QUANDO A LUZ SENTA-SE À MESA
- Carlos A. Buckmann
- 24 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

QUANDO A LUZ SENTA-SE À MESA
É noite de Natal.
Estamos no Café Entre Fluxos, esse lugar onde o tempo não manda e o destino apenas sugere. Hoje, o ambiente amanheceu outra vez diferente, como se o ar tivesse sido varrido por uma brisa que não veio de nenhuma porta. O cheiro de chá de jasmim se mistura ao café etíope que acabei de passar, e ao fundo toca um alaúde suave, acompanhado por um sino tibetano que alguém juraria ter ouvido apenas na própria imaginação.
Na mesa central, dois homens se sentam como quem não precisa de apresentação. Emanuel, aquele que muitos chamam de Jesus, repousa as mãos sobre a madeira antiga, com um olhar que parece atravessar o tempo. Ao lado dele, Sidarta Gautama, o Buda, observa o vapor da xícara como se ali estivesse contido o próprio ciclo da existência.
O universo, caprichoso como sempre, decidiu que hoje era dia de encontro entre iluminados.
Emanuel (olhando para a chama de uma vela sobre a mesa):
“Meu nascimento foi envolto em simplicidade. Um estábulo, palha, silêncio. Não vim cercado de ouro, mas de espanto. E foi ali que aprendi que a luz não precisa de palácio para nascer.”
Sidarta (com um sorriso que parece lembrar de outra vida):
“Eu nasci entre sedas e previsões. Os astrólogos disseram que eu seria rei ou renunciante. Meu pai escolheu o primeiro destino. O universo, o segundo.”
Emanuel:
“Fui criado entre carpinteiros e pescadores. Aprendi cedo que o mundo se sustenta pelas mãos humildes. Mas quando percebi a dor dos homens, entendi que minha missão era tocar o coração, não a madeira.”
Sidarta:
“Eu cresci cercado de prazeres que não pedi. Mas bastou ver a velhice, a doença e a morte para que tudo perdesse o sabor. Foi ali que compreendi: ninguém é livre enquanto teme o inevitável.”
Emanuel (com voz suave):
“ Meu nascimento foi anunciado como promessa. Mas a promessa só se cumpriu quando escolhi o caminho do amor, mesmo sabendo que ele me levaria ao sacrifício.”
Sidarta:
“O meu foi celebrado como destino. Mas o destino só se cumpriu quando abandonei o palácio e me sentei sob uma árvore, disposto a perder tudo para encontrar a verdade.”
Emanuel (olhando Sidarta nos olhos):
“Nasci para lembrar aos homens que são amados.”
Sidarta:
“E eu, para lembrar que podem despertar.”
Emanuel (voz serena, quase um sopro):
“Minha missão foi ensinar o amor que liberta. As palavras que deixei, o Sermão da Montanha, as parábolas, foram sementes. Algumas floresceram, outras se perderam no deserto do poder.
Sidarta: (olhos semicerrados, sorriso leve):
“E eu ensinei o caminho do meio. O “Dhammapad” é meu eco no mundo: um convite ao desapego, à cessação do sofrimento. Mas o homem insiste em carregar pedras que não precisa.”
Enquanto sirvo duas xícaras, uma com café forte, outra com chá claro, não resisto:
“Senhores… hoje o mundo fala de paz, mas consome conflito como entretenimento. A compaixão virou slogan, e o silêncio interior foi substituído por notificações.”
Emanuel (erguendo os olhos para mim):
“O amor ainda é possível. Mas exige coragem.”
Sidarta (tocando a borda da xícara):
“E exige prática. A mente moderna é um cavalo inquieto.”
Emanuel (olhando para a própria mão, como quem vê nela a memória de muitos séculos):
“Falei de amor, e fizeram guerras em meu nome. Ensinei o perdão, e ergueram tribunais espirituais. Minha mensagem era simples como o pão que partilhei, mas o homem tem o hábito de complicar aquilo que deveria libertar.”
Sidarta (passando o dedo pela borda da xícara, atento ao som que ela produz): “E eu falei do desapego, mas transformaram minhas palavras em ornamentos. Ensinei a cessação do sofrimento, e criaram rituais para fugir dele. O ego é hábil em vestir-se de espiritualidade.”
Emanuel:
“Disse que o Reino estava dentro, mas muitos procuraram fora, em templos, em dogmas, em autoridades que se colocaram entre o homem e o sagrado.”
Sidarta:
“E eu disse que ninguém deveria me seguir cegamente, mas criaram escolas que disputam quem me compreendeu melhor. A mente humana tem medo do vazio e tenta preenchê-lo com certezas.”
Emanuel (com um sorriso triste):
“Transformaram minha compaixão em bandeira, mas esqueceram o gesto.”
Sidarta:
“Transformaram meu silêncio em doutrina, mas esqueceram a prática.”
Emanuel:
“Talvez seja assim mesmo. A verdade é semente. O homem, às vezes, planta espinhos.”
Sidarta:
“Mas até os espinhos podem proteger uma flor.”
As lâmpadas âmbar tremulam como se respirassem. Um cliente ao fundo fecha os olhos, talvez em oração, talvez em meditação, aqui, as duas coisas se confundem. O sino tibetano soa de novo, embora ninguém o tenha tocado.
E eu, atrás do balcão, observo dois mestres que nunca disputaram nada, mas que mudaram tudo.
Quando Emanuel e Sidarta se levantaram, percebi que suas mensagens, tão distintas na forma, tão irmãs na essência, continuam sendo o mapa que o mundo insiste em não ler. Um fala do amor que abraça; o outro, da consciência que desperta. Juntos, lembram que a paz não é um destino, mas um exercício diário de presença, compaixão e lucidez.
No meu livro de guardanapos, escrevi com minha caneta de tinta invisível:
“A verdadeira iluminação é aprender a amar sem possuir e a despertar sem fugir.”




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