A DANÇA COM NÚMEROS
- Carlos A. Buckmann
- 26 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

DANÇAR COM NÚMEROS
Navegando pelos meandros da mente humana, buscando compreender a natureza do pensamento e da criação artística, meu pensamento, embebido na busca do equilíbrio entre o rigor do intelecto e a fluidez do espírito provoca uma reflexão sobre a complexa dança da existência moderna.
Paul Valéry nos deixou uma frase, aparentemente simples, mas devastadora em sua profundidade:
“Um homem de negócios é um cruzamento entre um dançarino e uma máquina de calcular.”
Paul Valéry (1871–1945), francês de Sète, não foi apenas um poeta simbolista, foi um arquiteto do pensamento. Valéry buscava a precisão do raciocínio aliada à graça da intuição.
Sua obra-prima, “La Jeune Parque”, é um poema metafísico onde a alma se debate entre dúvida e certeza, caos e ordem. Mas foram seus “Cahiers”, mais de 25.000 páginas de anotações filosóficas, que revelaram seu verdadeiro legado: a obsessão com a dialética entre lógica e criação.
Para Valéry, o espírito humano não é máquina nem musa, é ambos. Em A “Crise do Espírito”, escreveu:
“O pensamento é um diálogo entre o que sabemos e o que ignoramos.”
É nesse diálogo que reside a genialidade do homem de negócios: não basta calcular, é preciso dançar. Não basta prever, é preciso improvisar. Não basta ser eficiente, é preciso ser vivo.
Valéry não estava brincando com metáforas. Sua frase é um manifesto ontológico para quem ousa empreender.
A máquina de calcular representa a estrutura: - O estoque que gira 6,2 vezes ao ano, não 3,1; - O fluxo de caixa previsto com rigor; - A análise de dados que antecipa tendências. É a parte do negócio que não pode falhar, porque, como disse Peter Drucker, “se você não pode medir, não pode gerenciar.”
O dançarino, porém, é a alma: - O farmacêutico que, ao entregar o remédio, pergunta: "Como está o tratamento?”; - A atendente que, ao ver o cliente hesitar, sugere um serviço complementar com delicadeza; - O dono que, em vez de cortar custos cegamente, reinventa a loja como centro de saúde comunitário.
É a parte que não está no Excel, mas que faz o cliente voltar. Ignorar um dos lados é suicídio.
- A farmácia que é só máquina vira um depósito com caixa registradora: - Preço baixo, mas ninguém me olha nos olhos.
- A que é só dança vira um sonho sem chão: Atendimento lindo, mas o estoque vira poeira.
Como Nietzsche já alertara, citando os deuses gregos: “O espírito apolíneo (ordem) sem o dionisíaco (caos criativo) é estéril. O dionisíaco sem o apolíneo é destruição.”
O homem de negócios moderno deve ser, como Valéry, ambos.
Na Vida Pessoal: O Eu como Campo de Batalha.
Quantos de nós vivem como máquinas? Acordamos no mesmo horário, seguimos rotinas, repetimos frases, evitamos riscos, tudo para não sentir o vazio.
Mas, como Martin Heidegger observou, “a autenticidade surge quando confrontamos o abismo da possibilidade.”
Dançar é ousar mudar de carreira, pedir desculpas, dizer não.
Calcular é planejar cada passo sem cair no precipício.
Quem só calcula vira escravo da segurança. Quem só dança vira refém do acaso.
A sociedade contemporânea está dividida entre “tecno-burocratas” (que acreditam que algoritmos resolverão tudo) e “românticos anárquicos” (que confiam apenas no coração).
Valéry riria de ambos. Para ele, como escreveu em “A Conquista de Todas as Forças”: “A verdadeira revolução não está na máquina nem na multidão, está na síntese entre eficiência e humanidade.”
Uma farmácia que usa IA para prever demanda e treina sua equipe para escuta ativa não é utópica, é necessária.
W. Edwards Deming, pai da qualidade total, resumiu: "14 pontos para a gestão, mas o 15º é: lembre-se de que você está lidando com seres humanos.”
Heráclito deixou escrito: “O caminho para cima e para baixo é um só.” A lógica e a intuição não são opostas — são faces da mesma moeda.
Por sua vez, Carl Jung afirmou: “Na psicologia dos arquétipos, o pensamento (máquina) e o sentimento (dança) são funções complementares da mente.” Ignorar uma leva à neurose coletiva, ou à falência empresarial.
Todos concordam: quem não dança, vira estátua. Quem não calcula, vira folclore.
Quantos donos de farmácia se orgulham de serem “muito analíticos”, enquanto sua equipe se desgasta em tarefas sem sentido e os clientes fogem para apps que entregam em 30 minutos?
Quantos acreditam que “ser humano” basta, sem perceber que sua loja afunda por falta de gestão básica de estoque?
A verdade é cruel: você não é um visionário, é um desorganizado com sorte. Ou não é um profissional, é um burocrata sem alma.
Valéry não estava brincando. Sua frase é um diagnóstico: se você é só máquina, está morto. Se é só dança, está delirando.
Então, pare de escolher entre eficiência e empatia. Seja os dois.
Treine sua equipe não apenas em produtos, mas em presença. Use dados não para substituir o julgamento, mas para iluminá-lo. Planeje cada movimento, mas deixe espaço para o imprevisto criativo.
Porque, no fim, não é o Excel que fideliza. Não é o sorriso que equilibra o caixa. É a síntese.
E se hoje você lê esta crônica e pensa: Isso é fácil de dizer, mas difícil de fazer, então você ainda não entendeu.
Não é difícil. É necessário.
Calcule. Dance. E descubra que, como disse Valéry, “o homem de negócios não nasce, constrói-se”, passo a passo, número por número, até que a precisão e a graça se tornem uma só coisa.
Porque no palco do varejo, só há lugar para quem sabe contar e dançar.




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