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O RITMO DO RETORNO

  • Carlos A. Buckmann
  • 31 de jan.
  • 3 min de leitura

O RITMO DO RETORNO

            Proponho abandonarmos a ideia de que o tempo é uma estrada que apenas se afasta de nós.             Hoje o barulho é o do balanço de um pêndulo, e o tema nos obriga a considerar que a vida, em vez de uma linha reta, pode ser um círculo.

            Afinal, se a história se repete, o "SE" da ciclicidade é o que nos impede de caminhar distraídos. A natureza nos ensina que tudo retorna: as estações, as marés, o fôlego.

            No entanto, na alma humana, a ideia de repetição costuma gerar medo. O "SE" do eterno retorno nos lança um desafio de coragem: "E 'SE' tudo o que você vive agora tivesse que ser repetido infinitas vezes, exatamente da mesma forma?".

             Vivemos sob a ilusão de que o amanhã apagará os erros de hoje, mas a ciclicidade sugere que o que escolhemos agora se torna o padrão do nosso destino.

            Acredito que a ideia de retorno nos obriga a olhar para a repetição não como um fardo, mas como uma oportunidade de maestria, baseando-me em pensamentos fundamentais:

Friedrich Nietzsche, em A Gaia Ciência, apresentou o pensamento mais pesado: o "Eterno Retorno". Ele imaginou um demônio sussurrando que cada dor, cada alegria e cada suspiro voltariam. O "SE" de Nietzsche é o teste definitivo da afirmação da vida: "E 'SE' você pudesse dizer 'sim' a esse retorno, transformando o peso em uma dança?".

            Os Estoicos falavam da Palingenesia, a reconstrução do cosmos onde tudo volta ao seu estado original após um grande incêndio. O seu "SE" é o da aceitação: "E 'SE' o mundo é um organismo vivo que respira em ciclos, e a minha paz depende de eu fluir com esse ritmo, em vez de lutar contra ele?".

            Ouso afirmar que compreender a ciclicidade é o ato de perceber que não estamos indo para lugar nenhum, mas estamos sempre chegando. É a forma mais pura de presença. O "SE" do retorno nos pergunta se estamos orgulhosos das sementes que estamos plantando, sabendo que a colheita passará novamente pela nossa porta.

            Mas como o "SE" da ciclicidade pode transformar a nossa rotina?

            Vamos recordar o mito de Sísifo, reinterpretado por Albert Camus.

            Sísifo foi condenado a rolar uma pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la cair e ter que recomeçar o trabalho eternamente.

            Camus ficou horrorizado com a futilidade, mas encontrou a libertação no "SE" da consciência: "E 'SE' Sísifo for mais forte que sua rocha justamente porque aceita o ciclo?". Ao descer a montanha para buscar a pedra, Sísifo é dono de seu destino. Ele prova que a repetição não é uma prisão se houver lucidez. Ele não muda o seu castigo, mas transforma o seu eterno recomeço em uma vitória sobre o absurdo.

            Eis uma provocação necessária: - Em nossa era de "novidades instantâneas", onde somos viciados no que é inédito, corremos o risco de desprezar a profundidade do que se repete. Trocar de pele não é o mesmo que mudar de alma. O novo é muitas vezes apenas o velho com outra embalagem; a verdadeira transformação ocorre quando aprendemos a viver o mesmo dia de uma forma nova.

            A verdadeira dialética da ciclicidade nos ensina que o tempo não nos rouba a vida, ele nos devolve oportunidades de sermos melhores naquilo que já conhecemos. O "SE" do eterno retorno não deve ser uma ameaça, mas um convite ao capricho.

            A nossa maior obra de arte não é a linha que traçamos, mas o círculo que conseguimos fechar com dignidade.

            O retorno é o compasso que mantém a música da existência no ritmo certo.

            Se soubermos viver com essa consciência, a repetição deixa de ser tédio e passa a ser o palco onde exercitamos a nossa eterna liberdade de recomeçar.

 
 
 

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