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O ARQUITETO DO SILÊNCIO

  • Carlos A. Buckmann
  • 24 de jan.
  • 3 min de leitura

O ARQUITETO DO SILÊNCIO

            Ao chegarmos a este ponto da nossa jornada sobre o encontro, esbarramos na ferramenta que nos trouxe até aqui: a palavra.

            Mas, ironicamente, para falar da profundidade das relações, precisamos reconhecer o limite do que pode ser dito.

            O "SE" de hoje habita a fronteira entre o som e o vácuo, entre a frase articulada e o suspiro que a precede.

            A linguagem é o nosso primeiro e mais constante esforço de colonização do outro. Através dela, tentamos traduzir o caos das nossas sensações em pontes gramaticais. O "SE" da linguagem é uma promessa de transparência:

            "E “SE” eu pudesse dizer exatamente o que sinto, você finalmente me habitaria?".

             No entanto, a filosofia nos alerta que a palavra é, ao mesmo tempo, um convite e um véu. Se as palavras são as luzes que iluminam a nossa relação, o silêncio é a arquitetura que permite que essas luzes brilhem sem nos cegar.

            Para a filosofia, a comunicação é uma aporia, um caminho sem saída que insistimos em percorrer.

            Ludwig Wittgenstein, em sua fase inicial, sentenciou: "Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". Ele percebeu que o "SE" da lógica tem limites claros. “SE” tentamos forçar o mistério da alma em definições rígidas, acabamos não por revelar a verdade, mas por asfixiá-la. A linguagem seria a "casa do ser", mas toda casa tem seus cantos escuros e porões inacessíveis.

            Martin Heidegger acreditava que a linguagem fala através de nós, e não o contrário. O "SE" de Heidegger nos convida à escuta: "E se o silêncio não fosse a ausência de som, mas a forma mais alta de fala?". Para ele, é no silêncio que o "ser" das coisas se manifesta sem a interferência do ruído utilitário do cotidiano.

            George Steiner, em Linguagem e Silêncio, argumenta que certas experiências humanas (o sublime da arte ou o horror da tragédia) levam a palavra ao seu ponto de ruptura. Nessas horas, o "SE" da comunicação torna-se um ato de reverência: "E “SE” o nosso silêncio compartilhado for o único testemunho honesto do que vivemos?".

            Nas relações, o que não dizemos molda o vínculo tanto quanto as declarações de amor ou as discussões acaloradas. Existe um "SE" que protege a intimidade: o reconhecimento de que há partes do outro que nunca serão traduzidas.

            O silêncio compartilhado é a prova de que a confiança atingiu um estado de repouso. Só nos calamos confortavelmente diante de quem não precisamos mais convencer de nossa existência.

            Para ilustrar como o silêncio pode ser a forma mais pura de encontro, recordo o histórico encontro entre dois gigantes do pensamento: Thomas Carlyle e Ralph Waldo Emerson.

            Emerson viajou dos Estados Unidos à Escócia para conhecer Carlyle, cujo intelecto ele admirava profundamente. Quando finalmente se encontraram em uma noite de inverno, sentaram-se diante de uma lareira. O que se seguiu não foi uma torrente de erudição ou debates acalorados sobre o destino da humanidade. Pelo contrário: eles permaneceram sentados, observando o fogo e a neve que caía lá fora, por horas a fio, sem proferir uma única palavra.

            Ao final da noite, na hora da despedida, Carlyle apertou a mão de Emerson e disse: "Esta foi a melhor conversa que já tive em toda a minha vida".

            O "SE" daquela noite foi o da sintonia: eles entenderam que, no nível em que se encontravam, as palavras seriam apenas ruídos desnecessários sobre uma verdade que já estava presente no silêncio compartilhado. Eles provaram que o encontro real acontece quando a linguagem reconhece sua derrota e permite que a alma apenas esteja.

            Encerrar essa crônica nos faz olhar para o nosso mundo de 2026, onde o excesso de comunicação digital criou uma ilusão de entendimento.

            Falamos mais do que nunca, mas raramente nos comunicamos. O risco do "SE" da linguagem é acreditarmos que, “SE” rotularmos o outro, nós o possuímos.

            A dialética do silêncio nos ensina que o respeito é o reconhecimento da ilegibilidade alheia.

            O "SE" mais precioso de uma relação não é o que busca a palavra perfeita, mas o que permite o silêncio seguro. Se a linguagem é o mapa, o silêncio é o território. Não podemos morar no mapa.

            Afinal, as pontes mais resistentes são aquelas que permitem que o rio do indizível corra livremente por baixo delas.

            O verdadeiro encontro não é aquele onde tudo foi explicado, mas aquele onde nada precisa ser dito para que tudo tenha sentido.

 
 
 

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