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A ETERNIDADE NO INSTANTE

  • Carlos A. Buckmann
  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

A ETERNIDADE NO INSTANTE

            Abandonemos por um breve instante  a segurança dos relacionamentos para entrar na fluidez do cronômetro.

            A nossa biblioteca imaginária agora parece abrigar um imenso relógio de areia, onde cada grão é um sopro de vida.

            Vivemos em uma cultura de "pós" e "pré". Estamos sempre digerindo o que passou ou ansiosos pelo que virá, tratando o presente como um mero corredor estreito entre dois grandes salões.

            O "SE" do agora é uma interrupção brusca nessa correria:

            "E se este exato segundo for a única eternidade que nos é garantida?".

            Se o tempo é o tecido da vida, o presente é a ponta da agulha; é o único ponto onde a realidade de fato toca a nossa pele.

            O presente é o enigma que desafia a lógica.

            Santo Agostinho, em suas Confissões, lançou o desafio: o passado já não é, o futuro ainda não é, e o presente é um ponto indivisível que foge antes de ser nomeado. O seu "SE" é uma busca por presença: "E “SE” o tempo for apenas uma extensão da alma?". Para ele, o agora é onde a memória e a expectativa se encontram.

            Henri Bergson diferenciava o tempo do relógio (Chronos) da duração vivida (Durée). O "SE" bergsoniano nos ensina que cinco minutos de tédio não são os mesmos cinco minutos de um beijo. O agora é qualitativo, não quantitativo.

            Sêneca, em Sobre a Brevidade da Vida, nos adverte que não temos pouco tempo, mas desperdiçamos muito dele. O seu "SE" é um chamado à urgência: "E “SE” a vida fosse longa o suficiente, mas nós a tornássemos curta por não habitarmos o presente?".

            Habitar o "agora" é um exercício de resistência contra a distração. O "SE" da presença nos pergunta se somos capazes de estar inteiros onde nossos pés estão.      

            A finitude não é uma ameaça que virá no fim da vida; ela é a condição de cada instante. O que torna um momento precioso não é a sua duração, mas a consciência de que ele nunca se repetirá da mesma forma.

            Para ilustrar a potência do agora, recorremos à sabedoria japonesa do Ichigo Ichie, um conceito central na cerimônia do chá. A expressão pode ser traduzida como "um encontro, uma oportunidade".

            Diz-se que o mestre de chá Sen no Rikyū, no século XVI, ensinava que cada reunião para o chá deveria ser tratada como se fosse o único encontro da vida dos participantes. Mesmo que as mesmas pessoas se reunissem no dia seguinte, na mesma sala, o "SE" do Ichigo Ichie lembrava que o ar seria outro, a luz seria diferente e eles mesmos já não seriam os mesmos.

            Eles provaram que a intensidade da vida não depende da grandiosidade dos eventos, mas sim da atenção absoluta ao "aqui e agora". Ao tratar o ordinário (beber chá) como algo sagrado e irrepetível, eles transformavam o tempo linear em tempo profundo. O agora deixava de ser um grão de areia para se tornar um oceano de significado.

            Somos então obrigados a confrontar o nosso 2026 de notificações incessantes. O risco do "SE" do agora é confundir presença com imediatismo.

            Vivemos na ditadura da urgência, onde "viver o momento" muitas vezes significa apenas consumir estímulos rápidos e descartáveis.

            A verdadeira dialética do agora nos ensina que estar presente exige silêncio e profundidade. O estar presente exige presença.

            O "SE" da finitude não deve gerar ansiedade, mas reverência. Se sabemos que o tempo foge (Fugit Irreparabile Tempus), a nossa resposta não deve ser o desespero, mas o capricho.

            A eternidade não é um tempo que nunca acaba, mas uma qualidade de tempo que ignora o relógio.

            O agora é ESSA fresta única, por onde vislumbramos o infinito enquanto tomamos um café ou ouvimos uma música.

 

 
 
 

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