O AMÉM À EXISTÊNCIA
- Carlos A. Buckmann
- 28 de jan.
- 3 min de leitura

O AMÉM À EXISTÊNCIA
As paredes da nossa biblioteca imaginária, que no início pareciam frias e distantes, agora estão repletas de nomes, rostos e histórias de encontros, partidas e perdões.
A gratidão, em sua forma mais rasa, é frequentemente confundida com uma etiqueta social ou uma "positividade tóxica" que ignora a dor.
No entanto, a gratidão filosófica é um ato de coragem intelectual. O seu "SE" é uma pergunta radical que subverte o arrependimento:
"E SE tudo o que eu vivi, os amores que ficaram, os amigos que partiram, as traições que sofri e os erros que cometi, fossem exatamente o que eu precisava para ser quem sou agora?"
Gratidão não é agradecer apenas pelo que foi bom; é ter a audácia de dizer "sim" à totalidade da vida, inclusive às pedras que nos fizeram cair.
A gratidão é a aceitação estética do destino.
Friedrich Nietzsche chamava isso de Amor Fati (amor ao destino). Para ele, a grandeza de um ser humano está em não querer que nada seja diferente, nem no futuro, nem no passado, nem por toda a eternidade. O "SE" de Nietzsche é o "Sim" absoluto: "E SE eu vivesse esta mesma vida, com todas as suas dores, inúmeras vezes? Eu teria a força de agradecer por ela?".
Meister Eckhart, o místico medieval, dizia que "se a única oração que você fizesse em toda a sua vida fosse 'obrigado', isso seria suficiente". Para ele, a gratidão é um estado de espírito que reconhece a abundância mesmo na escassez.
Baruch Spinoza via a alegria como a transição do homem para uma perfeição maior. A gratidão, nesse sentido, é a alegria de reconhecer que a nossa potência de agir foi aumentada pelo encontro com o outro, seja esse encontro suave ou áspero.
Dizer "sim" aos tropeços é a subversão máxima. O "SE" da gratidão transforma o erro em mestre e a cicatriz em medalha.
Se a realidade nos impõe a dor, a gratidão é a nossa resposta soberana de que aquela dor não foi em vão. Ela é o ponto final que transforma um parágrafo de sofrimento em uma lição de sabedoria.
Se Spinoza nos mostra a gratidão como expansão da potência, Viktor Frankl nos revela como essa mesma potência pode florescer mesmo nos terrenos mais áridos da existência. O psiquiatra que sobreviveu aos campos de concentração nazistas. Em meio ao horror absoluto, onde a morte era o "é assim" de cada minuto, Frankl descobriu que os prisioneiros que sobreviviam psicologicamente eram aqueles que conseguiam encontrar um "para quê".
Ele conta que, mesmo famintos e exaustos, alguns homens eram capazes de agradecer por um pôr do sol visto através dos arames farpados ou por uma lembrança querida. O "SE" de Frankl era: "E SE a minha liberdade última for a de escolher a minha atitude diante deste sofrimento?". Ele não agradecia pelo campo, mas pela capacidade de ainda sentir humanidade apesar dele. Sua gratidão era um ato de resistência contra a desumanização. Ao sair dali ele não carregava ódio, mas uma gratidão profunda pela própria vida, o que o permitiu criar a Logoterapia e ajudar milhões a encontrarem sentido em suas próprias dores.
Isso nos faz olhar para o espelho. Em nosso 2026, onde somos incentivados a reclamar de tudo o que não é perfeito e imediato, a gratidão tornou-se um ato revolucionário.
Mas é preciso registrar um pequeno alerta:
O risco do "SE" da gratidão é o conformismo, aceitar a injustiça sem lutar para mudá-la. A verdadeira dialética da gratidão é ativa: eu agradeço o que vivi para ter forças de construir o que virá.
A gratidão pelo "outro" que passou pela nossa vida é o reconhecimento de que ninguém se faz sozinho. Agradecer pelo tropeço não significa que queremos cair de novo, mas que respeitamos a gravidade que nos ensinou a levantar.
Enfim percebemos que a gratidão é a cola que mantém o nosso mosaico unido.
Ela, a gratidão, é o "sim" que permite que o passado descanse em paz e que o futuro nos receba com esperança.




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