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O LABIRINTO DA SEDE

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de jan.
  • 3 min de leitura

O LABIRINTO DA SEDE.

            O fogo que aquece é o mesmo que consome.

            Ontem, celebramos o desejo como a faísca da evolução e o motor da história.

            Hoje, porém, a luz da minha lamparina parece projetar sombras mais longas sobre o papel. Preciso falar sobre o reverso da medalha.

            Se o desejo é o grito de "se fosse diferente", ele também pode ser o sussurro de uma armadilha que nos acorrenta a um horizonte que nunca alcançamos.

            Existe um perigo silencioso em habitar demais o território do querer. Quando o “SE” deixa de ser uma ponte para a criação e se torna um refúgio contra o agora, entramos no domínio da compulsão.

            O desejo, desvirtuado, transforma-se em vício, uma tentativa desesperada de preencher um vazio existencial com substâncias, telas, compras ou validações alheias.

            É o “SE” da fuga: "Se eu tiver apenas mais isto, a angústia cessará". Mas a angústia, sendo filha da nossa própria finitude, não se deixa amordaçar por acúmulos.

            Filosoficamente, o vício é a má tradução de uma sede espiritual.

            Jacques Lacan nos alertava sobre o “Objeto Petit a”: aquele objeto do desejo que acreditamos que nos completará, mas que, por definição, é inalcançável. O viciado é aquele que acredita piamente que o objeto está logo ali, na próxima dose ou no próximo clique. Ele está preso em um “SE” circular: "E se for desta vez que eu me sinto pleno?".

            Schopenhauer, que ontem nos mostrou a força da vontade, hoje nos lembra de sua crueldade. Para ele, o desejo satisfeito dá lugar imediato ao tédio, e o tédio nos empurra de volta ao desejo. A compulsão é o pêndulo oscilando em velocidade frenética, impedindo o sujeito de simplesmente ser.

            O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han fala da "Sociedade do Cansaço", onde o desejo de desempenho e consumo torna-se uma autoexploração. O “SE” aqui é o da produtividade infinita: "Se eu for melhor, se eu tiver mais sucesso, eu serei aceito". É um vício em si mesmo que termina em burnout.

            A dor de quem vive na compulsão é a dor da fragmentação. O ser humano tenta extirpar o sofrimento do momento através de uma anestesia qualquer, mas o que sobra são cicatrizes na alma: a perda da autonomia e a sensação de ser um estrangeiro dentro do próprio corpo.

            Para entender o risco do desejo como fuga, olhemos para a história de Bill Wilson, o fundador dos Alcoólicos Anônimos.

            Bill era um homem de desejos colossais; desejava o sucesso em Wall Street, desejava o controle sobre sua vida, desejava a euforia que o álcool lhe prometia. O seu “SE” era o de um conquistador: "Se eu beber, sou invencível".

            Mas o seu desejo tornou-se sua cela. Ele chegou ao fundo do poço em 1934, desprovido de dignidade e bens. Foi no quarto de um hospital, em meio ao delírio da abstinência, que ele teve uma epifania que mudaria a história de milhões. Ele percebeu que o seu vício não era um defeito de caráter, mas uma busca equivocada por conexão.

            Bill entendeu que o “SE” da compulsão só poderia ser quebrado por outro “SE”: o da entrega e da alteridade.

            Ele percebeu que só conseguiria manter sua sobriedade “SE” ajudasse outro alcoólatra. Ele trocou o desejo de possuir (a bebida, o poder) pelo desejo de servir. O vazio que ele tentava preencher com o álcool foi preenchido pela empatia radical. A história de Bill W. mostra que o desejo, quando voltado para fora e para o outro, deixa de ser um vício para se tornar uma cura.

            Encerrar esta crônica exige um olhar crítico sobre a nossa própria época. Vivemos em uma cultura de "SEs" prontos para consumo, projetados para nos manter em um estado de eterna carência.

            O risco do desejo é o esquecimento de que somos seres finitos e de que a falta não é um erro do sistema, mas a própria condição da nossa liberdade.

            O vício é o “SE” que parou de caminhar; é o desejo que desistiu de ser motor para se tornar âncora. A compulsão nos rouba a capacidade de sentir a dor do outro, o tema que abriu este capítulo, porque nos torna prisioneiros da nossa própria carência.

            A verdadeira subversão, talvez, não seja desejar sempre mais, mas ter a coragem de perguntar: "E se o que eu tenho agora fosse o suficiente?".

            No labirinto do “SE”, a saída muitas vezes não está em correr mais rápido atrás do horizonte, mas em parar, respirar e reconhecer que o desejo só é vida quando ele abre janelas, e não quando ele constrói paredes.

 

 
 
 

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