chalé da Praça XV. "Você leu o que publiquei sobre a Ucrânia?" O repórter político tomou um gole do seu café, como uma pergunta não formulada. "Li. E reli." "Então?" O diretor tocou a borda do copo de uísque. "É sobre o outro, não é? Sempre sobre o outro. O outro está em todo lugar. Nas trincheiras. Nos campos de refugi
Carlos A. Buckmann
há 6 dias3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O INVISÍVEL
O INVISÍVEL (*) Esse não é um conto ficcional. Tudo o que você vai ler a seguir vivi em realidade. Dez horas da manhã no Casarão do Cirandar quando a campainha da porta rompeu o silêncio da nossa conversa. Letícia, minha Mestra e amiga, ergueu-se com a leveza de quem sabe que cada visita é um texto a ser decifrado. Eu a observava, pensando nos encontros como fenômenos: nunca casuais, sempre necessários. Ouvi o arrastar de uma cadeira de rodas pelo corr
Carlos A. Buckmann
14 de ago.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O LIXO
O LIXO Naquela manhã, numa rua tranquila de Porto Alegre, Antônio revirava os sacos de lixo diante de uma casa elegante. “Tire isso daqui! gritou o proprietário. Você está sujando minha calçada!” Antônio ergueu os olhos. “Não estou sujando, senhor. Estou procurando o que ainda pode servir.” “Eu pago impostos para que esse lixo seja recolhido. Não preciso de gente remexendo na minha porta.” Antônio olhou p
Carlos A. Buckmann
13 de ago.1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - INDOMÁVEL
O INDOMÁVEL A tarde caía devagar sobre a garrafa de tinto. Não havia pressa no ar, apenas a densidade de quem já não tem mais relógios a temer. Eu e ele, um amigo de décadas, estávamos numa mesa, na área externa da churrascaria Barranco. As árvores curvavam seus galhos para ouvir nossas histórias. O sol se punha como um velho funcionário público que bate o ponto e vai embora sem alarde. Ele encheu meu cálice. O vinho subiu, escuro, e parou
Carlos A. Buckmann
12 de ago.2 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - FELICIDADE
FELICIDADE O vento sul varria a Rua Ramiro Barcelos, no Bom Fim, carregando o cheiro úmido de terra molhada e o som distante das sirenes das ambulâncias que chegavam ao HPS. Doutor Rafael caminhava para casa depois de mais um plantão de trinta e seis horas, os olhos vermelhos de cansaço e a alma esgarçada como um tecido velho. Ele havia passado a noite inteira acreditando, com a força desesperada de quem nada mais tem, que conseguiria salvar a moça da
Carlos A. Buckmann
11 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A ESTUDANTE DO COLÉGIO ISRAELITA
A ESTUDANTE DO COLÉGIO ISRAELITA A mochila pesava no ombro direito. O uniforme azul-marinho trazia bordado o nome do colégio em letras hebraicas e portuguesas. Ela caminhava pela Rua Fernandes Vieira, calçada irregular, sombra das tipuanas. Ele estava encostado no muro do estacionamento. Braços cruzados. Camiseta cinza. Não desviou o olhar quando ela se aproximou. “Judia.” Ela continuou andando. “Você me ouviu. Judia
Carlos A. Buckmann
10 de ago.3 min de leitura


