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A MIRAGEM DO OUTRO

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de jan.
  • 2 min de leitura

A MIRAGEM DO OUTRO

            Propositadamente, deixei uma lacuna na crônica de ontem, uma sombra que apenas o olhar clínico e cortante de Jacques Lacan poderia iluminar.

            Retorno à minha mesa hoje com o eco da sua pergunta. Afinal, se o “SE” biológico nos fizesse sentir a dor do outro, o que o mestre da psicanálise francesa diria a esse respeito?

            Para Lacan, o "sentir a dor alheia", o que chamamos ingenuamente de empatia, não passa de uma armadilha imaginária

            Lacan fundamenta muito do seu pensamento no “Estádio do Espelho”.

            Para ele, quando olhamos para o outro e acreditamos sentir o que ele sente, estamos apenas presos em uma projeção do nosso próprio ego. É uma "captura imaginária". O “SE” eu sentisse a sua dor, para Lacan, seria apenas eu sentindo a minha dor projetada na sua imagem.

            Para a psicanálise lacaniana, a dor do corpo pertence ao campo do Real, aquilo que é inominável, que resiste à linguagem e que é, por definição, intransmissível. O sofrimento do outro é um abismo que não posso saltar. Ao tentar "sentir" o que você sente, eu corro o risco de apagar a sua singularidade, transformando o seu drama em um espelho da minha própria neurose.

            Lacan introduz o conceito de “Jouissance” (Gozo), que é um prazer paradoxal misturado à dor, algo que habita o âmago do sujeito. Se eu pudesse comandar meu cérebro para sentir o seu Gozo ou a sua dor, eu estaria cometendo um ato de intrusão absoluta.

            Na clínica lacaniana, o analista não deve ser "empático" no sentido tradicional. Ele não deve "sofrer com" o paciente. Por quê? Porque se o analista mergulha na dor do analisado, ele perde a posição de Grande Outro (o lugar do simbólico, da lei, da linguagem) e torna-se apenas um "semelhante" espelhado. Se ambos sentem a mesma dor, quem resta para ouvir e interpretar? A fusão de sentimentos anula a possibilidade de cura, pois a cura exige a distância da palavra.

            Portanto, o “SE” de Lacan para a dor alheia seria um aviso: "Cuidado com o que você deseja, pois a fusão com o outro é a morte do sujeito."

            Se sentíssemos a dor física do outro como se fosse nossa, não haveria mais "eu" nem "tu". Seríamos uma massa amorfa de sensações. A beleza do ser humano, para Lacan, reside justamente na falta, no fato de que nunca saberemos exatamente o que se passa no íntimo do outro.

            É essa impossibilidade que nos obriga a falar. A linguagem nasce porque não podemos sentir a dor alheia; falamos para tentar traduzir o intraduzível.

            O “SE” biológico, sob a ótica lacaniana, seria o fim da linguagem.

            Se eu sinto o que você sente, não preciso mais te ouvir.

            E, para Lacan, o ser humano é, acima de tudo, um ser que fala porque não pode se fundir.

 

 
 
 

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