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O "SE" DA ALTERIDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de jan.
  • 3 min de leitura

O “SE” DA ALTERIDADE

            Agora, meu escritório parece pequeno demais. O "SE" de hoje não cabe entre quatro paredes. Ele exige o corredor, a calçada, o olhar que atravessa a sala e encontra outro par de olhos.

            A maior distância do universo não é medida em anos-luz, mas no milímetro que separa a minha consciência da sua.

            Vivemos encerrados na fortaleza do "Eu", esse monólogo ininterrupto que chamamos de identidade. No entanto, toda a nossa jornada só ganha sentido quando algo, ou alguém, rompe esse isolamento. O "SE" da alteridade nos lança o desafio supremo: e “SE” o outro não for um estranho, mas a única peça que falta para eu entender quem sou?

            Filosoficamente, o outro é o mistério que me constitui.

            Martin Buber nos ensinou que o "Eu" sozinho é uma abstração. Ele propõe a relação Eu-Tu. Para Buber, não somos seres que entram em relação; somos a própria relação. O "SE" de Buber é transformador: "E “SE” eu parar de tratar o mundo como um objeto (Eu-Isso) e começar a tratá-lo como um encontro sagrado?".

            Emmanuel Levinas vai além e coloca a ética no centro de tudo. Para ele, o Rosto do Outro é um mandamento. Quando olho para o rosto de alguém, sua vulnerabilidade me diz: "Não me matarás". O "SE" de Levinas é uma responsabilidade infinita: "E “SE” a dor do outro for mais importante que a minha própria conveniência?".

            O encontro real é uma colisão de mundos. É o momento em que o meu "SE" biológico e o meu "SE" imaginário se curvam diante da presença irrefutável de outra vida.

            Para ilustrar o poder desse "SE", recordo um fato que parou o coração de Nova York em 2010. No MoMA (Museu de Arte Moderna de NY), a artista Marina Abramović realizou a performance "The Artist is Present". Ela passava horas sentada em uma cadeira, imóvel, apenas olhando nos olhos de quem quer que se sentasse à sua frente. Milhares de pessoas passaram por ali.

            O "SE" daquela performance era radical: "E “SE” nos olharmos sem máscaras, sem palavras, apenas existindo um diante do outro?". Pessoas choravam, sorriam, tremiam. Mas o momento que mudou a história daquela obra foi quando Ulay, seu ex-parceiro de vida e arte de quem ela não falava há décadas, sentou-se à sua frente sem aviso prévio.

            Naquele instante, o "SE" tornou-se carne. Não havia passado, não havia traição ou tempo perdido; havia apenas o fio invisível de uma conexão que o tempo não pôde corroer. Eles não disseram uma palavra, mas através do olhar, o perdão e o reconhecimento foram restaurados. Aquele encontro provou que a alteridade é o território onde o "Eu" morre para que o "Nós" possa nascer.

            Percebo que o "SE" do encontro é o mais arriscado de todos. Em um 2026 saturado de conexões digitais, onde o outro é muitas vezes apenas um perfil, um pixel ou uma opinião a ser combatida, corremos o risco de desaprender o encontro real.

            A crítica que faço é à ilusão da proximidade. Estar "conectado" não é o mesmo que estar "em encontro". O encontro exige o risco de ser ferido, o risco de ser transformado e, principalmente, o risco de descobrir que não somos o centro do universo.

            A alteridade nos tira o chão, mas nos dá asas.

            O "SE" das relações é a nossa maior tecnologia de sobrevivência, pois, no labirinto da existência, ninguém encontra a saída sozinho.

            Se o amor é a única verdade, ele só se manifesta quando o "Eu" aceita o desafio de ser espelho e abrigo para o "Outro".

 

 
 
 

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