“GAMBATTE” – DÊ O SEU MELHOR
“GAMBATTE” – DÊ O SEU MELHOR Há de se notar, logo à primeira mirada, que no Brasil, em sua exuberância mestiça, desejar “boa sorte” em uma tarefa, é talvez uma de suas expressões mais eloquentes, pois trata o trabalho sob o signo da paixão, do talento inato ou, inversamente, da exploração a ser combatida. O empregado sonha com o fim do expediente; o profissional liberal ou o artista cultua a “inspiração” como um relâmpago que o isenta da transpiração;
Carlos A. Buckmann
9 de ago.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - SEXTA-FEIRA NO SUPER MERCADO
SEXTA-FEIRA NO SUPER MERCADO Arlete ajustou o passo. O assoalho de granito refletia a luz fria do teto. Sexta-feira. A rotina. Na calçada, antes do acesso à rampa, um homem de calça desbotada e jaqueta de brim interrompeu a trajetória de Arlete. Não a tocou. Apenas se colocou à frente, a uma distância que não invadia, mas impedia. "Senhora, poderia me comprar um pote de paçoquinha? O pequeno. Vendo unidade. É o meu ganho do dia."
Carlos A. Buckmann
8 de ago.2 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O LOUCO DO LARGO DOS AÇORIANOS
O LOUCO DO LARGO DOS AÇORIANOS O Largo dos Açorianos, na Av. Borges de Medeiros, era um ponto de encontro. O comércio pulsava, os prédios residenciais vigiavam o movimento. Na avenida, um homem, a quem chamavam de Louco, era parte da paisagem. Ninguém sabia sua origem. Sua presença era uma constante, como os paralelepípedos ou os postes de luz. Ele não mendigava. Cantava. Canções sem melodia definida, com letras que confundiam o sentido. Cu
Carlos A. Buckmann
7 de ago.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - NO ALTO DA BRONZE
NO ALTO DA BRONZE O Castelinho do Alto da Bronze, à noite, era uma caixa de vidro e concreto iluminada por holofotes azuis. Da janela do apartamento, via-se o fluxo de pessoas subindo a ladeira. A fachada histórica, outrora residência de um industrial, agora abrigava um sistema de som que fazia vibrar os paralelepípedos. Lá dentro, o ar era denso, uma mistura de perfume importado, suor e o cheiro metálico do gelo seco. Rodrigo estava no mez
Carlos A. Buckmann
6 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM CAFÉ NA RUA DA PRAIA
UM CAFÉ NA RUA DA PRAIA O café chama-se "PRAIANO", mas não há mar nem rio à vista. A Rua da Praia, em Porto Alegre, é um nome de memória. O aterro do século XIX empurrou o rio para longe. Agora, só o movimento dos carros e o vai-e-vem dos pedestres preenchem a paisagem. Em uma das mesas, Elias, angolano, que vive do comércio de relógios e eletrônicos, trazidos do Paraguai, e que expõe sobre um pano preto no chão da Esquina Democrática. Clar
Carlos A. Buckmann
5 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - NA FEIRA DO PÊSSEGO
NA FEIRA DO PÊSSEGO O sol da manhã ainda era brando quando começou a dourar os pêssegos dispostos em pirâmides sobre as bancas de madeira. Na Feira do Pêssego, na Vila Nova, o aroma doce da fruta madura misturava-se ao cheiro de barro úmido e ao pregão dos feirantes. Ali, a vida se resumia ao essencial: plantar, colher, vender e recomeçar. Giusepe De Longo ajeitava os últimos cestos. As mãos endurecidas pelo trabalho moviam-se com a delicadeza
Carlos A. Buckmann
4 de ago.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O ANTIQUÁRIO DA REDENÇÃO
O ANTIQUÁRIO DA REDENÇÃO O sol de domingo já ia alto quando atravessou a copa das árvores da Redenção e derramou lâminas de luz sobre as bancas do Bric. A poeira suspensa dourava o ar, enquanto, no canteiro central da José Bonifácio, vozes, moedas e o tilintar de porcelanas compunham a música improvisada da feira. Ali reinava o efêmero: objetos expulsos do próprio tempo aguardavam apenas um novo olhar para recomeçar a existir. A banca do velho parecia
Carlos A. Buckmann
3 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM CHOPP NO MERCADO
UM CHOPP NO MERCADO O salão do segundo andar do Mercado Público fervilhava como um organismo vivo. O chopp do velho estava terminando e a porção de torresmo pururuca, com sua crosta dourada e sal grosso, era um monumento à efemeridade do prazer. Ele não o comia. Contemplava-o. O garçom, um homem de rosto liso e olhar cansado, equilibrava a bandeja na palma da mão como se fosse uma extensão de seu próprio corpo. “O senhor vai querer mais um?
Carlos A. Buckmann
2 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UM ENCONTRO IMPROVÁVEL
UM ENCONTRO IMPROVÁVEL O ar noturno da Rua Padre Chagas tinha a densidade de um paradoxo. Ali, o riso parecia mercadoria; a tristeza, peça de museu. As mesas de metal forjado, alinhadas como altares profanos, celebravam a liturgia do prazer: taças de vinho capturavam a luz âmbar dos postes, garçons deslizavam com a precisão de um ritual antigo e o aroma da carne grelhada se misturava ao perfume caro, compondo uma sinfonia reservada à burguesia urbana.
Carlos A. Buckmann
1 de ago.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - FIM DE TARDE NO RUBEM BERTA
FIM DE TARDE NO RUBEM BERTA Crepúsculo. Avenida Baltazar de Oliveira Garcia. Bairro Rubem Berta. Resto de sol tingindo os muros e as fachadas das lojas e das casas, com um melado de cobre e cinza. Era a hora em que os dias se dissolvem como açúcar em água morna, e os homens, cansados de seus fardos, se arrastavam para casa. Nesse ocaso de sexta-feira, o bairro respirava com a lentidão de um animal ferido. Do alto do morro, os ol
Carlos A. Buckmann
31 de jul.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - AO POR DO SOL, NO GUAIBA.
AO POR DO SOL, NO GUAÍBA. O sol derramava-se sobre o Guaíba com um ouro melancólico, tingindo as águas de um vermelho-róseo que não era de sangue, mas de despedida. “O rio ‘tá’ rosa, mãe”!, uma voz de menina, encantada, sobressaiu ao burburinho do local. Ali, na orla, onde o asfalto encontrava o espelho d’água, eu era um homem reduzido à sua mais simples função: a de sobreviver. Minha caixa de isopor, branca e quadrada, era a ar
Carlos A. Buckmann
30 de jul.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - Por que, Tristeza?
POR QUE, TRISTEZA? A madeira range sob meus pés, um lamento familiar que ecoa pelo assoalho da sala. Lá fora, o crepúsculo tinge as copas das árvores que ainda restam, um último suspiro de verde em meio ao avanço dos sobrados de vidro e concreto. O bairro chama-se Tristeza, mas a ironia do nome sempre me pareceu mais um elogio à melancolia fundadora do que uma queixa. Ele chegou pontualmente, como um carroceiro da modernidade. Terno cinza, pasta de cou
Carlos A. Buckmann
29 de jul.5 min de leitura


