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O ECO DO CAMINHO

  • Carlos A. Buckmann
  • 30 de jan.
  • 3 min de leitura

O ECO DO CAMINHO

            Proponho entrarmos hoje em uma sala mais silenciosa da nossa biblioteca imaginária.

            Se ontem o barulho era o da areia caindo na ampulheta do "agora", hoje o som é o do virar de páginas de livros cujos autores já não estão entre nós, e o tema nos obriga a olhar para trás para podermos enxergar à frente.

            Afinal, se o presente é o sopro, a memória é o rastro.

            A morte física é um evento biológico, mas a morte existencial ocorre quando o último eco da nossa passagem se apaga no mundo.

            O "SE" da memória e do legado nos lança um desafio ético: "E se a nossa vida for, na verdade, uma semente de um jardim que jamais habitaremos?". Vivemos sob a tensão de querer ser eternos enquanto somos feitos de pó. O legado não é o que acumulamos, mas o que "vaza" de nós e irriga a vida dos outros.

            Acredito que a memória é a substância que dá continuidade ao "Eu" e ao "Nós", baseado no estudo de alguns autores:

            Miguel de Unamuno, em Do Sentimento Trágico da Vida, falava da "fome de imortalidade". Para ele, o ser humano é aquele que se recusa a ser apenas um parêntese no tempo. O "SE" de Unamuno é o grito contra o esquecimento: "E se o meu desejo de ser eterno for a prova de que algo em mim já o é?".

            Marco Aurélio, o imperador estoico, tinha uma visão mais sóbria. Em suas Meditações, ele lembrava que a fama é um sopro e que, em breve, tanto quem lembra quanto quem é lembrado serão esquecidos. O seu "SE" é o da integridade: "E “SE” o único legado que importa for a retidão com que vivi agora, independentemente de quem saberá disso amanhã?".

            Uma de minhas autoras preferidas, Hannah Arendt, acreditava que o legado se constrói na "esfera pública" através da ação e do discurso. Para ela, a imortalidade é garantida pela capacidade de iniciar algo novo (natalidade) que continuará a ressoar na rede de relações humanas após a nossa partida.

            Ouso afirmar que construir um legado é o ato de plantar árvores sob cujas sombras não sentaremos. É a forma mais pura de generosidade temporal. O "SE" da memória nos pergunta se o mundo será um pouco menos árido porque nós passamos por ele. A memória não é apenas um arquivo do passado; ela é a arquitetura do futuro.

            Como o "SE" do legado pode mudar o curso de uma vida e da história? Vamos recordar o caso de Alfred Nobel. Em 1888, o irmão de Alfred, Ludvig, morreu. No entanto, um jornal francês cometeu um erro e publicou o obituário de Alfred sob o título: "O Mercador da Morte Morreu". O texto dizia: "O Dr. Alfred Nobel, que se tornou rico ao encontrar formas de matar mais pessoas e mais rapidamente do que nunca, morreu ontem".

            Alfred ficou horrorizado. Ao ler sua própria morte antes do tempo, ele se deparou com o "SE" mais cruel: "E “SE” este for o único rastro que deixarei na Terra?".

            Ele não queria ser lembrado pela invenção da dinamite e pela destruição. Naquele instante, ele decidiu reescrever seu legado. Mudou seu testamento e destinou sua imensa fortuna para criar os Prêmios Nobel, premiando aqueles que trouxessem os maiores benefícios à humanidade.

            Alfred provou que a consciência da morte é a ferramenta mais poderosa para ajustar a bússola da vida. Ele não mudou o passado, mas transformou o seu futuro em memória de paz.

Quero deixar uma provocação necessária: - Em nossa era de "rastros digitais" eternos, onde tudo é registrado em nuvens de dados, corremos o risco de confundir legado com vaidade. Ter um milhão de seguidores não é o mesmo que deixar uma marca. O registro digital é frio; a memória humana é quente, feita de afeto e transformação.

            A verdadeira dialética do legado nos ensina que o que sobra de nós não são os bustos de bronze ou os nomes em edifícios, mas os valores que ajudamos a manter vivos. O "SE" da memória não deve ser uma busca por fama, mas por utilidade.

            A nossa maior obra de arte não é o que fazemos, mas como ajudamos os outros a se tornarem.

            O legado é o perfume que fica na sala depois que a pessoa sai.

            Se soubermos viver com essa consciência, a finitude deixa de ser um abismo e passa a ser uma moldura que torna a nossa jornada única e valiosa.

 
 
 

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