top of page


Ensaios
sobre gestão
de pequenas
empresas


BRASILIDADES
BRASILIDADES (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos, naquela tarde, cheirava a Brasil. Não o Brasil dos cartões-postais, com palmeiras e papagaios, mas o Brasil dos fundos de quintal, das estantes empoeiradas, das conversas que não saem nos jornais. O cheiro de café fresco misturava-se com um odor de terra molhada que vinha da rua, como se a chuva tivesse resolvido visitar o estabelecimento sem pedir licença. As mesas de madeira es
Carlos A. Buckmann
há 8 horas6 min de leitura


A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE
A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Naquela noite, o Café Entre Fluxos parecia uma antecâmara do exílio. As mesas de madeira escura, gastas pelo uso de filosofias milenares, sustinham pequenos candeeiros cuja luz amarelada criava ilhas de claridade num mar de sombras. As cadeiras, pelo peso das ideias que ali se assentaram, rangiam levemente quando os clientes se acomodavam, como se protestassem contra o peso dessas
Carlos A. Buckmann
há 1 dia5 min de leitura


BRASILIDADES
BRASILIDADES (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos, naquela tarde, cheirava a Brasil. Não o Brasil dos cartões-postais, com palmeiras e papagaios, mas o Brasil dos fundos de quintal, das estantes empoeiradas, das conversas que não saem nos jornais. O cheiro de café fresco misturava-se com um odor de terra molhada que vinha da rua, como se a chuva tivesse resolvido visitar o estabelecimento sem pedir licença. As mesas de madeira es
Carlos A. Buckmann
há 8 horas6 min de leitura


A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE
A MÚSICA QUE MOLDOU A ARTE (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) Naquela noite, o Café Entre Fluxos parecia uma antecâmara do exílio. As mesas de madeira escura, gastas pelo uso de filosofias milenares, sustinham pequenos candeeiros cuja luz amarelada criava ilhas de claridade num mar de sombras. As cadeiras, pelo peso das ideias que ali se assentaram, rangiam levemente quando os clientes se acomodavam, como se protestassem contra o peso dessas
Carlos A. Buckmann
há 1 dia5 min de leitura


O CAMINHO ENTRE AS ESTRELAS
O CAMINHO ENTRE AS ESTRELAS (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos, naquela tarde, parecia um observatório do tempo. As mesas de madeira escura, gastas pelo uso de décadas imaginárias, sustentavam pequenas luminárias que projetavam sombras dançantes nas paredes cobertas de estantes. Os livros, velhos conhecidos, inclinavam-se uns para os outros como se partilhassem segredos. Pelas janelas de vidro grosso, via-se a cidade lá fora, uma cidade
Carlos A. Buckmann
há 2 dias6 min de leitura


O TESOURO NO ESPELHO
O TESOURO NO ESPELHO (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)) O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia um palco à espera de atores. As mesas de madeira escura refletiam a luz amarelada dos candeeiros a gás, uma afetação deliberada do proprietário, que achava que lâmpadas elétricas não faziam justiça às conversas que ali aconteciam. As cadeiras, de veludo verde desbotado, rangiam levemente quando os clientes se acomodavam, como se protestassem contra o peso
Carlos A. Buckmann
há 3 dias6 min de leitura


PENSAR NÃO É TER OPINIÕES
PENSAR NÃO É TER OPINIÕES (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos, naquela noite, parecia um refúgio para almas deslocadas no tempo. As mesas de castanho, gastas pelo uso de décadas imaginárias, sustinham pequenas velas cujas chamas tremiam ao ritmo da respiração dos presentes. Pelas janelas de vidro grosso, a cidade lá fora era apenas um borrão de luzes indistintas, como se o mundo real tivesse resolvido dar uma trégua. Os frequent
Carlos A. Buckmann
há 4 dias6 min de leitura


A CIÊNCIA E A DÚVIDA
A CIÊNCIA E A DÚVIDA (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O Café Entre Fluxos, naquela tarde, parecia suspenso entre eras. As mesas de madeira escura refletiam a luz pálida que entrava pelas janelas de vidro fosco, onde a chuva fina desenhava mapas efêmeros. Os frequentadores habituais, o poeta das bancas de jornal, a senhora dos gatos, o rapaz que escreve cartas de amor para desconhecidos, todos pareciam mais silenciosos, como se o ar estivesse c
Carlos A. Buckmann
há 5 dias6 min de leitura


