A MOEDA DE OURO DA EXISTÊNCIA
- Carlos A. Buckmann
- há 6 dias
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A MOEDA DE OURO DA EXISTÊNCIA
Iniciemos nossa caminhada em direção à grande porta de saída da nossa biblioteca imaginária.
O sol está se pondo, e a luz dourada atravessa as janelas, tingindo as lombadas dos livros que escrevemos juntos.
Se na última crônica assinamos o armistício com o passado, hoje o tema nos convida a um gesto mais nobre: a reverência. Sinto que o ar cheira a incenso e terra molhada.
Percebo que, se a vida foi um banquete, a gratidão é a gorjeta generosa que deixamos ao mestre do ágape antes de partir.
Costumamos guardar o "obrigado" para as grandes conquistas, para os dias de sol e para os ganhos mensuráveis.
No entanto, o "SE" da gratidão profunda nos lança uma provocação mística: "E 'SE' a gratidão não fosse uma resposta ao que recebemos, mas uma lente através da qual decidimos enxergar o que nos foi dado, inclusive a dor?".
Acredito firmemente, que ser grato no final da jornada é o ato de reconhecer que até as pedras no caminho serviram para pavimentar a estrada. Sem elas, não haveria trajeto.
Como escreveu o grande tribuno romano, CÍCERO: "A gratidão não é apenas a maior das virtudes, mas a mãe de todas as outras."
Para Cícero, a gratidão era o alicerce da alma. Sem ela, o homem é um poço sem fundo de desejos insaciáveis. O seu "SE" é o da saciedade: "E 'SE' você já tivesse tudo o que precisa para ser grato agora, simplesmente pelo fato de ter tido o privilégio de testemunhar o universo por um breve instante?".
Para recompor o nosso fôlego, vamos observar como a gratidão se manifesta quando o tempo se torna escasso. Ela deixa de ser um protocolo e passa a ser uma necessidade vital.
A Gratidão de Marcus Aurelius: No Livro I de suas Meditações, o imperador não começa com leis ou glórias. Ele começa listando cada pessoa, do avô ao escravo, e o que aprendeu com cada uma. Ele nos ensina que somos um mosaico de influências. E "SE" a sua identidade for, na verdade, um presente coletivo?
A Gratidão de Oliver Sacks: O neurologista e escritor, ao descobrir que tinha poucos meses de vida devido a um câncer terminal, escreveu uma série de ensaios intitulada simplesmente Gratidão. Ele não lamentou a morte; ele celebrou o fato de ter sido "um animal senciente, um ser pensante, neste planeta magnífico". O seu "SE" é o da admiração: "E 'SE' o fato de termos vivido fosse tão improvável e maravilhoso que qualquer reclamação soasse como uma ingratidão cósmica?".
Registro aqui como o "obrigado" pode ser o ato final de uma vida, recordando o compositor Leonard Cohen. Em seu último álbum, lançado pouco antes de sua partida, ele não buscou a redenção ou a lamentação. Ele entoou o seu "Hallelujah" uma última vez.
O "SE" de Cohen foi a gratidão pelo contraste: "E 'SE' a luz só pudesse ser vista através da rachadura de tudo o que é quebrado?". Ele provou que dizer obrigado ao espetáculo inclui agradecer pelas cicatrizes, pelos amores perdidos e pelas noites de solidão. Ele transformou o adeus em um hino de reconhecimento pela complexidade de estar vivo.
Em nosso tempo de "reivindicações constantes" e da sensação de que o mundo nos deve algo, a gratidão profunda é uma rebelião. O marketing nos diz que falta algo. Corremos o risco de passar pelo espetáculo reclamando do conforto da poltrona, enquanto as galáxias dançam diante de nós.
Penso firmemente que a gratidão é o que transforma o que temos em "suficiente". Ela é o fechamento de um ciclo que começou com o nosso primeiro choro ao nascer.
Se o choro do nascimento foi um pedido de entrada, a gratidão é o nosso "valeu a pena" na saída.
Nosso maior legado não é o que acumulamos, mas o "muito obrigado" que conseguimos dizer, com a voz firme, diante da imensidão.
A gratidão é o perfume que exalamos quando a nossa colheita é finalmente transformada em vinho.




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