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A DANÇA DAS FRONTEIRAS PESSOAIS

  • Carlos A. Buckmann
  • 26 de jan.
  • 3 min de leitura

A DANÇA DAS FRONTEIRAS PESSOAIS

            O escritório, antes preenchido pelo silêncio cúmplice das palavras e pelo eco dos afetos, agora parece vibrar com uma tensão elétrica.

            Chegamos ao momento inevitável em que o "Nós" deixa de ser uma paisagem idílica para se tornar um território de fronteiras em disputa. O "SE" de hoje não busca a paz, mas a verdade; ele nos pergunta se somos capazes de amar não a imagem que projetamos no outro, mas a realidade incômoda de sua diferença.

            O conflito costuma ser visto como o fracasso do encontro. Fomos educados para acreditar que a harmonia é o estado natural das relações saudáveis e que qualquer faísca de desentendimento é um sinal de erosão.

            No entanto, o "SE" do conflito propõe uma inversão radical: "E se o desajuste for a única prova de que o outro é, de fato, real?".

             Enquanto há concordância absoluta, há o risco da simbiose ou da anulação; o conflito é o instante em que o outro se recusa a ser uma extensão do meu desejo e afirma sua soberania como um universo divergente.

            Para a filosofia, a discórdia é o parto da consciência.

            G.W.F. Hegel, em sua famosa Dialética do Senhor e do Escravo, argumenta que a autoconsciência só existe através do reconhecimento. Mas esse reconhecimento não é pacífico; ele nasce de uma "luta de vida ou morte". O "SE" hegeliano nos mostra que só passamos a existir plenamente para o outro quando marcamos nossa posição, muitas vezes através do enfrentamento.

            Emmanuel Levinas nos lembra que o "Outro" é o que me resiste. Se o outro concorda com tudo o que eu digo, ele é apenas o meu eco. O conflito é a manifestação da Alteridade Radical: é quando o rosto do outro diz "não" às minhas pretensões de totalidade.

            Karl Jaspers falava da "Luta Amorosa" (Liebender Kampf). Para ele, a comunicação verdadeira não é a ausência de luta, mas uma luta onde não se busca a vitória sobre o outro, mas a revelação mútua de suas verdades mais profundas.

            O conflito estabelece onde eu termino e onde você começa. Sem essa demarcação, o amor torna-se uma névoa onde ambos se perdem. O "SE" do desentendimento é um teste de realidade: ele nos obriga a negociar o espaço, a reconhecer que o outro possui um tempo, uma lógica e uma dor que não me pertencem. O conflito não rompe o vínculo; ele o ancora na terra firme do que é possível.

            Para ilustrar a fecundidade do conflito, recordo a relação entre Hannah Arendt e Karl Jaspers.

            Jaspers não foi apenas o mestre de Arendt, mas seu amigo de uma vida inteira. A correspondência entre os dois é um monumento à "luta amorosa". Eles discordavam frequentemente, sobre política, sobre a Alemanha, sobre a natureza do mal.

            No entanto, o "SE" que regia a troca deles era: "E se a nossa discordância for o que mantém a nossa amizade viva?". Eles nunca buscaram converter o outro à sua própria visão. Em vez disso, usavam o conflito para afiar seus próprios argumentos e para honrar a independência intelectual um do outro. O conflito não era um abismo entre eles, mas o solo fértil onde o respeito mútuo criava raízes. Eles provaram que é possível caminhar juntos sem precisar marchar no mesmo passo.

            Isso nos leva a uma reflexão sobre a tolerância em 2026. Em um mundo de bolhas digitais, onde o conflito é rapidamente transformado em cancelamento ou ódio, perdemos a capacidade da "luta amorosa". O risco do "SE" do conflito é a sua degeneração em violência; mas o risco da sua ausência é a hipocrisia e o sufocamento da individualidade.

            A dialética do desentendimento nos ensina que o amor maduro não é aquele que nunca briga, mas aquele que sabe brigar para salvar a relação da estagnação.

            O "SE" do conflito nos devolve a humanidade ao aceitar que o outro tem o direito de ser outro.

            Afinal, a paz verdadeira não é o silêncio dos cemitérios, onde nada se move, mas a capacidade de sustentar a tensão entre dois mundos que decidiram não se destruir, apesar de não se fundirem.

            O conflito é a prova de que ainda estamos vivos e de que o outro ainda é um mistério a ser respeitado.

 
 
 

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