O HORIZONTE NECESSÁRIO
- Carlos A. Buckmann
- 20 de jan.
- 3 min de leitura

O HORIZONTE NECESSÁRIO.
O "SE" de hoje não nasce de uma falta individual, mas de um anseio coletivo. É a projeção de um "lugar bom" que, curiosamente, não se encontra em mapa nenhum.
Oscar Wilde escreveu certa vez que um mapa do mundo que não inclua a Utopia não vale sequer a pena olhar, pois deixa de fora o único território onde a humanidade está sempre a desembarcar.
A Utopia é o "SE" político e espiritual por excelência. Ela é o grito de:
"E se pudéssemos projetar o mundo perfeito?".
Etimologicamente, o termo cunhado por Thomas More brinca com dois sentidos: ou-topos (lugar nenhum) e eu-topos (lugar bom). A utopia é, portanto, o "bom lugar que não existe". Mas a sua inexistência geográfica não significa ineficácia existencial. Pelo contrário, a utopia é a bússola que impede que nos percamos no cinismo do "é o que temos para hoje".
Filosoficamente, a utopia funciona como um ideal regulador.
Immanuel Kant falava sobre o "Reino dos Fins", uma sociedade ideal onde cada ser humano é tratado como um fim em si mesmo, e nunca como um meio. Sabemos que o mundo real nos trata, muitas vezes, como engrenagens ou estatísticas, mas o "SE" kantiano nos obriga a agir como se o reino da dignidade absoluta estivesse ao alcance da nossa próxima decisão.
Ernst Bloch, em seu monumental O Princípio Esperança, nos fala do "Ainda-Não" (Noch-Nicht). Para ele, a utopia não é um sonho vazio, mas uma consciência antecipadora. É a percepção de que a realidade está grávida de possibilidades que ainda não nasceram. O "SE" da utopia é o que nos permite ouvir o batimento cardíaco desse mundo novo.
O maior crítico da utopia dirá que ela é perigosa, pois a busca pela perfeição pode justificar a tirania. É verdade: quando o "SE" da utopia se torna um dogma rígido, ele vira distopia. Mas a utopia de que falo aqui é aquela descrita pelo escritor Eduardo Galeano, citando o cineasta Fernando Birri.
Ele dizia que a utopia está no horizonte. Eu caminho dois passos, ela se afasta dois passos. Eu caminho dez passos e o horizonte corre dez passos para lá. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. "Para que serve a utopia, então?", perguntavam. E a resposta é a chave do nosso capítulo: "Serve para isso: para caminhar".
Para ilustrar como o "SE" da utopia nos ensina a caminhar com retidão, recordo a história de Neve Shalom (Wahat al-Salam), uma pequena aldeia situada exatamente entre Tel Aviv e Jerusalém. Em uma região marcada por décadas de um "é assim" sangrento e insolúvel, um grupo de israelenses e palestinos decidiu viver sob o "SE" da utopia.
Eles fundaram uma comunidade onde judeus e árabes vivem juntos, educam seus filhos em ambos os idiomas e compartilham a gestão da aldeia. O mundo ao redor diz que a paz é impossível, que a vingança é o único mapa. Mas os habitantes de Neve Shalom decidiram agir como se a paz já tivesse vencido.
Eles não mudaram o destino das nações, mas mudaram a realidade do solo que pisam. A utopia deles não é um lugar nenhum; é um lugar que prova, todos os dias, que o impossível é apenas algo que ainda não foi tentado com persistência suficiente.
Encerrar esta jornada pelo imaginário nos leva a uma conclusão vital: a utopia não é o destino, mas a qualidade do passo. O "SE" da perfeição nos ensina a retidão não porque esperamos chegar ao paraíso, mas porque, ao projetarmos o melhor, denunciamos o que há de pior no presente.
A dialética da utopia nos mostra que somos seres de transcendência. “SE” pararmos de projetar o "mundo perfeito", aceitaremos qualquer migalha de justiça.
O risco da utopia é a frustração; mas o risco da falta de utopia é a morte da alma coletiva.
Caminhar com retidão no mundo que temos exige que tenhamos um olho no barro da estrada e o outro na estrela guia do "SE".
Afinal, o mundo só muda porque alguns "loucos" tiveram a audácia de agir como “SE” a mudança já fosse um fato.
A utopia é o oxigênio da esperança.




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