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O EDITOR DE ALMAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de jan.
  • 3 min de leitura

O EDITOR DE ALMAS

            Chego ao quarto dia deste meu diário de possibilidades, e sinto que a tinta da caneta já não flui apenas sobre o papel, mas parece querer riscar o próprio tecido da realidade.

            Depois de vagarmos pelos labirintos das escolhas, pelas feridas das fronteiras e pelas engrenagens invertidas de Kronos, hoje o “SE” nos convoca para a fronteira final: a massa cinzenta que carregamos entre as orelhas.

            Olho para a figura do cérebro humano e vejo um milagre biológico de aproximadamente um quilo e meio, uma rede frenética de 86 bilhões de neurônios disparando eletricidade e química em uma coreografia que nem o supercomputador mais avançado de 2026 consegue emular com perfeição.

             Existe aquele mito persistente, quase uma lenda urbana da neurociência, de que utilizamos apenas 10% de nossa capacidade. A ciência rigorosa já nos disse que isso é uma falácia: utilizamos o cérebro em sua totalidade, embora não o tempo todo, da mesma forma que não usamos todos os músculos do corpo para escovar os dentes.

            Utilizá-lo "mais e melhor" não é uma questão de desbloquear áreas ocultas, mas de refinar as conexões, a neuroplasticidade.

            É a arte de focar a atenção, de nutrir as sinapses com o novo e de equilibrar o sistema límbico. No entanto, o ápice dessa otimização sempre esbarrou em uma barreira intransponível: a memória.

            Carregamos o ontem como um arquivo que não aceita edição.

            Até que o “SE” intervém: E se pudéssemos deletar memórias específicas com um comando tecnológico?

            Se o “SE” de ontem era sobre a ordem do tempo, o de hoje é sobre a curadoria da dor.

            Entramos no território de um controle cerebral absoluto, onde a tecnologia nos daria o botão Delete para aquele trauma de infância, para o rosto daquele amor que nos partiu ao meio, ou para o erro público que nos assombra nas madrugadas de insônia.

            Sob a ótica de Daniel Kahneman, nosso "Eu Recordativo" é um tirano. Ele não lembra da duração da experiência, mas apenas do pico e do fim. Se pudéssemos editar esses picos negativos, estaríamos interferindo diretamente no nosso "Sistema 1", aquele pensamento rápido e intuitivo que Kahneman descreve. Sem o registro do erro, como esse sistema nos protegeria do perigo? O aprendizado heurístico morreria no altar do conforto.

            Daniel Goleman, o pai da Inteligência Emocional, certamente nos alertaria que a autoconsciência exige o contato com o desconforto. Ao deletar uma memória dolorosa, amputamos uma parte da nossa inteligência emocional. A empatia nasce do reconhecimento da nossa própria vulnerabilidade; se eu apago a minha dor, como poderei ler a dor no outro?

            E então chegamos a Lacan. Para a psicanálise, o sujeito é constituído pelo seu "falhamento", pelo seu "não-todo". O trauma não é apenas um arquivo corrompido; ele é a viga de sustentação da nossa subjetividade. Para Lacan, o "Real" é aquilo que resiste à simbolização. Ao tentarmos "deletar" o Real tecnológico, estaríamos, em última análise, desintegrando o próprio sujeito. Sem a memória do que nos falta, não há desejo. E sem desejo, o que sobra do humano?

            O “SE” tecnológico nos coloca diante de uma liberdade aterrorizante. Tornar o cérebro um dispositivo controlável é transformar a vida em um feed de rede social: uma sucessão de momentos editados, filtrados e desprovidos de arestas.

            A crítica filosófica que deixo nesta página é sobre a natureza da nossa identidade. Se a realidade é construída pela memória, um cérebro com comando de exclusão criaria uma identidade fictícia. Seríamos simulacros de nós mesmos.

            O “SE” aqui deixa de ser uma ponte para a possibilidade e torna-se um abismo para o esquecimento.

            Se deletarmos o que nos feriu, deletamos também a cicatriz que nos define. A dialética desse poder revela que a maior tecnologia de que dispomos não é a que apaga o passado, mas a que nos permite “ressignificá-lo”. Um cérebro controlável seria um cérebro em paz, talvez, mas seria uma paz de cemitério, o lugar onde as memórias não incomodam porque já não há ninguém vivo para senti-las.

            O labirinto do “SE” continua.

            Mas, enquanto ainda temos nossas memórias intactas, prefiro o peso de um passado real à leveza de um presente programado.

            E isso é o que nos torna melhor do que qualquer IA.

 

 
 
 

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