UMA AMIZADE LITERÁRIA
UMA AMIZADE LITERÁRIA (Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS) O destino, quando quer pregar uma peça no tempo, escolhe cenários improváveis. No Café Entre Fluxos, onde as xícaras costumam testemunhar encontros de almas anônimas, o acaso resolveu sentar dois gigantes lado a lado. A tarde caía sobre as mesas de madeira como um véu dourado e, na vitrola, alguém colocara um fado de Amália Rodrigues. Era a música perfeita para um encontro entre a prosa salgada do Atlân
Carlos A. Buckmann
há 6 dias4 min de leitura


UM ESTOICO E UM CÉTICO ENTRE FLUXOS
UM ESTOICO E UM CÉTICO ENTRE FLUXOS (Da série Retorno ao Café Entre Fluxos) Sou o cronista-barista do Café Entre Fluxos, onde o tempo se dobra como guardanapo e os encontros acontecem por capricho do destino, ou por ironia dele. Hoje, o ambiente está mais sóbrio: o cheiro de café colombiano paira como uma lembrança ancestral, e ao fundo, um cravo toca uma suíte de Couperin, criando um clima entre o estoico e o melancólico. As paredes, sempre cúmplices,
Carlos A. Buckmann
24 de jun.2 min de leitura


UMA CRÔNICA "LITEROSARCÁSTICA"
UMA CRÔNICA "LITEROSARCÁSTICA" O Café Entre Fluxos hoje cheira a café torrado na hora, tabaco de charuto esquecido em alguma memória e um leve riso contido, o tipo que vem depois de uma verdade tão dolorosa que só se pode soltar em gargalhada. Na mesa do fundo, onde as cadeiras já viram mais ironias do que discursos políticos, sentam-se dois homens que nunca precisaram gritar para serem ouvidos. Basta sussurrar uma piada, e o mundo desmorona.
Carlos A. Buckmann
24 de jun.4 min de leitura
PORQUE NÃO ACREDITO NA NOSSA SELEÇÃO
PORQUE NÃO ACREDITO NA NOSSA SELEÇÃO. (E posso estar errado) Sei que vou ser execrado após publicar essa crônica, mas quem tiver um mínimo de consciência vai me entender. Os outros? Bem, são apenas outros. Comecemos pelos números, pois é sempre deles que o homem moderno extrai sua primeira verdade. O atacante que veste a amarelinha recebe, por mês, algo em torno de três milhões de reais e não me refiro ao craque europeu, mas ao que se sen
Carlos A. Buckmann
23 de jun.4 min de leitura


UM ENCONTRO ATOMOEXISTENCIAL
UM ENCONTRO "ATOMOEXISTENCIAL" O ar no Café Entre Fluxos hoje não é apenas ar. É “pneuma”, o sopro que Anaxímenes jurava ser o princípio de tudo. Ele senta-se à janela, onde a luz entra como um feixe de partículas em estado de superposição. Ao lado, Werner Heisenberg, com óculos que refletem o vazio antes da medição, segura uma xícara de café como se fosse um detector de posição. E ali, no canto mais distante, quase invisível entre as sombr
Carlos A. Buckmann
22 de jun.4 min de leitura


RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS
SÓCRATES, MARCO AURÉLIO E PROUST NA MESMA MESA A luz da tarde, amarelada como chá de camomila esquecido, desliza pelas janelas altas do Café Entre Fluxos, projetando sombras que parecem perguntas sem resposta. No canto mais silencioso, onde o piso de madeira já ouviu mais confissões do que muitos confessionários, três homens se sentam, não por acaso, mas porque o universo, cansado de linearidades, decidiu torcer o tempo como uma toalha úmida e deixar gotas caírem
Carlos A. Buckmann
21 de jun.3 min de leitura


O TIJOLO FINAL
O TIJOLO FINAL (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Esta é a última crônica desta série que, agora, se transforma em livro. Ao longo destas páginas, percorremos as veredas abertas por Paulo Cesar Pinheiro até chegar a Chico Buarque. E cada canção se revelou um tratado filosófico disfarçado de melodia. A MPB é uma fonte inesgotável de pensamento: suas letras carregam ontologias, éticas, críticas sociais e poéticas do existir que muitos manuais
Carlos A. Buckmann
20 de jun.6 min de leitura