AS VIUVAS DO TERROR
AS VIÚVAS DO TERROR A poeira sobre a fotografia era uma pátina sagrada. Ranya a limpava com a palma da mão, gesto que se repetia desde que o mundo havia parado, naquela noite em que os caminhões devoraram as sombras dos homens de Beharke. Na imagem, o rosto de Aram, um sorriso que a memória já não ousava tocar, parecia espiá-la de um outro reino, onde o tempo não era uma ferida, mas um rio sereno. Ela sabia que não podia enterrá-lo. A lei, farisaica e
Carlos A. Buckmann
28 de jul.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - ENCONTROS NO BAR
ENCONTROS NO BAR A claridade do salão era a mesma de sempre, um ocre gasto que a luz elétrica teimava em não vencer. Empurrei a porta de madeira pesada e o cheiro de álcool e gordura me envolveu como um abraço de um velho conhecido. Lá estava o meu canto: a mesa contra a parede, estrategicamente posicionada para que eu visse a entrada e, ao mesmo tempo, pudesse vigiar o movimento do balcão. Pedi um chope e a tradicional salsicha bock. O garçom, um senhor calado de
Carlos A. Buckmann
27 de jul.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O PINTOR E O ESPELHO D'ÁGUA
O PINTOR E O ESPELHO D’ÁGUA Entardecer de outono no Bairro Bom Fim, quando o sol, já cansado, derrama uma luz oblíqua e dourada sobre o Parque da Redenção. As folhas das árvores centenárias sussurravam segredos em uma língua que apenas o vento compreendia. Junto ao espelho d’água, cuja superfície refletia o céu como uma alma duplicada, um jovem de calças rotas e camiseta negra, onde se estampava o símbolo da banda Kiss, parecia uma estátua
Carlos A. Buckmann
26 de jul.4 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - PALAVRAS AO LIXO.
PALAVRAS AO LIXO. No coração de Porto Alegre, onde o Largo Glênio Peres se estende como uma pausa entre o fervilhar do Mercado Público e a geometria severa da Borges de Medeiros, um homem de barba hirsuta e olhar de fogueira sustentava uma Bíblia diante do peito como um escudo. Sua voz, rouca e ritmada, tal qual um salmo degradado pela repetição, arranhava o ar vespertino. As pessoas, feixes de pressa e indiferença, desviavam-se dele como correntes de
Carlos A. Buckmann
25 de jul.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - UMA VALSA ANTIGA
UMA VALSA ANTIGA Aos poucos, o salão do “Club de Ouro”, no bairro Menino Deus, se esvaziava. A moça de vestido azul-claro, que há instantes cintilava sob os lustres, aceitou meu convite para a valsa. Sua mão era fria, mas seus olhos, dois abismos de ternura. Ao fim da música, ofereci levá-la até a saída. Na porta, volto-me para contemplá-la; eis que o ar se adensa em névoa, o corpo se desfaz em pétalas de luz. Um velho porteiro, ao ver meu pasmo, murmura: “Morreu
Carlos A. Buckmann
24 de jul.1 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O PESO INVISÍVEL
O PESO INVISÍVEL Era uma tarde de outono em que o vento parecia sussurrar segredos antigos. Na varanda de uma pequena casa no bairro da Menino Deus, dois homens sentam-se em silêncio, um com as mãos envelhecidas apoiadas nos joelhos, o outro com os dedos crispados na beira da cadeira. “Você ainda pensa nele?”, perguntou Elias, sem olhar para o amigo. “Todo dia.” - Respondeu Pedro, baixo, como se temesse que a palavra ecoasse e acordasse algo que dormia
Carlos A. Buckmann
23 de jul.3 min de leitura


CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - O DONO DE RAFA
O DONO DE RAFA Meu nome é Pretinho. E, ao contrário do que muitos pensam, não sou um cachorro de rua. Sou dono de um humano. Uma responsabilidade enorme, confesso, mas alguém precisa cuidar desses bichos desajeitados que insistem em andar sobre duas patas e esquecer como se aquecem. Foi numa noite de julho que encontrei meu Rafa. O vento sul cortava as ruas de Porto Alegre como uma faca de açougueiro, e eu, que já conhecia todos os cantos quentes da ci
Carlos A. Buckmann
23 de jul.4 min de leitura


CONTOS DE PORTO ALEGRE - O SEXO NA NOITE
O SEXO NA NOITE. O uísque queimava minha garganta, um conforto familiar na noite fria. O bar, o "Velho Lobo", é meu refúgio. Não pelo brilho ou pela música alta, mas pela penumbra que acolhia minha solidão sem fazer perguntas. Eu sou um homem de meia idade, com um casaco surrado e olhos que já tinham visto dias melhores. Buscava uma bebida, sim, mas também uma distração qualquer que me arrancasse do silêncio do meu apartamento. O bartender, um homem de
Carlos A. Buckmann
22 de jul.4 min de leitura


UMA SINFONIA ESQUECIDA
UMA SINFONIA ESQUECIDA Na tarde em que o sol de outono se derramava como ouro derretido sobre as pedras irregulares da calçada, o músico de meia-idade, de barba por fazer e olhos de quem já viu o tempo dobrar esquinas, dedilhava seu violão de doze cordas. Sentado em seu banquinho de madeira, entre o bulício do Shopping Rua da Praia e a solenidade do prédio da Caixa Econômica Federal, ele não tocava para as moedas que ocasionalmente tilintavam no estojo
Carlos A. Buckmann
21 de jul.4 min de leitura


A SEREIA QUE VEIO DO GUAÍBA
A SEREIA QUE VEIO DO GUAÍBA (Um conto de Porto Alegre) A noite em Porto Alegre tem um cheiro. Não é o cheiro do Guaíba, que vem fresco e salgado quando o vento sopra do sul. É um cheiro mais velho, de pedra úmida, de mijo seco nos cantos, de papelão molhado e de gordura requentada dos restaurantes que fecham suas cozinhas. Esse cheiro é a minha casa. A minha casa é o intervalo entre as luzes dos postes e as sombras dos beirais. Me chamo Zeca. Tenho dez
Carlos A. Buckmann
20 de jul.6 min de leitura


