O RELÓGIO INVERTIDO
- Carlos A. Buckmann
- 9 de jan.
- 3 min de leitura

O RELÓGIO INVERTIDO
Para entender o tempo, é preciso primeiro entender os deuses que o personificam.
Na mitologia grega, vivemos sob a tensão de dois senhores distintos. Há Kronos, o titã devorador, o tempo linear, quantitativo e inexorável que consome seus próprios filhos. Ele é o tique-taque do relógio, a contagem regressiva das nossas células, o burocrata que nos entrega o envelhecimento como um imposto inevitável.
Mas há também Kairos, o deus da oportunidade, o tempo qualitativo. Kairos não se mede em segundos, mas em significado. É o instante em que o "SE" deixa de ser dúvida e se torna epifania.
Enquanto Kronos nos escraviza na rotina dos prazos, Kairos nos oferece a brecha, o "momento certo" que justifica uma existência inteira. Vivemos, todos nós, esmagados pelo peso de Kronos, mas famintos pelos lampejos de Kairos.
Nesse cenário, surge a provocação suprema: E “SE” vivêssemos a vida de trás para frente?
Inspirado pelo Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald ou pelas meditações temporais de Curt Meyer-Clason, tento imaginar essa trajetória.
Se a flecha do tempo fosse invertida, nasceríamos no crepúsculo da existência, com o corpo cansado e a alma carregada de uma sabedoria que ainda não sabemos de onde veio.
Filosoficamente, essa inversão subverteria a máxima de Søren Kierkegaard, que dizia que "a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente".
Em uma cronologia invertida, viveríamos em direção à ignorância. Começaríamos com o peso da consciência e terminaríamos com o frescor da inocência.
Sob a ótica de Heidegger, o homem é um "ser-para-a-morte". Nossa finitude é o que dá urgência e autenticidade às nossas escolhas.
Mas, se a morte estivesse no berço, o que seria da nossa angústia? Se o futuro fosse o rejuvenescimento, a nossa relação com o medo mudaria. Em vez de temermos a decadência física, temeríamos a perda da memória, pois, à medida que o corpo ganhasse vigor, a mente voltaria à tábula rasa da infância.
Imagine a cena: você começa a vida no asilo, cercado por uma paz melancólica, e seu "progresso" é ver as rugas desaparecerem. Você se torna jovem demais para o cargo que ocupa, forte demais para a aposentadoria que recebe. O ápice da sua carreira seria o aprendizado das primeiras letras. O fim da sua jornada seria um mergulho no útero materno, o retorno ao absoluto nada, mas de forma biológica.
Essa possibilidade dialética revela uma crueldade oculta:
SE vivemos para frente, acumulamos saber enquanto o corpo nos abandona.
SE vivemos para trás, recuperamos o corpo enquanto o saber nos deixa.
Parece que o “SE” cronológico nos condena a uma eterna assimetria. Nunca temos, ao mesmo tempo, a energia da juventude e a clareza da velhice. A natureza parece ter um ciúme doentio da perfeição.
Ao encerrar esta meditação, percebo que o "SE" cronológico é, talvez, a nossa maior revolta contra a entropia.
Quando fantasiamos sobre viver de trás para frente, estamos, na verdade, tentando negociar com Kronos uma cláusula de arrependimento. Queremos a chance de aplicar a prudência do velho no ímpeto do jovem.
Contudo, a crítica filosófica que se impõe é amarga: a realidade não muda porque o sentido da vida não está na direção da seta, mas na intensidade do arco.
Mudar a ordem dos fatores não alteraria o produto da nossa imperfeição. Se vivêssemos de trás para frente, cometeríamos os mesmos erros, apenas em idades diferentes. O arrependimento apenas trocaria de face.
O "SE" cronológico é a prova de que o ser humano é o único animal que não cabe no tempo que lhe foi dado.
Somos seres de Kairos presos em uma estrutura de Kronos.
E, talvez, a nossa beleza resida exatamente nessa desajustada tentativa de sonhar com o inverso, enquanto o relógio, indiferente às nossas crônicas, continua sua marcha para o único lugar que realmente existe:
O AGORA.




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