O RISO NO ESCURO
- Carlos A. Buckmann
- 16 de jan.
- 3 min de leitura

O RISO NO ESCURO
Sentamo-nos hoje à beira de um precipício diferente. Se nas crônicas anteriores o abismo nos pedia silêncio, reverência ou pavor, hoje ele nos convida ao escárnio.
Percebo, ao olhar para a biblioteca da minha mente, que o ser humano é o único animal que, ao tropeçar na própria finitude, é capaz de rir do tombo. O "SE" do humor é, talvez, a nossa subversão mais elegante; é a fresta por onde escapamos quando todas as portas da lógica estão trancadas por fora.
O humor não é o oposto do sério, mas o oposto do rígido. Ele nasce no exato momento em que a realidade, sempre tão cheia de si e de suas leis imutáveis, comete um deslize.
É o “SE” que pergunta:
"E “SE” esse destino solene for, na verdade, uma piada de mau gosto?".
A ironia é a nossa gramática da desobediência; ela pega o peso do mundo e, por um instante, o torna volátil, transformando o chumbo da tragédia no hélio do riso.
Henri Bergson, em sua obra clássica sobre o riso, sugeria que rimos quando percebemos "o mecânico encrustado no vivo". Rimos da rigidez. O destino tenta nos transformar em engrenagens de um relógio trágico, mas o humor é o grão de areia que trava a máquina.
O “SE” cômico nos permite ver o rei nu, o carrasco tropeçando na própria túnica e a morte usando sapatos de palhaço. Quando rimos, estamos dizendo ao universo:
"Você pode me esmagar, mas não pode me obrigar a levar você a sério".
Filosoficamente, o humor é uma forma de transcendência horizontal. Não buscamos o céu para escapar da dor; buscamos a lateralidade do olhar.
Friedrich Nietzsche, o filósofo que nos ensinou a dançar à beira do nada, dizia que "o homem sofre tão profundamente que precisou inventar o riso". Para ele, rir é um ato de coragem suprema. É o “SE” do sobrevivente: "E “SE” eu rir do abismo até que ele se sinta desconfortável comigo?".
Mikhail Bakhtin nos trouxe o conceito de carnavalização. No carnaval da vida, as hierarquias são invertidas pelo “SE” da paródia. O sagrado torna-se profano, o alto torna-se baixo. O riso nivela o terreno; diante de uma boa piada, o tirano e o escravo compartilham a mesma fragilidade respiratória.
O humor é a nossa forma de "editar" a autoridade do Real. Quando a vida nos impõe uma situação intolerável, o “SE” da ironia cria uma distância de segurança. Não é uma fuga, é um reposicionamento. Se eu posso rir da minha própria miséria, eu já não sou mais escravo dela; tornei-me seu observador crítico.
Lembro-me da história de Viktor Frankl, psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração. Ele relatava que, mesmo no inferno, os prisioneiros inventavam piadas sobre o futuro, sobre o absurdo da própria comida ou sobre as manias dos guardas. Era o “SE” biológico sendo derrotado pelo “SE” espiritual. O humor era o único oxigênio disponível em um lugar projetado para o sufocamento.
Ali, o riso não era alegria, era resistência. Era a prova de que, enquanto o homem puder articular uma ironia, o seu "eu" permanece indomado.
Encerrar esta reflexão me faz pensar que o “SE” do humor é a nossa última linha de defesa contra o niilismo. A tragédia nos diz que o fim é inevitável; o humor responde: "Pode até ser, mas o caminho até lá é hilário".
A dialética do riso nos mostra que a seriedade absoluta é uma forma de cegueira. Quem não consegue rir de si mesmo está condenado a ser uma estátua, e estátuas não caminham pelos labirintos que estamos explorando.
O humor nos devolve a humanidade ao aceitar a nossa própria ridicularidade.
O “SE” cômico não resolve o problema, mas dissolve a importância do problema.
E, às vezes, dissolver a importância é o primeiro passo para encontrar a saída.
Afinal, “SE” o universo não tem sentido, o mínimo que podemos fazer é apreciar o absurdo da peça enquanto as luzes ainda estão acesas.




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