O MUNDO NA PAREDE
O MUNDO NA PAREDE A parede era o mundo. Não o mundo inteiro, mas o suficiente. Rachaduras que se abriam como vales secos, o relevo áspero do reboco, a fresta luminosa por onde o ar quente entrava e onde os voadores pequenos, suas presas, zumbiam em círculos tolos. O nome que ela dava àquele lugar, se tivesse nome, era um calafrio na ponta dos dedos pegajosos, um eco de vibração que sentia na barriga ao se aplainar contra a superfície. Não era um pensamento, era um
Carlos A. Buckmann
19 de jul.4 min de leitura


O ÚLTIMO ENCONTRO
O ÚLTIMO ENCONTRO (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O vento que entra pela porta entreaberta do Café Entre Fluxos não vem de lugar nenhum. Não tem cheiro de maresia nem de terra molhada. Tem cheiro de papiro seco e de tinta de ferrogálica. Sei disso porque sou eu quem senta, com a caneta pronta, o guardanapo liso à minha frente. O café range um pouco, como um navio de madeira que resolveu ancorar no meio do tempo. Hoje, a música de fundo é um “ou
Carlos A. Buckmann
18 de jul.4 min de leitura


UM ENCONTRO DE ALMAS PLENAS
UM ENCONTRO DE ALMAS PLENAS (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Há encontros que o tempo parece tramar em segredo, e este era um deles. A noite caía sobre o Café entre Fluxos como um véu de algodão cru, e as luzes, tênues, pareciam emergir das próprias xícaras. O ar, carregado de notas de café torrado e madeira velha, era cortado pelas primeiras notas de um Prelúdio de Debussy que saíam do velho gramofone. A música, fluida como um sonho, era a perf
Carlos A. Buckmann
17 de jul.4 min de leitura


AS CORES DA VIDA
AS CORES DA VIDA (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O sol da tardinha, já meio cansado, se derramava pelos vitrais do Café Entre Fluxos, pintando o pó de giz no ar com cores de mel e cinza. O cheiro doce do café com caramelo que a Ana Clara preparava se misturava ao cheiro ácido dos livros da estante da parede do fundo. Eu, do outro lado do balcão, polia um copo com um pano de algodão, ouvindo o tilintar dos talheres contra a porcelana e o murmúri
Carlos A. Buckmann
16 de jul.6 min de leitura


SONHOS QUE SANGRAM
SONHOS QUE SANGRAM (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O relógio de pêndulo, ali no canto, marcava não as horas, mas o peso de um segundo que se recusava a passar. O Café Entre Fluxos, hoje, cheirava a madeira úmida e a pólvora seca, um paradoxo que só o ar denso da tarde de outono poderia justificar. As gotas de chuva escorrendo na vidraça, desenhando mapas de um mundo que se desfazia antes de se formar. Uma pianola no fundo, tocada por dedos invi
Carlos A. Buckmann
15 de jul.4 min de leitura


OS SONHOS E OS FATOS
OS SONHOS E OS FATOS (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) A noite caía como um véu de cetim cinzento, e eu, das minhas trincheiras atrás do balcão, observava o ritual das xícaras vazias. Os ponteiros do relógio antigo pareciam se mover contra a própria vontade, como se o tempo ali fosse um líquido mais denso. Uma nesga de luz de um poste lá fora incidia sobre o tampo de madeira gasta, onde uma mancha em forma de continente esquecido se formava, ganh
Carlos A. Buckmann
14 de jul.4 min de leitura


O ENCONTRO DOS VERSOS ENTRE FLUXOS
O ENCONTRO DOS VERSOS ENTRE FLUXOS (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Sou o cronista-barista do Café Entre Fluxos. Hoje o tempo teimou em dobrar-se sobre si mesmo, criando um véu de possibilidades. O aroma que pairava não era o do café colombiano habitual, mas algo mais antigo, um misto de papel velho, maresia e pólvora seca. As paredes, sempre cúmplices, pareciam escutar atentas. Ao fundo, a música de hoje era uma “fantasia” de Dowlan
Carlos A. Buckmann
13 de jul.3 min de leitura


