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A JANELA DE PROMETHEUS

  • Carlos A. Buckmann
  • 14 de jan.
  • 3 min de leitura

A JANELA DE PROMETHEUS

            O peso das crônicas anteriores ainda reside nos meus ombros, mas a sensação agora é de uma leveza súbita, como quem atravessa uma densa névoa e subitamente enxerga o horizonte.

            No Capítulo I, esgotamos o "SE" como uma ferramenta de análise da realidade: o tempo que nos devora, a biologia que nos limita, a sociedade que nos encurrala.

            Mas hoje, ao abrirmos o Capítulo II, o “SE” deixa de ser um lamento para se tornar um cinzel.

            “SE” a realidade é a nossa prisão, a arte é o plano de fuga.

            No capítulo anterior, descobrimos que o “SE” não muda o fato consumado; hoje, descobrimos que o “SE” é o único capaz de criar fatos novos.

            Se a natureza nos deu o barro, foi o “SE” que nos deu a estátua.  

            A arte começa exatamente onde a biologia e a física terminam.

            Aristóteles, em sua Poética, falava da “mimesis”, a imitação da vida. Mas ele ia além: a arte não apenas copia o que existe, ela completa o que a natureza foi incapaz de realizar. A arte é o “SE” que preenche as lacunas do universo.

            Quando Leonardo da Vinci desenhava máquinas voadoras séculos antes do primeiro motor roncar, ele não estava apenas sonhando; ele estava exercitando o "SE" da Invenção. Ele olhava para o pássaro e perguntava:

            "E se o homem pudesse emprestar essa mecânica?".

Neste novo capítulo, o “SE” não será mais uma conjunção de dúvida, mas de potência.

            Oscar Wilde dizia que "a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida". O que ele queria dizer é que o nosso olhar sobre o mundo é educado pelas invenções do espírito. Só vemos a beleza de um pôr do sol porque, algum dia, um pintor nos ensinou a olhar para ele com o “SE” da estética.

            Pablo Picasso afirmava que "tudo o que você pode imaginar é real". Para o artista, a barreira do "Real" lacaniano que discutimos anteriormente é transponível.

            “SE” eu imagino um relógio derretendo em uma paisagem árida, como fez Salvador Dalí, esse relógio passa a existir na consciência coletiva da humanidade. Ele se torna um fato psicológico, tão real quanto o relógio de pulso que marca minhas horas de trabalho.

            A invenção é o “SE” que se materializa. Cada objeto que nos rodeia em 2026, da tela por onde nos comunicamos à vacina que corre em nossas veias, foi, um dia, apenas uma hipótese frágil na mente de alguém que se recusou a aceitar o mundo como ele era.

            Ao iniciar este capítulo, percebo que a arte e a invenção são as únicas formas legítimas de rebeldia contra a tirania da nossa finitude.

            O “SE” artístico é o que nos permite ser mil pessoas sem sair do lugar, viver mil vidas sem envelhecer um minuto.

            Todavia, há um risco filosófico: o de preferirmos a invenção à vida. Se a arte é o espelho, corremos o risco de perdermo-nos na imagem e esquecermos de quem a sustenta.

            Mas, entre o tédio de um mundo puramente funcional e o caos de um mundo puramente imaginário, a arte se equilibra na corda bamba do "quase".

            Ela nos lembra que, embora o “SE” não mude o passado, ele é o único motor capaz de desenhar um futuro que ainda não existe.

            A arte é o “SE” que diz:

            "O mundo é isto, mas poderia ser aquilo". 

            E, nesse intervalo, nós encontramos a nossa liberdade.

 

 
 
 

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