O SISTEMA NERVOSO COMPARTILHADO
- Carlos A. Buckmann
- 10 de jan.
- 3 min de leitura

O SISTEMA NERVOSO COMPARTILHADO
Meu escritório, antes um refúgio de certezas, transformou-se em um laboratório de hipóteses.
Já questionamos escolhas, fronteiras, o tempo e a memória. Hoje, o "se" mergulha na carne, atravessa a derme e instala-se nos nervos.
Hoje, o tema é a dor e a sua possível, porém impossível, partilha.
A dor é, talvez, a única experiência absolutamente democrática e, ao mesmo tempo, irremediavelmente solitária.
Biologicamente, ela é um sinal de alarme, nociceptores disparando mensagens elétricas através da medula até o tálamo, gritando que algo está errado. Existe a dor aguda, aquele grito súbito do corpo contra o corte ou o fogo; e existe a dor crônica, aquele sussurro persistente e corrosivo que desfigura a personalidade de quem a carrega.
Na tentativa de sobreviver, o ser humano aprendeu a mitigar o sofrimento.
Criamos analgésicos, anestesias e paliativos que tentam extirpar a dor do momento, transformando o corpo em um silêncio químico.
No entanto, a dor física nunca vai embora sem deixar recibo. Ela deixa cicatrizes na pele e sequelas na alma, o medo da repetição, a cautela exagerada, a sombra do trauma que se instala no hipocampo. A dor termina, mas a memória da dor permanece como uma sentinela sombria.
Diante disso, lanço a provocação: E se pudéssemos sentir a dor do outro como se fosse nossa?
Se o meu sistema nervoso estivesse "plugado" ao seu, o conceito de "outro" colapsaria. Entraríamos no campo da empatia radical.
Filosoficamente, Arthur Schopenhauer encontraria aqui a realização de sua ética. Para ele, a compaixão (Mitleid) é a base da moralidade, o momento em que a barreira entre o "eu" e o "não-eu" se torna porosa. Se sentíssemos a dor alheia, não precisaríamos de leis contra a tortura ou a violência física ou mental; ferir o próximo seria, literalmente, ferir a si mesmo. Seria o fim do egoísmo por pura necessidade biológica.
A fenomenologia de Edith Stein e Edmund Husserl discute a “Einfühlung” (intropatia). Stein argumenta que nunca podemos vivenciar o conteúdo da experiência do outro da mesma forma que ele. Mas o nosso “SE” biológico rompe essa barreira. O que aconteceria com a nossa psique?
Giacomo Rizzolatti e a descoberta dos neurônios-espelho nos mostram que já temos um rascunho disso: nosso cérebro simula a ação e a emoção que observamos. Mas sentir a dor de forma plena seria um fardo avassalador.
O psicólogo Paul Bloom, em sua crítica à empatia emocional, alerta que ela pode ser paralisante. Se sentíssemos a dor de todos os famintos e feridos do mundo ao mesmo tempo, nosso sistema entraria em colapso. Seríamos mártires de uma consciência expandida demais para um corpo tão pequeno.
A história que ilustra o poder desse “SE” aconteceu no inverno de 1914, nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Durante a famosa Trégua de Natal, a barreira biológica do medo foi temporariamente suspensa por um lampejo de empatia.
Soldados alemães e britânicos, que horas antes trocavam tiros, saíram de suas valas no "chão de ninguém". Não foi apenas um acordo político, foi um reconhecimento biológico. Eles compartilharam fotos de suas esposas, sentiram o mesmo frio cortante e o mesmo tremor nas mãos causado pela fome.
Naquele momento, a dor do outro deixou de ser estatística e tornou-se reflexo. Um soldado britânico escreveu que, ao olhar nos olhos de um alemão, viu o mesmo cansaço que sentia em seus próprios ossos. Aquela percepção mútua de vulnerabilidade física mudou a trajetória de centenas de homens que, após o Natal, recusaram-se a atirar uns nos outros, forçando os comandos militares a trocarem as tropas de lugar. A empatia, ali, foi um ato de rebeldia biológica.
Percebo que o “SE” biológico nos coloca diante de um paradoxo cruel.
Sonhamos com um mundo onde a dor alheia seja sentida por todos, acreditando que isso nos tornaria santos. Mas a realidade é que a individualidade da dor é também o que nos permite o cuidado. O médico só pode operar porque ele não sente a dor que o bisturi inflige; sua frieza relativa é o que permite a cura.
O “SE” aqui funciona como um alerta: a empatia absoluta seria a nossa extinção. A beleza da condição humana não está em sentir a dor do outro como se fosse nossa, o que seria um automatismo fisiológico, mas em escolher agir para aliviar uma dor que não sentimos.
A grandeza não está no nervo que vibra em simpatia, mas na alma que se inclina sobre o sofrimento alheio, reconhecendo-o como real, ainda que ele permaneça, para sempre, do lado de lá da pele.




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