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A ALQUIMIA DA LIBERDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 27 de jan.
  • 3 min de leitura

A ALQUIMIA DA LIBERDADE

            Retomamos a nossa trilha hoje com os pés um pouco mais leves, mas com o olhar atento.

            Se ontem habitamos a cicatriz através da compaixão, hoje precisamos decidir o que faremos com o peso que ainda carregamos na mochila.

             Nosso tema é o ponto de ruptura da lógica do "olho por olho". O "SE" de hoje é, talvez, o mais difícil de pronunciar, pois exige que renunciemos ao nosso direito mais primitivo: o direito à revanche.

            O ressentimento é uma forma de prisão temporal. Quando somos feridos, ficamos acorrentados ao instante da dor, repetindo o "é assim" da ofensa em um ciclo infinito.

            O perdão, por outro lado, é a ferramenta mais potente de subversão da causalidade. Ele é o "SE" que interrompe a corrente: "E se o passado não tiver a última palavra sobre quem eu sou e como eu ajo?".

            Perdoar não é esquecer, nem concordar com o erro; é o ato soberano de decretar que a dor de ontem não ditará o passo de amanhã.

            Para a filosofia, o perdão é o que nos permite começar de novo.

            Hannah Arendt, em A Condição Humana, argumenta que sem o perdão, estaríamos presos a uma causalidade irreversível. Cada ato errado geraria uma reação, que geraria outra, em uma vingança perpétua. O "SE" de Arendt é a única força capaz de romper o automatismo da história: "E “SE” pudéssemos agir, em vez de apenas reagir?". O perdão é a única ação verdadeiramente livre, porque não é previsível nem compulsória.

            Friedrich Nietzsche via no "ressentimento" (Ressentiment) um veneno que adoece a alma. Para ele, o espírito forte é aquele capaz de esquecer e digerir o passado. O perdão, nesse sentido, é uma higiene da vontade, uma forma de não permitir que o agressor continue habitando a nossa mente.

            Jacques Derrida trazia o paradoxo: “o perdão só é real quando perdoa o imperdoável". O "SE" derridiano nos desafia ao limite: "E SE a graça do perdão for justamente o que escapa à lógica da troca e do mérito?".

            A redenção é o "SE" que atua sobre a identidade. Enquanto o perdão é um ato que liberamos para o outro, a redenção é o processo pelo qual resgatamos a nós mesmos. É a recusa em ser definido por um erro, seja ele cometido ou sofrido. É o momento em que a narrativa da vida deixa de ser uma tragédia de erros para se tornar um épico de aprendizado.

            Ilustrando como o "SE" do perdão pode reorientar o destino de uma nação inteira, olhemos para a África do Sul pós-Apartheid em 1995.

            O país estava à beira de uma guerra civil sangrenta, alimentada por décadas de segregação e tortura. O veredito do mundo era: "haverá vingança".

            Mas Nelson Mandela e Desmond Tutu invocaram um "SE" subversivo através da Comissão da Verdade e Reconciliação.

            Eles propuseram que, se os agressores confessassem plenamente seus crimes perante as vítimas, poderiam obter anistia. Não foi uma busca por justiça punitiva, mas por uma "justiça restaurativa". O mundo assistiu, incrédulo, a vítimas abraçando seus antigos torturadores. Eles provaram que o perdão é uma tecnologia política de sobrevivência.

            Mandela sabia que, se não perdoasse, ao sair da prisão, ele ainda continuaria prisioneiro do ódio de seus carcereiros. Ele escolheu o "SE" da paz para não ser consumido pelo "É" da vingança.

Isso nos obriga a uma honestidade brutal.

            Em nossa era, marcada por tribunais digitais onde o perdão é visto como fraqueza e o "cancelamento" é a norma, a redenção tornou-se uma mercadoria rara. O risco do "SE" do perdão é a sua banalização, perdoar sem que haja uma mudança real, transformando o ato em uma permissão para o abuso.

            A verdadeira dialética do perdão nos ensina que ele é um presente que damos, antes de tudo, a nós mesmos. Ele nos devolve o futuro.

            O "SE" da redenção não apaga o que aconteceu, mas altera a voltagem da lembrança. O passado passa a ser um professor, não um carcereiro.

            Se somos todos seres "quebrantados", o perdão é o ouro que une as nossas partes, transformando a nossa história em um Kintsugi existencial. (Kintsugi é a técnica japonesa ancestral de reparar cerâmicas quebradas utilizando laca misturada com pó de ouro, prata ou platina.)

            A maior subversão do tempo não é a viagem ao passado para mudá-lo, mas a permanência no presente com a coragem de não deixar que o passado nos mude para pior.

 
 
 

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