O MOTOR DA INQUIETUDE.
- Carlos A. Buckmann
- 18 de jan.
- 3 min de leitura

O MOTOR DA INQUIETUDE
Retomo a pena hoje, sentindo um calor diferente nas palavras.
Se nas crônicas anteriores navegamos pelas águas do riso e pelas névoas do mistério, hoje entramos no núcleo de incêndio da condição humana e o tema que nos convoca é a força que, antes de tudo, nos faz levantar da cama: o querer.
O desejo é o avesso da resignação. Enquanto a realidade se apresenta com a rigidez de um veredito, o "é assim" das montanhas das contas a pagar e da finitude, o desejo é o grito visceral do "se fosse diferente"
Ele é a ferramenta mais potente de subversão que possuímos, pois não aceita o mundo como um fato consumado, mas como uma matéria-prima inacabada.
Filosoficamente, o desejo é uma faca de dois gumes.
Arthur Schopenhauer via a "Vontade" (Wille) como uma força cega, implacável e insaciável que nos governa. Para ele, somos como um pêndulo que oscila entre a dor da carência e o tédio da satisfação. O “SE” de Schopenhauer é uma armadilha: "se eu tivesse aquilo, seria feliz", mas, ao conseguir, a Vontade imediatamente projeta um novo “SE” no horizonte.
Sigmund Freud, por outro lado, mapeou esse “SE” como o motor oculto do nosso inconsciente. O desejo não é apenas querer algo; é a busca por uma satisfação primordial que a realidade insiste em frustrar. Nossos sonhos, lapsos e até nossas neuroses são encenações teatrais do “SE”: o ego tentando mediar o que a realidade permite e o que o desejo exige.
O desejo é o que impede o mundo de se tornar um museu de repetições. “SE” o ser humano fosse apenas lógica e necessidade, ainda estaríamos nas cavernas, pois a caverna "bastava" para a sobrevivência. Foi o “SE” do desejo, o desejo de ver o que havia além do rio, o desejo de capturar o fogo, o desejo de imortalidade, que subverteu a biologia.
O desejo é o que nos faz dizer "não" ao inevitável.
"O desejo é a própria essência do homem." Baruch Spinoza
Diferente de Schopenhauer, Spinoza via o desejo (cupiditas) como o esforço para perseverar no próprio ser, uma potência de agir. Quando desejamos, estamos afirmando que a nossa existência tem o direito de expandir a realidade.
Para ilustrar essa força, recordo a história de Heinrich Schliemann.
No século XIX, a cidade de Troia era considerada por todos os historiadores e arqueólogos sérios como um mito literário, uma invenção de Homero. A realidade acadêmica impunha o veredito: "Troia não existe".
Mas Schliemann, desde a infância, carregava um desejo obsessivo alimentado pela Ilíada. Ele ignorou o "é assim" da ciência de sua época. Ele passou a vida acumulando fortuna com um único propósito subversivo: provar que a ficção era real. Contra toda a lógica, ele seguiu as pistas geográficas de um poema milenar. Em 1870, ele começou a escavar na colina de Hisarlik, na Turquia.
O resultado? Ele encontrou as ruínas da cidade. O desejo de um homem sozinho, ancorado em um “SE” romântico, foi capaz de rasgar o mapa da história oficial e obrigar o mundo a reescrever o passado. Schliemann provou que, às vezes, a realidade é apenas uma falta de imaginação que o desejo se encarrega de corrigir.
Percebo que o desejo é, de fato, a nossa maior liberdade e a nossa mais doce prisão. O perigo do “SE” do desejo é nos tornar exilados do presente, sempre vivendo na antecipação do que falta. Mas, sem ele, a humanidade seria um lago estagnado.
A dialética do desejo nos ensina que não desejamos apenas objetos ou pessoas; desejamos a nossa própria transformação. O “SE” do desejo é a faísca da evolução. Ele subverte a realidade porque se recusa a aceitar o limite.
“SE” o universo é um texto escrito em pedra, o desejo é o erro de digitação que permite que uma nova história comece.
Afinal, a justiça, a arte e o amor não são necessidades biológicas, são desejos que tivemos a audácia de transformar em realidade.




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