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O DESAPEGO RADICAL

  • Carlos A. Buckmann
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

O DESAPEGO RADICAL

            A porta de saída já está aberta e o vento da noite começa a folhear as páginas que escrevemos.

            Se ontem depositamos a nossa "moeda de ouro" da gratidão, hoje o tema nos convida a algo mais desafiador: o relaxamento total dos músculos da alma, e respirar o ar de puro silêncio.

            “SE” a vida foi uma dança, a entrega é o momento em que deixamos de conduzir para sermos conduzidos pelo ritmo final.

            Passamos a existência tentando controlar o fluxo das águas. Construímos barragens, desviamos cursos e lutamos contra a correnteza, acreditando que a nossa vontade é o motor do universo. O "SE" da entrega e do fluir nos lança um paradoxo libertador: "E 'SE' a sua maior vitória não for a conquista do mundo, mas a rendição consciente ao fluxo que nos leva?".

            Acredito que a paz definitiva nasce quando paramos de tratar o destino como um adversário e passamos a tratá-lo como um leito.

            Lao Tzu escreveu: "A vida é uma série de mudanças naturais e espontâneas. Não resista a elas; isso só cria tristeza. Deixe a realidade ser realidade. Deixe as coisas fluírem naturalmente para onde quiserem." 

            Para o mestre do Taoismo, a maior sabedoria é o Wu Wei”, a não-ação ou a ação sem esforço. O seu "SE" é o da harmonia: "E 'SE' você pudesse ser como a água, que não luta contra os obstáculos, mas simplesmente os contorna até chegar ao mar?".

            Observemos como a entrega se diferencia da desistência. Desistir é um ato de derrota; entregar-se é um ato de confiança suprema.

Para o BUDISMO, o ato de fluir é “Anicca” (Impermanência): E "SE" o sofrimento fosse apenas o resultado de tentarmos segurar o que, por natureza, deve partir?

            No ESTICISMO, fluir é o “Amor Fati”: “E "SE" o seu "sim" ao que acontece fosse a única liberdade que ninguém pode lhe tirar?”

            Um Fato: Para ilustrar a entrega como uma demonstração de força, recordo os últimos momentos de Sócrates. Sentenciado à morte, ele não fugiu, embora pudesse ter feito. Ele não amaldiçoou seus juízes nem lutou contra o veneno. Ele bebeu a cicuta com a mesma serenidade com que bebia um vinho em um banquete com amigos.

            O "SE" de Sócrates foi o da curiosidade transcendente: "E 'SE' a morte for uma viagem para um lugar onde finalmente encontrarei a verdade nua?".

            Ao não oferecer resistência ao inevitável, ele transformou sua execução em um triunfo filosófico. Ele provou que quem aprendeu a fluir com a vida também sabe fluir com a sua ausência. A sua entrega não foi passiva; foi o ápice de sua soberania interior.

            Em nosso tempo de "planejamentos estratégicos", "metas de vida" e a ansiedade crônica de querer prever cada segundo, a ideia de entrega soa como heresia.

            Somos ensinados que "querer é poder", mas a vida muitas vezes nos mostra que "ser é ceder". O risco que corremos é chegar ao fim da trilha com os punhos cerrados, tentando segurar areia, enquanto poderíamos estar de braços abertos, sentindo o vento.

            A entrega é a forma mais refinada de inteligência emocional. É o reconhecimento de que somos uma nota em uma sinfonia vasta: não escrevemos a partitura, mas podemos escolher o tom com que vibramos nela.

            A nossa maior obra de arte não é a resistência, mas a fluidez.

            A entrega é o ponto em que o esforço se dissolve na presença. O rio não precisa decidir chegar ao mar; ele apenas continua sendo rio.

 
 
 

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