APESAR DE VOCÊ
O GALO CANTA SEM PEDIR LICENÇA (*) (Da Série A FILOSOFIA NA MPB) Vivíamos sob o taciturno regime militar de 1964, quando o medo era uma segunda pele e a palavra, um ato de coragem. Chico Buarque, como tantos artistas, teve suas canções submetidas ao crivo dos censores do DOI-CODI, homens de terno escuro e óculos fundo de garrafa, que riscavam versos com caneta vermelha como quem extirpa tumores. Mas Chico aprendeu a arte da sobrevivência po
Carlos A. Buckmann
19 de jun.5 min de leitura


A RODA QUE NOS CARREGA
A RODA QUE NOS CARREGA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MOB) Francisco Buarque de Hollanda nasceu em 1944, no Rio de Janeiro, num lar de intelectuais: o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, e a mãe, a pintora Maria Amélia. Aos quinze anos, já compunha canções que demonstravam uma maturidade precoce. Estudou arquitetura por três anos, mas a música, a poesia e o teatro o convocaram com mais força. Durante a ditadura militar, Chico torno
Carlos A. Buckmann
18 de jun.5 min de leitura


A CHAVE QUE GUARDA O QUE NÃO SE PERDE
A CHAVE QUE GUARDA O QUE NÃO SE PERDE (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Milton Nascimento e Fernando Brant construíram uma das parcerias mais fecundas da música brasileira, mais de duzentas canções, segundo alguns registros. Mas Canção da América, composta em 1979, tem uma gênese particular. Tudo começou em Los Angeles, onde Milton gravava o álbum “Journey To Dawn”. Lá, encontrou o músico sul-africano Ricky Fataar, que dividia com ele o mes
Carlos A. Buckmann
17 de jun.5 min de leitura


A MANIA DE TER FÉ
A MANIA DE TER FÉ (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Certa vez, em meados dos anos 1970, o poeta mineiro Fernando Brant contou a Milton Nascimento a história de uma mulher que conhecera em Diamantina. Ela morava à beira dos trilhos do trem, criava os filhos sozinha, passava fome, mas fazia de tudo, tudo mesmo, para mantê-los na escola. Milton ouviu calado. Depois, disse que aquela mulher era “uma aula de vida”. Dessa conversa nasceu uma das
Carlos A. Buckmann
16 de jun.5 min de leitura


A FACA E A FÉ
A FACA E A FÉ (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Milton Nascimento nasceu no Rio de Janeiro, mas foi criado em Três Pontas, Minas Gerais. Perdeu a mãe ainda bebê, foi adotado por uma família que o apresentou ao rádio, às músicas, ao mundo. Sua voz não é apenas bela, é um acontecimento metafísico. Três oitavas de extensão, um falsete que parece vir de alguma capela perdida nas montanhas, um timbre que flutua entre o menino e o profeta. Quem o
Carlos A. Buckmann
15 de jun.4 min de leitura


O AVESSO DO MEU CORAÇÃO
O AVESSO DO MEU CORAÇÃO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Chego de um sonho feliz de cidade, onde o tempo era outro e as esquinas tinham cheiro de manga. Mas aqui, a selva de cimento me engoliu sem mastigar. Nos primeiros dias, nada entendi. A dura poesia concreta das tuas esquinas me golpeava como um verso branco sem rima. A deselegância discreta de tuas meninas, tão donas de si, tão frias na leveza, me fazia falta de um abraço quente. E o
Carlos A. Buckmann
14 de jun.4 min de leitura


PODRES PODERES
PODRES PODERES (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Caetano Veloso não aprendeu a filosofar nos manuais. Aprendeu na mesa de Dona Canô, nos discos de João Gilberto, nas cinzas do exílio londrino, nas páginas de Ferreira Gullar e nos versos de Augusto de Campos. Leu Sartre ainda jovem, ouviu Gilberto Gil, mergulhou na fenomenologia sem nunca abandonar o terreiro. Sua formação intelectual é um rio que aceita afluentes: a Tropicália como método, a antropofag
Carlos A. Buckmann
13 de jun.4 min de leitura


