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A VINGANÇA DAS LETRAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de jan.
  • 3 min de leitura

A VINGANÇA DAS LETRAS

            Sinto que a biblioteca ao meu redor respira; cada lombada de livro é uma promessa de que o destino, por mais severo que seja, pode ser desafiado pela ponta de um lápis, ou, no meu caso, pelo teclado do meu notebook.

            A história, com "H" maiúsculo, é uma autora impiedosa. Ela não aceita revisões, não admite notas de rodapé que alterem o desfecho e ignora solenemente os nossos pedidos de clemência.

            O fato é um bloco de mármore bruto, frio e imóvel. Mas a ficção... ah, a ficção é a nossa insurgência. Ela é o lugar onde o "SE" deixa de ser uma lamentação passiva para se tornar um ato de vingança existencial contra a inevitabilidade dos acontecimentos.

            Escrever ficção é, em última análise, um acerto de contas com a realidade. É a nossa forma de dizer ao universo:

 "Você foi cruel, mas eu sou o autor aqui.”

            Muitos autores utilizaram o “SE” como um bisturi para operar as feridas abertas da humanidade.

            Pensemos no cinema de Quentin Tarantino, especificamente em Bastardos Inglórios. Ao reescrever o fim da Segunda Guerra Mundial em uma sala de cinema, onde Hitler é metralhado em uma explosão de catarse ficcional, Tarantino não está apenas fazendo entretenimento; ele está exercendo o “SE” como justiça poética. Ele oferece ao espectador a vingança que a história real, em sua lentidão burocrática e trágica, não pôde entregar daquela forma.

            Ou olhemos para Philip K. Dick em O Homem do Castelo Alto. Ele utiliza o “SE” para explorar o pesadelo: e se o Eixo tivesse vencido a guerra? Ao criar essa distopia, ele nos obriga a valorizar a fragilidade do nosso presente. A ficção aqui não corrige para o belo, mas para o alerta, usando a hipótese como um espelho deformador que revela a verdade.

            José Saramago, em História do Cerco de Lisboa, faz o seu protagonista, um revisor de textos, inserir um simples "NÃO" em um relato histórico, alterando todo o passado de uma nação. Esse pequeno advérbio, operando sob a lógica do “SE”, mostra que a nossa identidade é feita de narrativas que aceitamos como absolutas, quando poderiam ter sido outras.

            Sob a ótica de Saul Kripke e sua teoria dos Mundos Possíveis, a ficção nos permite habitar estados de coisas que, embora não sejam atuais, são logicamente possíveis.

O “SE” da ficção é o que nos permite transitar entre esses mundos.

            Para o filósofo Jorge Luis Borges, em O Jardim de Veredas que se Bifurcam, o tempo não é linear, mas uma rede crescente de tempos divergentes e convergentes. Cada “SE” cria uma nova ramificação.

            Na literatura, a reviravolta é o momento em que o autor exerce sua divindade. É o instante em que ele prova que o destino é apenas uma escolha de palavras.

“SE” Anna Karenina não tivesse ido à estação, se Bentinho tivesse tido a coragem da dúvida ou da certeza absoluta... a literatura é o museu dos destinos que não foram, mas que existem em nós com mais força do que muitos fatos do telejornal.

            Ao encerrar esta segunda crônica do capítulo, percebo que reescrever os finais trágicos da história através da ficção não é uma fuga da realidade, mas uma forma de suportá-la. O “SE” da ficção é o nosso bálsamo. Ele não ressuscita os mortos das guerras reais, nem apaga as cicatrizes das nossas tragédias pessoais, mas ele nos devolve a agência.

            A dialética aqui é profunda: a ficção é mentira para dizer a verdade. Usamos o impossível para criticar o intolerável. O “SE” literário nos ensina que, embora não possamos mudar o que aconteceu, temos o poder absoluto sobre como contaremos a história daqui para frente.

            A vingança das letras é transformar o sofrimento em sentido.

            E, talvez, o maior “SE” de todos seja perceber que, ao lermos sobre esses mundos possíveis, saímos do livro prontos para tentar escrever, na vida real, um final que seja ao menos, um pouco mais justo.

 

 
 
 

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