O "SE" TEOLÓGICO
- Carlos A. Buckmann
- 12 de jan.
- 3 min de leitura

O “SE” TEOLÓGICO: A VOZ DO VÁCUO
A caneta pesa um pouco mais hoje, pois o “SE” decidiu escalar as montanhas do espírito e bater às portas do céu.
Depois de Lacan nos alertar sobre o perigo de nos fundirmos na dor alheia, a pergunta que fica suspensa no ar de 2026 é ainda mais vertiginosa:
E “SE” o "Grande Outro" não fosse apenas uma estrutura de linguagem, mas uma entidade real e audível?
A teologia sempre se equilibrou sobre o abismo do silêncio. Blaise Pascal já confessava, no século XVII, que o silêncio eterno desses espaços infinitos o aterrorizava. Vivemos na era do ruído absoluto, onde a inteligência artificial simula vozes de entes queridos e algoritmos preveem nossos desejos, mas o cosmos, em sua escala divina, permanece mudo.
O “SE” teológico nasce justamente dessa ausência: se Deus existisse e, mais do que isso, decidisse falar, o que restaria da nossa liberdade?
Na mitologia da nossa psique, Deus ocupa o lugar do que Lacan chamou de Grande Outro (Grand Autre). Ele seria o fiador da verdade, o depósito de todos os significados, aquele que dá sentido ao caos da existência. No entanto, o paradoxo lacaniano nos provoca: e se Deus for apenas o espelho supremo das nossas angústias.
Se Deus falasse hoje, através de todos os satélites e em todas as línguas, entraríamos no campo do Simbólico absoluto.
Pela visão de Santo Agostinho, ele diria que a voz de Deus é a "Verdade" que habita o interior do homem. O “SE” aqui seria a descoberta de que nunca estivemos sós, e que a nossa angústia era apenas a saudade de uma origem.
O filósofo Ludwig Feuerbach argumentaria que Deus é apenas a projeção das perfeições humanas no infinito. Se ouvíssemos Deus falar, estaríamos apenas ouvindo o eco amplificado das nossas próprias carências e desejos de justiça. Deus seria o "espelho" onde tentamos retocar nossa própria imagem imperfeita.
Se Ele fosse o Grande Outro absoluto, suas palavras seriam a Lei. Não haveria mais dúvida, mas também não haveria mais escolha.
Como argumentou Søren Kierkegaard, a fé exige o "salto no escuro". Se Deus fala e se prova, o salto torna-se um passo burocrático. A prova cabal da existência divina mataria a fé, substituindo-a pela obediência técnica.
Imagine o cenário: um comando de voz que vem do alto, sem intermediários. Se Deus confirmasse nossas crenças, nos tornaríamos tiranos da nossa própria verdade.
Mas, e se Deus falasse para dizer algo que não queremos ouvir? E se Ele fosse, como sugere certa vertente do existencialismo, absolutamente indiferente às nossas minúcias morais?
Friedrich Nietzsche proclamou que "Deus está morto", querendo dizer que o horizonte de sentido que Ele provia havia se dissipado.
No nosso “SE” de hoje, a ressurreição dessa Voz traria um problema ético: se Deus fala, o homem silencia.
A nossa capacidade de criar valores por conta própria, o “Übermensch” nietzschiano, seria anulada pela autoridade máxima.
Percebo então que o "se" teológico é o mais solitário de todos.
Se Deus existisse e falasse, Ele seria o Grande Outro absoluto para alguns, mas, para a maioria, continuaria sendo um espelho. O ser humano tem uma capacidade infinita de traduzir o divino para o seu próprio dialeto de preconceitos.
A importância desse “SE” não está na resposta, mas na manutenção da pergunta.
Um mundo onde Deus falasse com clareza seria um mundo sem mistério e, portanto, sem poesia.
A realidade não muda porque Deus permanece em silêncio; ela muda porque o homem, diante desse vácuo, é obrigado a inventar o amor, a justiça e a ética.
O “SE” teológico é a ferramenta que usamos para não nos sentirmos órfãos no universo.
Ele nos permite agir "como se" houvesse um sentido último, sem o peso opressor de uma certeza que nos roubaria a dignidade de sermos os autores da nossa própria história.
No labirinto do “SE”, Deus é o fio de Ariadne que escolhemos segurar para não nos perdermos de nós mesmos.




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