O RECÔNCAVO DA ALMA
O RECÔNCAVO DA ALMA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Caetano Veloso nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, em 1942. Filho de Dona Canô, aprendeu cedo que o mundo não se divide em certo e errado, mas em intensidades. Tropicalista, exilado, poeta de ouvido absoluto, ele fez da canção um território sem fronteiras, onde o samba encontra o rock, a bossa encontra a psicodelia, e o sagrado encontra o profano sem pedir licença. “Reconvexo” é
Carlos A. Buckmann
12 de jun.3 min de leitura


O SILÊNCIO QUE FALA
O SILÊNCIO QUE FALA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Sou um paradoxo ambulante. Fui criado por um Deus que não vejo, mas, cansado de sua ausência, criei outros deuses, à minha imagem e semelhança. Assim, a fé que me eleva é a mesma que me aprisiona: pois todo deus feito por mãos humanas traz o cheiro da argila, e toda criatura que se pretende divina esquece que o barro ainda está úmido. Acreditar e negar coexistem como a respiração; não se
Carlos A. Buckmann
11 de jun.3 min de leitura


UM COPO VAZIO
UM COPO VAZIO E UMA ALMA CHEIA (*) (**) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Foi numa tarde qualquer, dessas que o Rio de Janeiro inventa para nos lembrar que o tempo é apenas um enfeite. Gilberto Gil tinha recebido um pedido de Chico Buarque, que estava enfrentando forte censura na época e decidiu gravar um disco (Sinal Fechado) apenas com músicas de outros compositores. Gil escreveu esta canção em 1974. Violão no colo e os olhos preguiçosos fixo
Carlos A. Buckmann
10 de jun.4 min de leitura


DRÃO: A AGRONOMIA DO AMOR
DRÃO: A AGRONOMIA DO AMOR (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) As letras de Gilberto Gil são tão profundas quanto inteligentes. Ele não compõe apenas melodias, ele planta ideias. Em cada verso, há uma raiz que desce até o subsolo da filosofia e um ramo que floresce em forma de canção. Poucos artistas na MPB conseguiram, como ele, falar de amor sem pieguice, de morte sem desespero, de religião sem dogma. Gil é um pensador que usa o violão como pena. E “Drã
Carlos A. Buckmann
9 de jun.5 min de leitura


UMA AUSÊNCIA QUE NÃO SE VAI
UMA AUSÊNCIA QUE NÃO SE VAI (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Todos conhecem essa música e essa letra, mesmo que não saibam que foi Sérgio Bittencourt. “Naquela Mesa” entrou para o repertório íntimo do brasileiro, cantarolada em serestas, lembrada em velórios, evocada em tardes de domingo. Quem nunca chorou ao ouvir “naquela mesa tá faltando ele”? Mas o curioso é que o compositor, esse sim, continua faltando à festa da memória popular: Sérg
Carlos A. Buckmann
8 de jun.5 min de leitura


MODINHA
A CORAGEM DO PEQUENO AMOR (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Há uma singeleza na poesia lírica de Sérgio Bittencourt que me comove profundamente. Ele não precisava de grandes temas, revoluções, mitos, epopeias. Bastava-lhe uma rosa na janela, um sol findando lento, um sonho pequenino. Inspirava-se na simplicidade do cotidiano, naquilo que todos vemos mas poucos ousam cantar. Essa modinha é um exercício de humildade lírica: o compositor se pe
Carlos A. Buckmann
7 de jun.4 min de leitura


A FILOSOFIA DO AMOR PARADOXAL
A FILOSOFIA DO AMOR PARADOXAL (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Estava rascunhando o texto desta crônica, sentado à mesa de um café que costumo frequentar no centro de Porto Alegre, mais precisamente na Rua da Praia, hoje sem praia, apenas asfalto e memórias. O garçom, que me atende há tempos, aproximou-se com o café que sempre peço: média não requentada, por ironia ao velho Noel. Perguntou, solícito: “O que o senhor está escrev
Carlos A. Buckmann
6 de jun.5 min de leitura


O HERÓI DA INSIGNIFICÂNCIA
O HERÓI DA INSIGNIFICÂNCIA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) A fartura de letras de Noel Rosa para uma análise filosófica é quase infinita. Poderíamos escrever um livro inteiro somente com os versos desse jovem de Vila Isabel, e cada capítulo seria uma canção. Escolhi “João Ninguém” não por acaso, mas por sua atemporalidade. Passados quase cem anos, o mundo continua dividido entre os que ostentam luxo e os que, como João, apenas existem. A
Carlos A. Buckmann
5 de jun.4 min de leitura


