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O LABIRINTO DO "SE"

  • Carlos A. Buckmann
  • 7 de jan.
  • 4 min de leitura

O LABIRINTO DO SE

                Debruço-me sobre a escrivaninha e encontro, perdida entre os labirintos da língua portuguesa, uma partícula minúscula, quase invisível, mas dotada de uma força gravitacional avassaladora: a palavra "se".

                Como cronista e eterno aprendiz das nuances do pensamento, fascina-me como duas letras podem sustentar o peso de mundos inteiros.

                Antes de mergulhar no abismo das possibilidades, olho para o "se" com o rigor do gramático. Ele é um camaleão linguístico. Pode ser um pronome apassivador, quando "vendem-se sonhos"; um índice de indeterminação do sujeito, quando "se vive bem aqui"; ou uma partícula integrante do verbo, grudada na alma de verbos como "suicidar-se" ou "arrepender-se". Pode ser até uma partícula expletiva, um enfeite que se joga na frase apenas para dar ênfase: "foi-se a esperança". E há, claro, a conjunção integrante, que introduz a dúvida objetiva: "não sei se o amanhã virá".

                Contudo, é na sua veste de conjunção condicional que o "se" abandona a sintaxe para se tornar filosofia pura. É aqui que ele deixa de ser apenas uma regra e passa a ser a fronteira entre o que somos e o que poderíamos ter sido.

                O "se" condicional é o arquiteto de realidades paralelas. Ele é o gatilho da nossa imaginação mais fértil e, por vezes, mais cruel. Pensemos nas bifurcações que deixamos para trás:

                Se eu tivesse tomado aquele café com o desconhecido na livraria há dez anos, talvez hoje eu não estivesse escrevendo este texto nesta sala solitária, mas sim contando histórias para filhos que nunca chegaram a nascer.

                Se eu tivesse calado a boca naquela discussão acalorada, o silêncio teria preservado um amor que, por uma frase mal-dita, desmoronou como um castelo de cartas.

                Se o mundo tivesse parado antes daquela última grande crise, talvez a nossa fé na humanidade ainda estivesse intacta, guardada em uma redoma de vidro que nunca se quebrou.

                Cada "se" é uma porta para um multiverso pessoal.

                Habitamos essas casas vazias da mente, decorando-as com o mobiliário do "quase".

                Vivemos o luto de vidas que nunca tivemos, chorando por escolhas que não fizemos, como se o pretérito imperfeito do subjuntivo fosse uma pátria onde pudéssemos morar.

                É fascinante como uma partícula tão pequena pode abrir as portas para as maiores mentes da história. Se a gramática nos dá a estrutura do "se", a filosofia nos dá o peso de suas consequências.

                Para Sartre, o "se" não é apenas uma hipótese, é a prova da nossa angústia. Se o homem é condenado a ser livre, cada "se" representa uma escolha que define sua essência.

                Nietzsche provavelmente veria o "se" do arrependimento como um veneno para a alma. Ele propõe o Amor Fati (amor ao fado/destino). Nietzsche nos desafia: se um demônio lhe dissesse que você teria que viver esta mesma vida, com cada dor e cada erro, repetidamente para sempre, você diria "sim"? O "se" aqui é usado para testar sua coragem de aceitar a realidade presente sem ressalvas.

                Para Gottfried Leibniz o "se" é uma ilusão de ótica da nossa compreensão limitada. Para ele, qualquer alteração em um pequeno "se" do passado poderia causar um colapso em toda a estrutura perfeita do presente. O "se" é, portanto, uma impossibilidade lógica dentro de um sistema otimizado.    

                Diante desses grandes pensadores, ao erguer os olhos do papel, a realidade se impõe com a frieza de um veredicto. A verdade nua e crua é que, na tapeçaria da vida, o "se" não possui existência material. Ele é uma ferramenta do pensamento, não da matéria.

                O tempo é uma estrada de mão única e sem acostamento para retornos. A realidade não se altera pelo exercício da hipótese.

                Por mais que eu conjure o "se" com a intensidade de uma prece, o café não foi tomado, a palavra foi dita e a crise aconteceu.

                A vida acontece no indicativo, o modo da certeza, do fato, do que é. O subjuntivo é o modo do desejo, mas o desejo não move montanhas de acontecimentos já cristalizados no ontem.

                No relógio da existência, o "se" é um ponteiro que gira no vácuo.

                Poderíamos, então, concluir que o "se" é inútil? Uma mera tortura intelectual para melancólicos?

                Creio que não.

                Como modificador da realidade, o "se" possui uma importância pedagógica e ética profunda. Ele é o simulador de voo da alma. É através dele que exercitamos a empatia ("se eu estivesse no lugar do outro...") e o aprendizado ("se eu agir diferente da próxima vez..."). O "se" não muda o passado, mas ele é a matéria-prima da prudência para o futuro.

                Filosoficamente, o "se" é o que nos distingue dos outros animais. O bicho apenas é. O homem é o único ser capaz de se olhar no espelho e enxergar a sombra da possibilidade.

                O "se" nos dá a dimensão da nossa liberdade e, consequentemente, da nossa responsabilidade.

                Ele nos lembra que, embora a realidade não mude depois de consumada, a escolha que faremos daqui a um segundo está, agora mesmo, suspensa nesse fio invisível.

                O "se" é a ponte que construímos entre a nossa insignificância e o infinito. É a prova de que, mesmo presos à finitude dos fatos, somos capazes de sonhar com o absoluto.

                Será que você concorda com essa visão?

                Ou, quem sabe, se tivéssemos trilhado outro raciocínio, chegaríamos a uma conclusão oposta?

                Volto à escrivaninha e percebo que, apesar de tudo, continuo escrevendo e, talvez, seja esse o meu ‘se’ possível.

 

 
 
 

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