E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?
- Carlos A. Buckmann
- há 4 dias
- 3 min de leitura

* Esse texto encerra o conjunto de crônicas de meu novo livro, que vai ser publicado com esse título:
E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?
Chegamos ao fim da nossa trilha.
A biblioteca imaginária, que nos serviu de abrigo por trinta e seis dias, agora desvanece-se como uma névoa ao amanhecer, deixando-nos a sós com a vastidão do horizonte.
Não há mais estantes, não há mais citações penduradas nas paredes, há apenas o peso da caneta e a pulsação do seu fôlego. Esta 37ª crônica não é apenas o encerramento de um volume; é a demolição do último refúgio psicológico que o ser humano construiu para suportar a existência: a ilusão da continuidade.
Ao nomearmos este livro com a pergunta definitiva, deixamos de lado a filosofia como um exercício de erudição para abraçá-la como uma ferramenta de sobrevivência emocional.
A ideia do "amanhã" é, talvez, a mais sofisticada forma de autoengano da psique humana, funcionando como um amortecedor metafísico que suaviza o impacto da nossa finitude.
Blaise Pascal, em seus “Pensamentos”, já nos alertava sobre o perigo do “divertissement” (entretenimento ou distração), observando que nunca vivemos verdadeiramente no presente; estamos sempre antecipando o futuro como se ele estivesse demorando a chegar, ou recordando o passado para detê-lo, como se ele tivesse passado rápido demais.
Somos tão imprudentes que erramos em tempos que não nos pertencem e esquecemos o único que é nosso.
O "SE" que dá título a esta obra corta, esse cordão umbilical com a esperança passiva.
Quando removemos o amanhã da equação, o "hoje" deixa de ser uma sala de espera para se tornar o próprio destino.
Psicologicamente, a ausência do amanhã cura a procrastinação da alma, pois nos obriga a enfrentar a pergunta: "quem sou eu, se não tiver mais tempo para me tornar outra coisa?".
Do ponto de vista da ontologia de Martin Heidegger, a morte é a "possibilidade da impossibilidade", o evento que confere totalidade à existência. Heidegger argumentava que o ser humano tende a fugir dessa clareza através do falatório e da curiosidade banal do “SE” coletivo (o Man), vivendo de forma inautêntica.
No entanto, o "E SE NÃO HOUVER AMANHÃ?" é o chamado que nos individualiza de forma absoluta. Ninguém pode morrer no lugar de outro; a finitude é a única coisa que não pode ser compartilhada ou delegada.
Ao aceitarmos que o sol que se põe hoje pode ser o último, abandonamos a "existência anônima" para assumirmos a responsabilidade radical sobre as nossas escolhas.
A maestria filosófica reside em compreender que o limite não é uma punição, mas a moldura que impede que a nossa vida se dilua no nada. É o contorno que transforma a sucessão caótica de dias em uma narrativa com significado.
Psicologicamente, a pergunta pelo amanhã ausente funciona como um potente catalisador de valores.
Epicuro, em sua famosa carta a Meneceu, ensinava que a morte não deve ser temida, pois "enquanto existimos, a morte não está presente; e quando a morte está presente, nós já não existimos".
Se não há amanhã, o medo do futuro morre por falta de objeto. O que resta é o “Hic et Nunc” (Aqui e Agora), não como um hedonismo inconsequente, mas como um compromisso ético com a qualidade do instante.
Se este for o último ato, a palavra que eu digo agora não pode ser amarga; o gesto que faço agora não pode ser mesquinho.
A imortalidade, então, deixa de ser uma duração infinita no tempo (Chronos) para se tornar uma intensidade de sentido no momento certo (Kairos). O livro se fecha aqui para que a sua vida se abra.
O título não é uma sentença de fim, mas uma declaração de urgência: se não houver amanhã, o hoje é tudo o que temos para sermos, finalmente, quem nascemos para ser.




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