A FILOSOFIA DO MALANDRO
A FILOSOFIA DO MALANDRO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Noel Rosa tinha um dom raro: extrair do dia a dia, das coisas miúdas, da poeira do balcão, temas para músicas incríveis. Enquanto poetas empinavam voos métricos para o céu das abstrações, ele descia ao porão da existência: o botequim. Ali, entre café requentado e resultados de futebol, ele encontrou matéria-prima para uma das canções mais filosóficas da MPB: o “malandro” carioca da primeira meta
Carlos A. Buckmann
4 de jun.4 min de leitura


TRÊS APITOS
A FILOSOFIA DO OPERÁRIO POETA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Noel Rosa, o filósofo de Vila Isabel, nasceu em 1910 e partiu em 1937, aos vinte e seis anos. Tinha o rosto marcado por uma atrofia da mandíbula, mas a alma desmesurada. Em menos de uma década de criação, deixou mais de duzentas canções; um legado que espanta. Como pôde um jovem, quase menino, morador de um quarto modesto, com saúde frágil, compor obra tão vasta e tão rica? Tal
Carlos A. Buckmann
3 de jun.4 min de leitura


AS ROSAS E O SILÊNCIO
AS ROSAS E O SILÊNCIO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Entre tantas e tão belas composições de Cartola, não posso deixar de fora sua canção de maior sucesso: “As Rosas Não Falam”. E por que ela toca tão fundo? Porque, ao contrário do que parece, não é uma canção sobre flores, é sobre o limite da linguagem. Sobre como o mundo natural nos responde sem palavras, e como nós, humanos, insistimos em perguntar. A filosofia da MPB está aí: na dor
Carlos A. Buckmann
2 de jun.3 min de leitura


ALVORADA FILOSÓFICA
ALVORADA FILOSÓFICA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Há um lirismo profundo na MPB que poucos percebem. Não é apenas melodia, é pensamento em estado de encantamento. Cartola, mestre do morro, conseguiu algo raro: aglutinar em poucos versos dois amores que a filosofia costuma separar, o amor à natureza, esse sentimento cósmico e sereno, e o amor “eros”, a chama que nos queima e nos guia. Um é como o sol que tinge o horizonte; o outro, como o mesmo sol
Carlos A. Buckmann
1 de jun.3 min de leitura


O MOINHO E A VOZ QUE AVISOU
O MOINHO E A VOZ QUE AVISOU (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Angenor de Oliveira, o Cartola, nasceu no Estácio, em 1908, e aprendeu cedo que a vida não é um samba-enredo. Órfão de mãe aos oito, feirante, pedreiro, lavador de carros, mas sobretudo compositor. Fundou a Estação Primeira de Mangueira com um grupo de amigos, e ali, no morro que o viu crescer, criou uma obra que poucos eruditos ousariam desprezar. Morreu pobre, como vivera, mas deixando pér
Carlos A. Buckmann
31 de mai.4 min de leitura


O ESPINHO E A FLOR
O ESPINHO QUE NÃO FERE (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Apesar do lirismo singelo, quase minimalista, “A Flor e o Espinho” foi o maior sucesso de Nelson Cavaquinho. Tocava várias vezes por dia nas rádios de sua época, e segue tocando, décadas depois, em corações que insistem em se machucar por amor. Há nela uma verdade tão nua que assusta. E o assustador é que Nelson, com tão poucas palavras, conseguiu um lirismo de fazer inveja a Paul Gér
Carlos A. Buckmann
30 de mai.3 min de leitura


A SÍNTESE DO INFINITO
A SÍNTESE DO INFINITO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Admiro, de verdade, a capacidade de síntese dos nossos poetas populares. Nelson Cavaquinho, em poucos versos, nos entrega uma filosofia inteira, cosmogonia, ética e esperança, tudo num samba de menos de dois minutos. Enquanto certos filósofos escrevem mil páginas para dizer que o ser é o que é, Nelson resolve a questão com o sol e o amor. Não é pouca coisa. Ele não teve academia, é ver
Carlos A. Buckmann
29 de mai.3 min de leitura


QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE
A SABEDORIA AMARGA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Nasceu Nelson Antônio da Silva no Rio de Janeiro, por volta de 1910 ou 1911, as certidões da época nunca foram muito amigas da precisão cronológica. Começou a tocar ainda menino, nas ruas do Caju, e logo ganhou o apelido que o imortalizaria: Cavaquinho, por sua habilidade inconfundível com o instrumento que lhe servia de alma portátil. Mas Nelson não foi apenas um sambista. Foi um poeta d
Carlos A. Buckmann
29 de mai.4 min de leitura


A VEZ DO MORRO
A VEZ DO MORRO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Tom Jobim e Vinicius de Moraes: a parceria que deu ao mundo a doçura de Ipanema e a profundidade das águas de março. Mas Vinicius, o poetinha, não era apenas o lírico das musas douradas. Ele também tinha o olhar mordaz, a crítica afiada. Em 1963, para a peça “Orfeu da Conceição”, nasceu “O Morro Não Tem Vez”. Não é uma canção para dançar apenas; é uma canção para pensar a exclusão. A MPB, nesse momento,
Carlos A. Buckmann
27 de mai.3 min de leitura


O POEMA QUE ANDAVA
O POEMA QUE ANDAVA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Houve um encontro, que o destino escreveu com tinta de bossa nova. Tom Jobim, o pianista das nuvens, e Vinicius de Moraes, o poeta que transformava o cotidiano em oração. Em 1962, num bar em Ipanema, viram passar uma moça, Heloísa Pinheiro, dezoito anos, caminhando para o mar. E nasceu “Garota de Ipanema”. A canção atravessou o Atlântico, ganhou o mundo, foi regravada mil vezes. Frank Sin
Carlos A. Buckmann
26 de mai.4 min de leitura


O CARIOCA DO MUNDO
O CARIOCA DO MUNDO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom, nasceu no Rio de Janeiro em 1927, numa casa de classe média em Ipanema. Pianista, arranjador, maestro. Mas acima de tudo, um poeta que achou na música o caminho para dizer o indizível. Parceiro de Vinicius de Moraes, criou a bossa nova, essa filosofia disfarçada de suavidade. Em 1972, já maduro, lançou “Águas de Março”, uma canção que é u
Carlos A. Buckmann
25 de mai.4 min de leitura


O PONTEIO E O DESVIO
O PONTEIO E O DESVIO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Edu Lobo, naquele 1967, subiu ao palco do III Festival da Record junto com Marília Medalha e cantaram “Ponteio”. Ganhou. Mas o prêmio veio com escolta: a censura do regime militar já rondava os bastidores. Para driblar os censores, os compositores aprenderam a falar por metáforas. A viola não era apenas a viola. O ponteio não era apenas o dedilhar. Era um gesto de sobrevivência. A MPB, nesse períod
Carlos A. Buckmann
24 de mai.4 min de leitura


A REDE E A BÊNÇÃO
A REDE E A BÊNÇÃO(*) (Dá série A FILOSOFIA NA MPB) Há um lirismo que não nasce nos salões, mas na beira do mar, onde a jangada é mais casa do que madeira. Edu Lobo, nessa canção de 1965 que estourou com Elis Regina, não canta a paisagem turística; canta a vida simples do pescador. Um homem que acorda antes da luz, que olha o horizonte como quem interroga um oráculo, e que lança a rede não por esporte, mas porque dentro de casa há bocas que pedem.
Carlos A. Buckmann
23 de mai.4 min de leitura


O BALANÇO E A VERGASTA
O BALANÇO E A VERGASTA. (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Edu Lobo, menino de olhar manso e violão certeiro, nos festivais da Record. Era 1965, “Arrastão” com Elis arrastava multidões. Depois “Ponteio”, com MPB-4, prêmio no III Festival. Mas foi em 1968, talvez, que ele cantou “Upa Neguinho”, mais uma vez pela voz inconfundível de Elis Regina. Não com a fúria de um protesto explícito, a ditadura já vigiava, mas com a delicadeza de quem sabe
Carlos A. Buckmann
22 de mai.3 min de leitura


A BARRA E O COLO
A BARRA E O COLO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) A dura realidade, eu a constato todas as manhãs: o trabalhador depende de um emprego como o náufrago depende da tábua. Mal remunerado, quando o é. Sem garantia de continuidade, pois o amanhã é um fantasma que o patrão não assina. Acordamos, pagamos condução, vendemos o tempo que não nos pertence, e chamamos isso de vida. Sobreviver, nesse regime, é um ofício que exige mais do que músculos:
Carlos A. Buckmann
21 de mai.4 min de leitura


