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A PAZ DA RECONCILIAÇÃO

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de fev.
  • 3 min de leitura

A PAZ DA RECONCILIAÇÃO

            Deixe que os livros da nossa biblioteca imaginária permaneçam fechados por um instante.

            Olhe para o espaço vazio que criamos no texto anterior, ao remover o excesso. Nesse vazio, não há mais onde esconder os fantasmas. É o momento de olhar para o mosaico da própria vida e, em vez de tentar consertar as peças quebradas, aprender a abençoar a rachadura.

            Afinal, a paz não é a ausência de erros, mas a rendição ao fato de que eles são parte da nossa geografia.

            Muitas vezes passamos a vida em um tribunal interno, sendo promotores de nós mesmos. O "SE" da reconciliação nos lança uma absolvição radical: "E 'SE' cada desvio, cada 'não' que você recebeu e cada tropeço vergonhoso fosse o material indispensável para a construção da sua serenidade atual?".

            Reconciliar-se não é concordar com o erro, mas integrá-lo.

Carl Jung foi certeiro quando escreveu: "Ninguém se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas tornando a escuridão consciente."

            A paz interior nasce quando paramos de lutar contra a nossa própria biografia. Jung nos ensinou que a "Sombra", aquilo que detestamos em nós, contém uma energia vital que, quando negada, nos adoece, mas, quando aceita, nos completa. O seu "SE" é um convite à totalidade:

            "E 'SE' a sua perfeição fosse, na verdade, a soma de todas as suas imperfeições aceitas?"

            Para variar o nosso olhar, observe como os grandes pensadores lidaram com o "fim da linha" do arrependimento:

            Friedrich Nietzsche, em seu “Amor Fati”, nos questiona: E "SE" você pudesse amar o seu destino como a um filho querido, sem mudar uma vírgula?

            Quando estudamos Baruch Spinoza e sua “Beatitude”, vamos encontrar um “SE” de conformidade com nossos atos: “E "SE" a felicidade fosse a compreensão de que você agiu conforme a necessidade da sua natureza na época?

            Para SÊNECA, ao escrever sobre a “Tranquilidade da Alma”, nos conforta em fazermos as pazes com o passado: “E "SE" o passado já estivesse morto e a única coisa viva fosse a sua capacidade de estar em paz agora?”

            Para nossa reconciliação com a própria trajetória, olhemos para os autorretratos de Rembrandt. No início da carreira, ele se pintava como um jovem burguês, arrogante e adornado com ouro. No fim da vida, após perder a fortuna, a esposa e os filhos, ele se pintou com uma honestidade brutal: o rosto sulcado, os olhos cansados, a pele flácida.

            O "SE" de Rembrandt foi a coragem da verdade: "E 'SE' a minha beleza residisse justamente na minha decadência e na minha história de perdas?".

            Ele não tentou esconder as sombras sob camadas de verniz. Ao se reconciliar com a sua ruína financeira e física, ele alcançou a maior glória artística da história. Ele provou que a paz interior transborda quando paramos de fingir que somos deuses e aceitamos que somos apenas humanos, feitos de carne e memória.

            Quando o mundo vive "vidas editadas", onde o erro é deletado e o fracasso é visto como falta de “mindset”, corremos o risco de nos tornarmos estranhos para nós mesmos.

            O algoritmo não perdoa o passado, mas a alma precisa do perdão para respirar.

            A verdadeira reconciliação exige que desliguemos a tela e abracemos o "eu" que fomos há dez anos, aquele que errou por medo, por ignorância ou por excesso de vontade.

            A paz interior é o ato de assinar o armistício com o espelho. O cenário está limpo. O essencial foi preservado. Agora, resta apenas o abraço no humano que restou.

            A nossa paz virá não do que fizemos de certo, mas do modo como acolhemos o que deu errado.

            A reconciliação é o ponto em que a narrativa da vida deixa de ser um drama e passa a ser uma elegia.

 
 
 

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