A FILOSOFIA É FEMININA
A FILOSOFIA É FEMININA (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) A noite caía sobre o Café Entre Fluxos como um véu de cetim azul-escuro, e o aroma de café recém-moído dançava com as notas etéreas de um “Allemande” de Bach que emergia do velho gramofone. A peça, com sua estrutura rigorosa e, no entanto, profundamente emotiva, parecia o prelúdio perfeito para o que estava por vir. Um grupo de jovens estudantes de música, na mesa do canto, debatia a fuga c
Carlos A. Buckmann
12 de jul.4 min de leitura


O PORTO E A TEMPESTADE
O PORTO E A TEMPESTADE. (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos nunca teve um relógio que funcionasse por muito tempo. O ponteiro grande insiste em tremular, preso entre o três e o quatro, como se o tempo, aqui dentro, fosse uma convenção que preferimos ignorar. No balcão, a máquina de expresso chia e geme, uma velha “Gaggia” que compreendeu que o vapor é uma forma de linguagem. Hoje, o ar cheira a cardamomo e madeira velha, e uma melodia de li
Carlos A. Buckmann
11 de jul.4 min de leitura


A SOMBRA E O CANTO
A SOMBRA E O CANTO (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Esta tarde que teimava em ser outono dentro do inverno, parecia ter engolido o tempo. A luz, filtrada por uma cortina de linho cru que ninguém sabia de onde viera, desenhava arabescos no assoalho de madeira gasta, e a cada rangido, uma promessa de silêncio. O ar, espesso de grãos torrados e segredos. Uma melodia de um alaúde antigo se derramava como mel sobre a pedra. Não uma música, mas uma me
Carlos A. Buckmann
10 de jul.4 min de leitura


A CONSPIRAÇÃO E A REPÚBLICA
A CONSPIRAÇÃO E A REPÚBLICA (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O CAFÉ ENTRE FLUXOS, naquela noite, tinha a atmosfera de um fórum que desaprendeu a ser romano. As colunas de mármore fingido sustentavam um teto pintado com nuvens que não se moviam, como se o céu tivesse resolvido parar para ouvir o que os homens tinham a dizer. O piso de mosaico, em padrões geométricos que se repetiam até o infinito, era uma promessa de ordem que o tempo nunca cumprira.
Carlos A. Buckmann
9 de jul.4 min de leitura


A SOMBRA E A LUZ
A SOMBRA E A LUZ (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Naquela madrugada, o salão do Café tinha a textura de um divã que se recusava a ser apenas um móvel. As paredes de um azul desbotado pareciam respirar lentamente, como se o próprio edifício estivesse em análise. Cada mesa tinha uma pequena lâmpada de abajur verde, cuja luz caía em círculos perfeitos, como se cada conversa fosse um palco isolado, uma ilha de consciência no mar do inconsciente. A m
Carlos A. Buckmann
8 de jul.6 min de leitura


A ÓRBITA E O ALTAR
A ÓRBITA E O ALTAR (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) As colunas de mármore falso subiam em espirais imperfeitas, como se cada uma tivesse sido torcida por uma mão distraída. No centro do salão, um globo terrestre girado ao contrário, os continentes virados para dentro, como se o mundo estivesse olhando para sua própria alma. As mesas, de fórmica branca, tinham bordas arredondadas que pareciam calcular ângulos enquanto descansavam. O que esperar deste cenário
Carlos A. Buckmann
7 de jul.6 min de leitura


O ESPECTRO E O ÍCONE
O ESPECTRO E O ÍCONE (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O CAFÉ ENTRE FLUXOS, naquela noite, tinha a atmosfera de uma igreja que desistiu de ser sagrada e resolveu ser apenas bela. As paredes de pedra aparente suavam uma umidade que não era água, mas memória, pequenas gotículas de tempo condensado escorrendo como lágrimas de estátuas que aprenderam a chorar. Cada mesa era uma ilha de madeira escura, e as cadeiras, de couro gasto, rangiam como consciências pert
Carlos A. Buckmann
6 de jul.6 min de leitura


Carlos A. Buckmann
6 de jul.0 min de leitura
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