top of page

NOSTALGIA E SAUDADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 3 de fev.
  • 3 min de leitura

NOSTALGIA E SAUDADE          

            Entramos hoje em uma das salas mais penumbrosas da nossa biblioteca imaginária, onde a luz entra de soslaio, iluminando apenas as partículas de poeira que dançam no ar.

            O tema nos obriga a caminhar por esse terreno movediço que separa o que fomos do que somos agora.

            Precisamos entender que, se a vida é movimento, a saudade é a prova de que algo em nós se recusa a ser apenas esquecimento.

            A cultura da produtividade constante nos ensina que olhar para trás é perder tempo, um sinal de estagnação.        No entanto, o "SE" da nostalgia e da saudade nos lança um desafio de sensibilidade:

             "E 'SE' a saudade não for uma âncora que nos prende ao porto, mas o perfume que nos lembra por que valeu a pena navegar?"

            Vivemos sob o risco de nos tornarmos prisioneiros do "tempo de ouro" que já passou, mas a saudade bem vivida é, na verdade, uma forma de honrar a nossa própria história sem impedir que novos capítulos sejam escritos.

            A saudade é a presença de uma ausência, uma substância que dá profundidade ao presente. Busquemos algumas visões que souberam transformar a falta em poesia e pensamento:

            Svetlana Boym, em “O Futuro da Nostalgia”, fazia uma distinção fundamental entre a nostalgia "restaurativa", que tenta reconstruir o passado e pode ser perigosa, e a nostalgia "reflexiva". O seu "SE" é o da contemplação: "E 'SE' pudéssemos sentir a dor do retorno sem a necessidade de voltar de fato?". Para ela, a nostalgia reflexiva é o que nos permite apreciar a ruína e a passagem do tempo com ternura, em vez de amargura.

            Fernando Pessoa, o mestre absoluto da saudade lusófona, dizia que "a saudade é a poesia do passado". Para ele, ter saudade é ser capaz de sentir o que já não existe como algo que ainda nos constitui. O seu "SE" é quase metafísico: "E 'SE' o que chamamos de perda for apenas uma forma de posse espiritual que o tempo não pode roubar?"

            A saudade é o que nos torna humanos em um mundo que tudo descarta. É o ato de reconhecer que as pessoas e os momentos que passaram por nós deixaram marcas indeléveis na nossa arquitetura interna. O "SE" da nostalgia nos pergunta se temos a coragem de ser feitos também de ausências.

Nosso objetivo em toda essa obra, é nos ajudar a viver melhor.

            Ao citar FERNANDO PESSOA, nos vem à memória a cultura do Fado, não apenas como gênero musical, mas como uma postura diante do destino.

            O fado canta a saudade não como um lamento desesperado, mas como um destino aceito com dignidade.

            O "SE" que rege essa melancolia é o da beleza do fim: "E 'SE' a tristeza de ter perdido algo for a maior prova de que o que vivemos foi real e valioso?". O fadista não quer apagar a dor; ele quer cantá-la para que ela se transforme em arte. Ele prova que a saudade, quando acolhida com delicadeza, não nos retira a força, mas nos dá a gravidade necessária para não sermos levados por qualquer vento de novidade.

            Em nosso tempo de notificações de "lembranças" algorítmicas, onde as redes sociais nos jogam fotos do passado a cada minuto, corremos o risco de banalizar a saudade.

            O algoritmo nos dá o dado, mas não nos dá o sentimento. A verdadeira saudade exige silêncio e espaço para doer e para curar. Não podemos deixar que a "nostalgia digital" substitua o processo orgânico de lembrar e soltar.

            A dialética da saudade nos ensina que só podemos ter saudade do que amamos. O "SE" da lembrança nos ajuda a filtrar o que é essencial: se algo ainda dói ou ainda brilha na memória, é porque aquele fragmento de tempo ainda tem algo a nos dizer.

            A nossa maior obra de arte não é o que seguramos com as mãos, mas o que guardamos no peito com a gratidão de quem soube viver o momento enquanto ele era agora.

            A saudade é a luz de estrelas que já se apagaram, mas que ainda iluminam o nosso céu noturno.

            “SE” soubermos viver com essa consciência, o passado deixa de ser um fantasma que nos assombra e passa a ser a fundação sobre a qual construímos o nosso amanhã.

            Ter saudade não é querer voltar; é reconhecer que a viagem valeu cada quilômetro percorrido.

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page