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A PONTE DOS SUSPIROS

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

A PONTE DOS SUSPIROS

            Deixemos as faíscas da discórdia para trás.

            Se ontem a nossa bússola apontava para a necessidade do limite e da afirmação do "Eu", hoje o ar na nossa biblioteca imaginária parece mais denso, carregado de uma umidade que não vem da chuva, mas do pranto compartilhado.

            Iniciamos cruzando o umbral onde a armadura do indivíduo finalmente se rompe.

            O "SE" de hoje habita a cicatriz.

            A cultura do sucesso e da imagem nos ensina a esconder as nossas rachaduras. Fomos treinados para exibir o brilho, o inteiro, o inabalável.

            No entanto, o "SE" da empatia nos propõe uma subversão da estética: "E “SE” a nossa maior força não residisse na nossa integridade, mas na nossa ferida?".

            A compaixão não é um olhar de cima para baixo, mas um reconhecimento horizontal de que a dor do outro, mesmo que eu não a sinta na carne, é feita da mesma matéria que a minha. É o momento em que a ferida alheia deixa de ser um "problema dele" para se tornar o ponto exato onde a nossa humanidade se reconhece e, por um breve instante, se funde em um destino comum.

            Para a filosofia, a compaixão é o golpe de misericórdia no egoísmo.

            Arthur Schopenhauer, o pessimista que encontrou no sofrimento a chave da ética, afirmava que a compaixão (Mitleid) é o único motivo moral puro. Para ele, ela é a "misteriosa quebra do princípio de individuação". O "SE" de Schopenhauer é metafísico: "E “SE”, ao ver a sua dor, eu perceber que não há distinção real entre você e eu?". Na compaixão, a barreira entre o "Eu" e o "Não-Eu" desaparece.

            Emmanuel Levinas nos coloca diante da "vulnerabilidade do rosto". A ferida do outro é um apelo que me precede. Não é uma escolha; é uma convocação. O "SE" levinasiano é uma refém: "E “SE” eu for o responsável pelo outro, mesmo sem ter feito nada, simplesmente porque ele sofre diante de mim?".     

            Simone Weil, a filósofa da atenção, dizia que "o amor ao próximo é o saber que o outro existe". Para ela, a atenção pura é a forma mais rara e generosa de generosidade. Compadecer-se é, antes de tudo, ter a coragem de olhar para a ferida sem desviar o rosto.

            A empatia é a capacidade de habitar o corpo do outro sem colonizá-lo. É o "SE" que nos permite sentir o frio da pele alheia sem sair do nosso próprio casaco.

            Quando nos aproximamos da dor de alguém, não estamos apenas oferecendo ajuda; estamos recebendo a lembrança da nossa própria fragilidade. A ferida deixa de ser um sinal de fraqueza e passa a ser o elo de uma corrente invisível que nos sustenta no abismo.

            Para ilustrar o poder desse reconhecimento, recordo a trajetória de Edward Livingston Trudeau, o médico que, no século XIX, dedicou sua vida ao tratamento da tuberculose. Naquela época, a doença era uma sentença de morte e um estigma social. Trudeau não estudou a tuberculose em livros; ele a viveu em seus próprios pulmões.

            O "SE" que fundou sua obra foi o da dor compartilhada: "E “SE” eu usar a minha própria fraqueza para construir um abrigo para outros que morrem como eu?". Ele fundou o sanatório de Saranac Lake, onde a medicina era exercida não por uma autoridade distante, mas por alguém que tossia o mesmo sangue que seus pacientes. Ele não apenas curava; ele habitava a ferida. A compaixão de Trudeau provou que o melhor remédio não é a técnica fria, mas a presença de quem conhece o caminho do labirinto porque também se perdeu nele. Ele mostrou que a ferida é o lugar por onde a luz, e a cura, entra na relação humana.

            Claro, que hoje, esse tipo de experiência não é aconselhável. Mas ela existiu e teve seus méritos.

            Encerrar esta crônica exige uma distinção necessária em nosso 2026 de sensacionalismos digitais. O risco do "SE" da empatia é a sua transformação em "espetáculo da dor". Existe uma falsa compaixão que consome o sofrimento alheio para se sentir superior ou "iluminada".

            A verdadeira dialética da compaixão é silenciosa e discreta. Ela não busca o aplauso, mas a restauração da dignidade do outro. O "SE" da compaixão nos ensina que não somos ilhas de autossuficiência, mas partes de um continente de carências.

            Se o universo é vasto e muitas vezes indiferente, a compaixão é a nossa forma de dizer que nenhuma lágrima cai sem ser notada por outro coração.

            A ferida não nos afasta; ela é a fresta na porta por onde finalmente conseguimos entrar na vida uns dos outros.

            Precisamos constatar, que só no reconhecimento do nosso "quebrantamento" mútuo é que encontramos a nossa única e verdadeira inteireza.

 
 
 

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