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A PRESENÇA DA AUSÊNCIA

  • Carlos A. Buckmann
  • 23 de jan.
  • 3 min de leitura

A PRESENÇA DA AUSÊNCIA

            “SE” no encontro fomos o espelho e na fusão tentamos ser um só, hoje a nossa jornada nos leva ao momento em que as mãos se soltam.

            O "SE" de hoje não tem a euforia da chegada, mas a gravidade da despedida.

            Sentamo-nos diante da porta que se fecha, não para lamentar o fim, mas para compreender que a partida é, talvez, a moldura que dá sentido a toda a obra que vivemos.

            A partida é o teste de fogo da alteridade. Quando alguém se vai, seja pela distância geográfica, pelo fim de um ciclo afetivo ou pelo mistério absoluto da morte, o mundo subitamente muda de peso.

            O "SE" da perda é um fantasma que sussurra: "E “SE” eles tivessem ficado?" ou "E “SE” eu tivesse dito aquilo antes do fim?". No entanto, a filosofia nos ensina que o luto não é um vazio, mas uma nova e densa forma de presença. O outro, ao partir, deixa de habitar o nosso espaço para passar a habitar o nosso tempo.

            A perda nos revela a nossa própria finitude.

            Jean-Paul Sartre falava da ausência como uma "presença negativa". Quando esperamos por alguém num café e essa pessoa não vem, a sua ausência "pulsa" no ambiente; ela se torna a característica principal daquele lugar.

            O "SE" da partida é o que transforma o mundo num mapa de lugares que agora "falam" de quem não está.

            Roland Barthes, em seu Diário de Luto, descreveu como a ausência de quem amamos nos obriga a uma reestruturação do "Eu". O "SE" aqui é um escultor: o outro, ao sair de cena, deixa um molde na nossa alma. Tornamo-nos quem somos não apenas pelo que ganhamos, mas pelo que aprendemos a deixar ir.

            Os Estoicos, como Sêneca, nos lembravam de que tudo o que amamos é um empréstimo do universo. O "SE" da sabedoria é o reconhecimento de que a posse é uma ilusão. A coragem de deixar ir é a prova final da liberdade: só amamos verdadeiramente quando não precisamos que o outro seja nossa âncora ou nossa propriedade.

            A partida subverte a lógica da carne. Enquanto o outro está presente, ele é um fato; quando ele parte, torna-se uma narrativa. O "SE" da memória é o que nos permite editar o desfecho, não para apagar a dor, mas para transmutá-la em sentido. A ausência molda a nossa identidade porque nos obriga a caminhar com as próprias pernas, carregando, porém, o rastro de luz que o outro deixou na nossa retina.

            Para ilustrar o "SE" da partida como um ato de preservação, recordo a história do poeta Rainer Maria Rilke e da intelectual Lou Andreas-Salomé. O relacionamento deles foi uma tempestade de paixão e intelecto, mas Rilke, em sua busca quase mística pela poesia, percebeu que a presença constante de Lou, por mais amada que fosse, poderia consumir a sua própria voz.

            A partida não foi um abandono, mas um sacrifício ritual. O "SE" de Rilke foi o da distância necessária: "E “SE” eu partir para que possamos, cada um em sua solidão, ser mais inteiros?". Eles se separaram fisicamente, mas mantiveram uma correspondência que durou décadas, até a morte do poeta. A partida deles provou que o amor pode sobreviver à ausência se houver a coragem de transformar o abraço em liberdade. Lou tornou-se a "presença ausente" que guiou a obra de Rilke. Eles não deixaram de ser; eles deixaram de estar, para que pudessem ser de uma forma mais vasta.

            Encerrar esta crônica nos faz perceber que a dor da partida é o preço que pagamos pela coragem de termos nos encontrado. O risco do "SE" da perda é o da estagnação, o perigo de ficarmos olhando para a porta fechada tanto tempo que não vemos as janelas que a ausência abriu.

            A dialética da perda nos ensina que a vida é um fluxo de sístoles e diástoles. Se o encontro é o enchimento do coração, a partida é o seu esvaziamento necessário para que o sangue continue a circular. O "SE" da partida não deve ser um lamento pelo que acabou, mas uma celebração de que o encontro foi real o suficiente para deixar uma lacuna.

            Afinal, “SE” a morte e a partida são as únicas certezas, o "SE" mais subversivo é aquele que nos permite dizer:

            "E “SE”, apesar da dor de deixar ir, eu faria tudo exatamente do mesmo jeito?".

            A liberdade no amor é entender que o outro nunca foi nosso, e que a beleza de tê-lo conhecido reside justamente na sua capacidade de seguir o próprio caminho, levando um pouco de nós e deixando um pouco de si.

 

 
 
 

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