E O QUE É A VIDA?
E O QUE É A VIDA? (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Escolher uma única canção de Gonzaguinha para extrair filosofia é como tentar apanhar o mar com uma peneira. Cada verso é um afluente, cada estribilho, uma cachoeira. Ele foi poeta, sim, mas poeta no sentido grego: o que faz, o que cria, o que dá forma ao espanto. E como todo filósofo de fato, Gonzaguinha não respondeu às perguntas, ele as cantou para que dançássemos sobre o abismo. Então,
Carlos A. Buckmann
20 de mai.4 min de leitura


É PRECISO SANGRAR
É PRECISO SANGRAR (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) A noite paulistana de Adoniran Barbosa ainda ecoa o ronco distante do trator, e os barracos de seu Narciso já viraram poeira e samba. Mas este cronista, que percorre as esquinas do tempo, desloca-se agora para o Rio de Janeiro. Lá, outro poeta abre a garganta. Chama-se Gonzaguinha: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, filho do Rei do Baião. Nasceu em 1945, no Rio, e morreu cedo, aos 46, num
Carlos A. Buckmann
19 de mai.4 min de leitura


DESPEJO NA FAVELA
DESPEJO NA FAVELA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) A força da lei, quando se abate sobre os mais desprotegidos, não precisa rugir como um leão. Ela sussurra em papel selado. É um mandado, um aviso, uma assinatura que vale mais do que os tijolos e a alma de quem os ergueu. E assim, pretos e pobres aprendem, desde sempre, que a ordem superior nunca foi feita para lhes proteger. Adoniran, poeta do cotidiano, sabia disso. Não cantava revoltas
Carlos A. Buckmann
18 de mai.4 min de leitura


O POETA DO ASFALTO
O POETA DO ASFALTO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Adoniran Barbosa não escrevia canções. Ele colhia dramas. Colhia-os nas esquinas da São João, nos bares da Bela Vista, nos olhos de quem perdia o bonde ou o amor. Era o cronista do cotidiano, um filósofo de tamancos que entendia a cidade como palco de pequenas tragédias, aquelas que não viram manchete, mas que abrem crateras na alma de quem as vive. Ao ouvir "Iracema", percebo que sua can
Carlos A. Buckmann
17 de mai.3 min de leitura


A ALMA DA TRISTEZA
A ALMA DA TRISTEZA (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Adoniran Barbosa, o poeta das esquinas do Bexiga. Filho de italianos que trouxeram na bagagem a saudade e a cachaça, João Rubinato, seu nome de batismo, transformou o lirismo das ruas em filosofia popular. Ali, entre os becos de paralelepípedos e os bares de mesa de fórmica, ele aprendeu que a tristeza não é inimiga, é vizinha de quarto, que bate à porta sem pedir licença. Suas canções, d
Carlos A. Buckmann
16 de mai.3 min de leitura


SÓ NOS RESTA VIVER
SÓ NOS RESTA VIVER (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Ângela Ro Ro, a mulher de voz gutural e olhar de quem já viu o fundo do poço de tão perto e que aprendeu a enxergar nele um céu estrelado. Buscava um sentido para a vida no seu jeito de viver, e que jeito era aquele! Entre noites de blues e manhãs de ressaca existencial, cantava como quem filosofava com o fígado. Dizia Schopenhauer que a vida oscila entre a dor e o tédio; Ângela, essa, os
Carlos A. Buckmann
15 de mai.3 min de leitura


O CORAÇÃO DITA A CANÇÃO
O CORAÇÃO DITA A CANÇÃO (*) (Da série A FILOSOFIA NA MPB) Ângela Ro Ro, sentada ao piano em algum bar da noite maldita, olhos azuis vidrados em alguma dor que só ela sabia cantar: “NÃO HÁ CABEÇA”. Sua vida foi um torvelinho de excessos, amores tortos, madrugadas sem juízo e ressacas de alma. Diziam que era difícil, que bebia demais, que se entregava a tudo com uma fúria autodestrutiva. Mas é justamente nesse chão movediço que nascem as vozes mais verd
Carlos A. Buckmann
14 de mai.4 min de leitura
bottom of page