A BAGAGEM NECESSÁRIA
- Carlos A. Buckmann
- 8 de fev.
- 3 min de leitura

A BAGAGEM NECESSÁRIA
Iniciamos hoje uma faxina necessária na biblioteca imaginária da vida que vivemos a cada dia.
Se nas últimas crônicas construímos os alicerces da maturidade e o teto da serenidade, hoje o tema nos convida a retirar os excessos que impedem a luz de circular. O desafio é de desapego: o que realmente merece ocupar espaço no palco da nossa vida quando o ato final se aproxima?
“SE a vida é uma viagem, a simplicidade é o que nos permite caminhar sem que a bagagem nos converta em prisioneiros da estrada.
Desde o início de nossa jornada vivemos em uma cultura de acumulação, onde o sucesso é medido pelo "mais", mais seguidores, mais bens, mais tarefas, mais ruído.
No entanto, o "SE" da simplicidade e do essencial nos lança uma pergunta cortante:
"E 'SE' a plenitude não estiver na adição, mas na subtração de tudo o que é acessório?".
A serenidade que conquistamos até aqui é a ferramenta que nos permite discernir entre o que é urgente e o que é importante, entre o que brilha por um instante e o que ilumina para sempre.
A simplicidade é a sofisticação máxima da inteligência.
Henry David Thoreau, em “Walden” (uma obra que a leitura me encantou), retirou-se para uma cabana na floresta para "viver deliberadamente". O seu "SE" era um manifesto de independência: "E 'SE' o custo de uma coisa fosse a quantidade de vida que temos de trocar por ela?". Para Thoreau, ser rico era precisar de pouco.
Epicuro, em seu Jardim, ensinava que a felicidade nasce de desejos naturais e necessários. O seu "SE" é o da liberdade: "E 'SE' a maior riqueza fosse a autonomia de quem descobriu que pão, água e bons amigos são o banquete definitivo?".
Lao Tzu, no “Tao Te Ching”, falava sobre a utilidade do vazio. Uma tigela é útil pelo espaço vazio que contém; uma casa é útil pelas janelas e portas que permitem o vão. O seu "SE" é o da funcionalidade existencial: "E 'SE' a nossa vida ganhasse sentido justamente pelo que deixamos de carregar?".
Simplificar é um ato de coragem ética. É a recusa em se perder no labirinto das aparências para se reencontrar na nudez do ser. O "SE" do essencial nos pergunta: “SE” você tivesse que reduzir sua vida a uma única mala, o que nela seria indispensável?
Gosto de recordar o encontro histórico entre Diógenes de Sinope, o filósofo que vivia dentro de um barril, e Alexandre, o Grande.
Alexandre, o homem que possuía o mundo, parou diante do homem que não possuía nada e perguntou o que poderia fazer por ele.
O "SE" de Diógenes foi a síntese da simplicidade: "E 'SE' você saísse da frente do meu sol?". Naquele instante, o mestre da simplicidade provou que a única coisa essencial que o imperador tinha a oferecer era algo que já pertencia a Diógenes: a luz. Ele mostrou que, quando limpamos o cenário da vida, percebemos que as maiores riquezas são as que não podem ser compradas nem roubadas.
Agora que vivemos de notificações incessantes e "obesidade digital", onde somos bombardeados por estímulos que não pedimos, corremos o risco de morrer de sede ao lado de um oceano de informação inútil.
A simplicidade exige que desliguemos os ruídos para ouvirmos o nosso próprio silêncio. Focar no essencial não é ser austero por castigo, mas ser livre por escolha.
A simplicidade nos ensina que o cenário vazio não é ausência de vida, mas a preparação para o que é fundamental. O "SE" do essencial nos permite encarar o ato final sem distrações: quando as luzes começarem a baixar, não queremos estar cercados de objetos, mas habitados por significados.
Nossa maior e melhor realização não é o monumento que construímos, mas a clareza com que conseguimos olhar para o espelho no fim do dia.
A simplicidade é a moldura que destaca a beleza do que é autêntico.
Se soubermos viver com essa consciência, nossa trilha nos trará uma leveza revigorante. Perceberemos que, para voar alto nos últimos capítulos, precisaremos soltar os pesos que nos amarram ao chão.




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