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A ARITMÉTICA DO AMOR

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de jan.
  • 4 min de leitura

A ARITMÉTICA DO AMOR

            Retomamos a pena para investigar a mais doce e perigosa das promessas: a de que dois podem se tornar um.

            O amor ocidental foi construído sobre uma geometria de metades. Crescemos ouvindo que somos seres incompletos, vagando pelo mundo à procura da "outra parte" que nos devolveria a totalidade perdida.

             O "SE" desse desejo é o da fusão: "E se pudéssemos ser um só?". É a fantasia de uma união onde a solidão é finalmente erradicada, onde o "eu" e o "você" se dissolvem em um "nós" indivisível.

            A filosofia e a vida nos sussurram um aviso: na aritmética do amor, quando um mais um resulta em um, alguém deixou de existir.

            Antes de mergulharmos nos conceitos, é preciso ouvir o suspiro de Paul Géraldy. Em sua obra “Toi et Moi” (Você e Eu), ele captura a febre dessa ilusão com uma doçura cortante, descrevendo aquele instante em que, entre quatro paredes, o mundo lá fora deixa de existir e o "eu" e o "você" parecem se fundir em uma única nota.

            Géraldy canta o amor que quer ser espelho absoluto, onde o toque é tão profundo que não se sabe onde termina a pele de um e começa a do outro. É o ápice da poesia fusional, uma coreografia de palavras que tenta convencer o coração de que a distância foi abolida.

             No entanto, sua própria métrica já carrega a melancolia do despertar: a descoberta de que, por mais que nos abracemos, a alma do outro continua sendo um território estrangeiro, e que o desejo de sermos "um só" é a mentira mais bela que contamos para suportar a nossa inescapável solidão.

            Filosoficamente, essa tensão entre a fusão e a autonomia é o pulmão da existência afetiva.

            O Mito de Aristófanes (no Banquete de Platão) nos conta que outrora éramos seres duplos, circulares e poderosos, até que Zeus nos partiu ao meio por temor. Desde então, o amor seria o esforço desesperado de cicatrização. O "SE" platônico é o da nostalgia de uma unidade que nunca existiu de fato, mas que nos move.

            Arthur Schopenhauer nos oferece a metáfora do "Dilema do Porco-Espinho". No inverno, os animais se aproximam para se aquecer, mas os espinhos de cada um ferem o outro, forçando-os a se afastar. O amor seria o aprendizado da distância justa: perto o suficiente para o calor, longe o suficiente para não ferir.

            Erich Fromm, em A Arte de Amar, rompe com a ideia de fusão. Para ele, o amor maduro é "a união sob a condição de preservar a própria integridade". O "SE" de Fromm é um paradoxo: "E se o amor só for real quando somos capazes de estar sozinhos, um diante do outro?".

            A fusão é o "SE" que beira a patologia.

            Quando mergulhamos no outro a ponto de perdermos os contornos da própria identidade, o amor deixa de ser encontro para se tornar possessão ou anulação. ”SE” eu sou apenas o que você deseja que eu seja, quem restou para amar você?

            A verdadeira subversão não é o abandono de si, mas a coragem de permanecer um "eu" inteiro enquanto se acolhe o "tu".

            Para ilustrar essa busca pela distância certa, recordo a relação entre dois dos maiores intelectuais do século XX: Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Eles viveram um amor que durou mais de cinquenta anos, mas rejeitaram o "SE" da fusão tradicional (o casamento, a moradia comum, a exclusividade cega).

            O pacto deles era revolucionário: um amor "necessário" (entre eles) que permitia amores "contingentes" (com outros).

            Mas, além da liberdade sexual, o que os mantinha era a liberdade intelectual. Eles nunca se tornaram "um só". Simone não era a sombra de Sartre, nem ele o mestre dela. Eram dois mundos que orbitavam o mesmo sol, a verdade e a filosofia. Eles provaram que o amor mais duradouro não é aquele que funde as identidades, mas aquele que as fortalece.

            Ao manterem a distância necessária para o pensamento crítico, garantiram que o encontro fosse sempre novo.

            Esta crônica nos obriga a confrontar a solidão. O medo de estarmos sozinhos é o que nos empurra para as fusões apressadas e para os amores que sufocam. O "SE" da fusão é, muitas vezes, um disfarce para a incapacidade de sustentar o próprio ser.

            A dialética do afeto nos ensina que o amor é uma ponte, não um muro. O "SE" que devemos cultivar não é o da simbiose, mas o da presença.

            Amar é o ato de olhar na mesma direção, mantendo pés distintos no chão. Se o amor for o desejo de ser um só, ele será um funeral da alteridade.

             Mas se for o desejo de sermos dois, em harmonia e tensão constante, ele se torna o motor da nossa maior evolução.

            Afinal, a beleza de um dueto não está na anulação de uma voz pela outra, mas no espaço vibrante que existe entre as duas notas

 
 
 

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