A MATRIZ DA CRIAÇÃO
- Carlos A. Buckmann
- 31 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

A MATRIZ DA CRIAÇÃO
Chegamos ao ápice da nossa jornada.
Após atravessarmos as águas da Causalidade, onde compreendemos que nada escapa à grande engrenagem das leis universais, aportamos no sétimo e último degrau da sabedoria contida no Caibalion.
Este princípio não apenas encerra o ciclo, mas explica como a vida e a criação se renovam perpetuamente. Conforme nossa análise neutra e filosófica dos textos de Hermes Trismegisto, debruçamo-nos agora sobre a força motriz da existência.
O Sétimo Princípio: O Gênero - A Matriz da Criação
Ao observar o florescer de uma ideia ou o nascimento de uma estrela, percebo que nada surge do vazio absoluto. Há sempre uma interação, um encontro de forças que precede a manifestação.
O Caibalion sintetiza essa observação em sua máxima final:
“O Gênero está em tudo; tudo tem os seus princípios masculino e feminino; o Gênero se manifesta em todos os planos”.
É fundamental notar que a obra distingue o gênero do conceito puramente biológico de sexo; o sexo é apenas a manifestação física do gênero no plano orgânico.
Uma análise criteriosa do texto hermético revela que a palavra "gênero" deriva da raiz latina que significa "gerar", "criar" ou "produzir". Segundo o livro, o princípio Masculino representa a vontade, o impulso, a energia ativa que projeta.
O princípio Feminino representa a criatividade, a imaginação, a energia receptiva que acolhe e molda a forma.
A criação só é possível quando essas duas forças agem em harmonia. Sem o feminino, o masculino é energia dispersa sem propósito; sem o masculino, o feminino é potencialidade sem direção.
Na sociedade contemporânea, este princípio se manifesta para além das discussões de identidade. Ele descreve o equilíbrio entre a ação (fazer) e a intuição (sentir). Uma cultura que privilegia apenas o polo masculino tende à agressividade e ao esgotamento; uma que se isola no polo feminino pode estagnar na contemplação sem realização.
A lógica hermética defende que funções essenciais e complementares são fundamentais para a evolução coletiva.
Pensadores de diversas vertentes tocaram nesse ponto nevrálgico.
Carl Jung, na psicologia analítica, propôs os conceitos de Animus e Anima, sugerindo que todo indivíduo possui componentes psicológicos de ambos os gêneros que precisam ser integrados para a totalidade do ser.
No campo da filosofia grega, Anaxágoras já falava do “Nous” (Mente) como o princípio ativo que organiza a matéria passiva.
Mesmo no pensamento oriental, o Taoismo detalha essa interação através do constante movimento entre o céu (criativo/ativo) e a terra (receptivo/gerador).
No mundo dos negócios, a Lei do Gênero é a fórmula por trás de qualquer empresa bem-sucedida. Analisando o ambiente corporativo sob esta lente, percebemos que um projeto é um "filho" mental que exige uma gestação.
Ideação e Execução: O momento da estratégia e do "brainstorming" é predominantemente feminino (geração de potencialidades), enquanto a implementação rigorosa e a conquista de mercado são predominantemente masculinas (projeção de vontade). Empresas que falham costumam ter um desequilíbrio aqui: ou têm ótimas ideias que nunca saem do papel, ou executam com força, mas sem uma visão criativa subjacente.
Cultura Organizacional: Atualmente, o mercado valoriza o "Soft Skills" (empatia, escuta, colaboração, polos femininos) tanto quanto o "Hard Skills" (metas, resultados, competição, polos masculinos), reconhecendo que a sustentabilidade de um negócio exige a união desses dois princípios.
Um exemplo contemporâneo claro é o desenvolvimento de produtos tecnológicos. A fase de “Design Thinking” (processo iterativo e colaborativo) e experiência do usuário (UX) é a face receptiva e empática (feminina) do gênero, enquanto a codificação e o lançamento do software representam a face ativa e estruturante (masculina). O sucesso do produto depende da integração perfeita dessas duas fases.
Ao encerrar esta crônica e, com ela, nossa série sobre os Sete Princípios, observo com sobriedade a estrutura que Hermes Trismegisto nos legou. O Princípio do Gênero nos convida a uma reflexão crítica sobre a nossa própria "esterilidade" em certas áreas da vida: onde falhamos em criar, possivelmente estamos negando um dos polos.
Esta lei é afirmativa ao nos mostrar que somos seres completos em potencial, dotados das ferramentas para gerar nossa própria realidade.
A neutralidade da análise nos permite ver que não se trata de uma doutrina de exclusão, mas de uma mecânica de cooperação universal.
O universo não é um monólogo de força, nem um silêncio de recepção; é um diálogo eterno.
Ao compreendermos que o masculino e o feminino habitam em nós e em cada átomo, deixamos de ser meros espectadores da criação para nos tornarmos conscientes do nosso papel como coautores do cosmos.
Concluímos nossa jornada.
Para encerrar este ciclo, ofereço uma síntese da arquitetura hermética, onde as leis não operam isoladas, mas como uma engrenagem única e indivisível.
Ao olhar para trás, percebo que os sete princípios não são degraus, mas fios de uma mesma tapeçaria. Se o Mentalismo define a substância (o universo é pensamento), a Correspondência nos dá o mapa (o micro reflete o macro). Essa mente universal não é estática; ela se manifesta através da Vibração (o movimento) e se organiza em Polaridades (os opostos).
Encerrar esta análise me faz observar que a sabedoria do Caibalion reside na negação do caos. O texto nos propõe um universo de ordem absoluta, onde a liberdade humana não nasce da rebeldia contra as leis, mas da maestria em navegar por elas.
Em um mundo contemporâneo fragmentado, essa visão oferece uma síntese rigorosa: somos, ao mesmo tempo, o pensamento, o pensador e a própria criação em movimento.
Que 2026 nos abra um novo ciclo de paz e harmonia, na busca de um mundo melhor.




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