A FINITUDE QUE NOS ILUMINA
- Carlos A. Buckmann
- 1 de fev.
- 3 min de leitura

A FINITUDE QUE NOS ILUMINA
Refletiremos hoje sobre o que nos confronta com o silêncio do ponto final, um tema que nos obriga a reconhecer que a vida só possui brilho porque tem uma data de validade.
Afinal, se o tempo fosse infinito, a procrastinação seria a nossa única virtude.
A consciência da morte costuma ser evitada como se o pensamento pudesse atrair o evento. No entanto, o "SE" da finitude nos lança um desafio de intensidade: "E 'SE' a consciência de que o tempo é escasso for, na verdade, o único combustível capaz de queimar as nossas hesitações?".
Vivemos sob a ilusão de que teremos "depois" para as palavras importantes e "amanhã" para as mudanças radicais, mas a finitude nos lembra que o "depois" é um cheque sem fundos.
Acredito que a morte não é o que encerra a vida, mas o que a define e lhe dá contorno, baseando-me em visões que transformaram o fim em urgência:
Martin Heidegger, em “Ser e Tempo”, cunhou o conceito de "Ser-para-a-morte" (Sein-zum-Tode). Para ele, a maioria das pessoas vive em uma "existência inautêntica", fugindo da própria mortalidade. O "SE" de Heidegger é o despertar para a autenticidade: "E 'SE' ao encarar o meu fim, eu finalmente parasse de viver a vida dos outros e assumisse a propriedade da minha própria existência?". A morte, para ele, é a possibilidade que encerra todas as outras possibilidades, e é justamente isso que torna cada escolha sagrada.
Sêneca, em suas cartas, insistia que não devemos temer a morte, mas sim a ideia de nunca termos começado a viver de fato. O seu "SE" é um chamado à economia existencial: "E 'SE' tratássemos cada hora com o mesmo zelo que tratamos o nosso dinheiro, percebendo que o tempo é o único bem que não podemos recuperar?".
Ouso afirmar que a finitude é a moldura que transforma um rabisco em uma obra de arte.
Sem o limite, a experiência humana se diluiria em um tédio eterno. O "SE" da urgência nos pergunta o que deixaríamos de fazer hoje se tivéssemos a certeza de que o amanhã é apenas uma hipótese.
Mas como o "SE" da finitude pode ajustar a nossa bússola?
Vamos recordar o costume do "Memento Mori" na Roma Antiga.
Durante as procissões triunfais, quando um general vitorioso desfilava pelas ruas sendo aclamado como um deus, um escravo era posicionado logo atrás dele.
O trabalho desse escravo era sussurrar continuamente no ouvido do general: "Respice post te. Hominem te esse memento" (Olhe para trás. Lembre-se de que és apenas um homem).
Esse "SE" histórico servia para evitar a húbris (a arrogância cega): "E 'SE' mesmo no topo da glória, você lembrasse que o seu tempo é finito?". Essa consciência não servia para entristecer o general, mas para mantê-lo humano e focado no que realmente importava para a República, e não apenas para o seu ego.
Quero deixar uma provocação necessária: - Em nosso tempo de filtros de rejuvenescimento e promessas de longevidade tecnológica, corremos o risco de anestesiar a nossa percepção da morte. Tentamos esconder o fim, e com isso, acabamos perdendo o "frio na barriga" de estar vivo.
Viver como se fôssemos eternos nos torna preguiçosos no afeto e covardes na ação.
A verdadeira dialética da finitude nos ensina que o medo da morte é, no fundo, o medo de não ter vivido o suficiente. O "SE" do fim não deve ser uma paralisia, mas um grito de guerra contra a mornidão.
A nossa maior obra de arte não é o tempo que acumulamos, mas a intensidade com que habitamos o espaço entre dois imensos nadas, o berço e o túmulo.
A finitude é o horizonte que dá direção à nossa caminhada.
Se soubermos viver com essa consciência, a morte deixa de ser um abismo para se tornar a professora que nos ensina a dizer "eu te amo", "eu perdoo" e "eu começo agora" com a pressa de quem sabe que o sol não nasce duas vezes no mesmo dia.




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