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O VÉU DA IGUALDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 13 de jan.
  • 4 min de leitura

O VÉU DA IGUALDADE

            Minha escrivaninha parece agora um porto onde desembarcaram todas as angústias da semana.

            Já olhamos para o silêncio de Deus; agora, baixamos os olhos para o ruído das ruas, para o asfalto onde a desigualdade se cristaliza.

            O “SE” de hoje não é sobre o tempo ou a carne, mas sobre o pacto que nos mantém unidos, ou que nos separa violentamente.

            Vivemos em um mundo de castas invisíveis, mas palpáveis.

            Em 2026, a distância entre o topo da pirâmide e a sua base não se mede mais apenas em moedas, mas em acesso à informação, à biotecnologia, à proteção contra as crises climáticas.

            A justiça, que nos tribunais ostenta uma venda nos olhos, na prática parece ter uma visão de águia para selecionar quem deve ser punido e quem deve ser poupado.

            Diante desse cenário de privilégios hereditários e méritos forjados, lanço o “SE” mais radical da política:

            E se a justiça fosse cega de fato e todos fôssemos, por um dia, iguais em poder e bens?           

            Para navegar nessa hipótese, precisamos de um guia. No século XX, o filósofo John Rawls propôs um experimento mental fascinante chamado de "A Posição Original". Imagine que você está atrás de um "Véu da Ignorância". Você ainda não nasceu e não sabe quem será na loteria da vida. Você não sabe se será rico ou pobre, homem ou mulher, talentoso ou limitado, de qual etnia será ou em qual país viverá.

            Nesse estado de “SE” absoluto, quais regras você escolheria para a sociedade?

            Rawls argumenta que, por puro egoísmo racional, você escolheria a justiça. Você não criaria leis racistas, pois poderia nascer negro; não criaria leis misóginas, pois poderia nascer mulher; não ignoraria a pobreza, pois poderia nascer na favela. Sob o véu da ignorância, o “SE” nos obriga a ser justos.

            Se vivêssemos esse dia de igualdade absoluta, o que aconteceria quando o sol se pusesse?

            O autor do Contrato Social, Rousseau, diria que finalmente veríamos a face do "bom selvagem", livre das amarras da propriedade privada que corrompe o espírito. A igualdade de bens revelaria que a soberania pertence ao povo, não aos títulos.

            Para Marx, esse “SE” seria o vislumbre do comunismo pleno, onde o Estado se tornaria desnecessário porque a exploração do homem pelo homem teria cessado.

            Mas há uma crítica necessária aqui. A igualdade absoluta de bens e poder, se imposta como uma tábula rasa, apagaria as nossas diferenças? Se todos temos o mesmo poder, quem decide o rumo da colheita?

            A justiça cega corre o risco de se tornar uma justiça muda, incapaz de reconhecer as necessidades singulares de cada indivíduo.

            Ilustrando esse abismo entre a norma fria e a vida pulsante, recordo-me de um episódio ocorrido em 1935, nas entranhas de uma Nova York fustigada pela Grande Depressão. O então prefeito, Fiorello La Guardia, resolveu por um dia assumir o papel de juiz em um tribunal de contravenções. Diante dele, uma senhora idosa, de ombros curvados e mãos trêmulas, foi acusada de roubar um pão. Quando La Guardia a questionou sobre o motivo, ela respondeu com a simplicidade devastadora dos desesperados: "Meus netos estão passando fome".

            O padeiro, agarrado ao seu direito de propriedade, a sua própria fronteira de sobrevivência, recusou-se a retirar a queixa. "A justiça deve ser feita", dizia ele, "para que o exemplo não se espalhe".

            La Guardia, então, proferiu uma sentença que ecoa até hoje como um manifesto da equidade: "A lei é a lei e eu não posso abri-la. Vou multá-la em dez dólares". Mas, enquanto a sentença caía como uma pedra sobre a senhora, o prefeito retirou uma nota de dez dólares do próprio bolso, pagou a multa e acrescentou: "E, além disso, vou multar cada pessoa nesta sala em cinquenta centavos, por vivermos em uma cidade onde uma pessoa precisa roubar pão para que seus netos não morram de fome".

            Este fato nos mostra que “SE” a justiça fosse apenas a aplicação cega da regra, ela teria punido a fome em nome da ordem

            Como dizia Aristóteles, a verdadeira equidade consiste em tratar os desiguais de maneira desigual, na medida de sua desigualdade.

            Ao encerrar esta etapa do Labirinto do “SE”, percebo que o “SE” social é o mais urgente e o mais difícil de sustentar. Na realidade, o "Véu da Ignorância" é constantemente rasgado por aqueles que já nasceram com o mapa do tesouro nas mãos.

            A importância desse “SE” não é criar um mundo onde todos sejam cópias idênticas um do outro. A importância é usar a imaginação filosófica para denunciar o absurdo do presente. O “SE” social é a ferramenta que nos permite sentir a injustiça que não nos atinge diretamente. Ele é a ponte entre a nossa bolha de conforto e a intempérie alheia.

            A realidade não muda com um estalar de dedos igualitário, mas a nossa percepção da realidade muda quando aceitamos o desafio de Rawls.

            “Se eu pudesse ser qualquer um, como eu gostaria que o mundo me recebesse?”

            No fim das contas, a civilização é o esforço contínuo de transformar esse “SE” em "quando".

            Quando seremos, finalmente, justos?

 
 
 

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