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O “SE” GEOGRÁFICO E O CHÃO DE NINGUÉM

  • Carlos A. Buckmann
  • 8 de jan.
  • 4 min de leitura

O “SE” GEOGRÁFICO E O CHÃO DE NINGUÉM

            Retomo ao teclado hoje ainda sob o efeito da nossa conversa de ontem.

            A partícula "se", aquela conjunção condicional que outrora parecia apenas um exercício de sintaxe, tornou-se para mim um telescópio. Se ontem olhávamos para o labirinto das escolhas pessoais, hoje o "se" nos convoca a olhar para o mapa-múndi. Mais especificamente, para as linhas imaginárias que riscamos no chão e chamamos de fronteiras.

            Acordo com as notícias deste início de 2026 e sinto um peso de chumbo.

            O cenário internacional parece ter regredido a uma era de impérios e conquistas por decreto.

            Vejo as manchetes sobre os desmandos de Donald Trump: o desrespeito flagrante à soberania alheia, a invasão militar na Venezuela sob o pretexto de "assegurar interesses", o sequestro de líderes estrangeiros e as ameaças bizarras de anexar a Groenlândia, como se territórios fossem peças de um tabuleiro de “Monopoly”, aquele jogo de conquistas.

            É o triunfo de uma visão de mundo onde o "se" é usado apenas como ameaça:

            "Se não nos derem o petróleo, nós tomaremos".

            Nesse tabuleiro, o “se” despe-se de sua inocência poética para assumir a forma de um ultimato, transformando-se na gramática da extorsão.

            Aqui, a conjunção condicional atua como um cano de revólver encostado na têmpora da diplomacia; o manipulador não utiliza a partícula para explorar caminhos, mas para encurralar a realidade em uma escolha binária.

            É o que poderíamos chamar de “condicionalismo coercitivo”: uma tática que sequestra o futuro, exigindo um resgate em soberania ou recursos.

            Quando a política substitui o diálogo pelo “se” da ameaça, ela reduz a complexidade das relações humanas a um jogo de soma zero, onde a hipótese deixa de ser uma porta para a esperança e passa a ser o cadeado do medo, provando que, nas mãos de um tirano, até a mais simples partícula gramatical pode ser convertida em um instrumento de tortura geopolítica.   

            A reação da mídia oscila entre o pânico e a resignação técnica. Alguns líderes mundiais levantam vozes estridentes em defesa do direito internacional, falando em "fim da ordem liberal", enquanto outros, num silêncio obsequioso ou em acenos pragmáticos, curvam-se diante da força bruta.

            É a velha dança do poder, onde a soberania é um valor absoluto para os fortes e uma sugestão opcional para os fracos.

            Diante dessa realidade de muros altos e tanques cruzando linhas divisórias, pergunto-me:

            E se as fronteiras não existissem?

            Se removêssemos essa categoria gramatical da geografia política, entraríamos no território da utopia cosmopolita.

            Diógenes de Sínope, o Cínico, foi talvez o primeiro a lançar essa semente ao se declarar um "cidadão do mundo" (kosmopolitēs). Para ele, as fronteiras eram prisões mentais que nos impediam de ver o outro como semelhante.

            Filosoficamente, o "se" geográfico nos leva a Immanuel Kant. Em seu ensaio Paz Perpétua, Kant propôs um "Direito Cosmopolita" limitado à hospitalidade universal. Para Kant, se a Terra é uma esfera e o espaço é finito, ninguém tem originariamente mais direito do que outro a estar em determinado lugar. O estrangeiro teria o direito de não ser tratado como inimigo ao chegar em terras alheias.

            Nesse mundo sem fronteiras:

            Se o lugar de nascimento fosse apenas uma coordenada e não um destino, o êxodo venezuelano não seria uma crise humanitária de refugiados, mas apenas um movimento de pessoas em busca de sustento.

            Se a Groenlândia ou a Amazônia fossem patrimônios de uma humanidade sem cercas, a ideia de "anexar" ou "possuir" recursos naturais seria um contrassenso linguístico.

            Contudo, ao exercitarmos esse “se”, esbarramos na angústia da realidade.

             As fronteiras, por mais arbitrárias que sejam, funcionam como a "pele" de uma cultura. Elas protegem (ou deveriam proteger) a diversidade de modos de vida contra a homogeneização forçada pelo mais forte.

            O perigo de um mundo sem fronteiras hoje, ironicamente, não seria a liberdade total, mas a expansão total do domínio.

            Se não houvesse fronteiras, o que impediria um poder hegemônico de considerar o mundo inteiro o seu "quintal"?

            A fronteira é o que permite dizer: "Até aqui você manda, daqui para frente, somos nós".

            Um mundo sem fronteiras exige uma humanidade que já superou o desejo de conquista, e o que vemos em 2026 é exatamente o oposto. A ausência de limites geográficos em uma sociedade movida pela ganância resultaria não em uma aldeia global fraterna, mas em um campo de exploração sem refúgio.

            O "se" aqui nos serve de alerta crítico: ele nos mostra que a fronteira é, ao mesmo tempo, uma cicatriz da nossa incapacidade de conviver e um escudo contra a tirania sem limites.

            Sonhar com o fim das fronteiras é um exercício nobre, mas realizá-lo agora seria entregar o mundo aos que já não respeitam linha nenhuma.

 

 
 
 

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