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O REINADO DE MOMO

  • Carlos A. Buckmann
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

O Reinado de Momo:

Ensaio sobre a Euforia e a Cinza

            Eis que chega o rei.

            Não um monarca de coroa e cetro perpétuos, mas Sua Majestade, o Carnaval, soberano de um trono de areia que o tempo, invariavelmente, leva consigo na Quarta-Feira de Cinzas.

            Para compreender este reinado efêmero, é preciso investigar não apenas sua história, mas o abismo interior que ele vem, ano após ano, nos convidar a contemplar.

            A origem do Carnaval não está nos holofotes nem no concreto das avenidas, mas nas entranhas de uma Europa que ainda engatinhava como civilização.

            Os estudiosos nos contam que sua semente foi plantada na Antiguidade, florescendo plenamente na Idade Média, quando a Igreja, com sua sabedoria prática, decidiu não extinguir os festejos pagãos, mas domesticá-los .

            Estabeleceu-se, assim, um pacto curioso com o calendário: o período que antecedia os quarenta dias de jejum quaresmal, tempo de penitência e renovação interior que se consolidou por volta do século IV, seria dedicado à carne, ao prazer, à desmedida .

            A palavra “Carnaval” carrega em si esta contradição: do latim “carnem levare”, “retirar a carne”, anunciava-se justamente o momento de entregar-se a ela. Era a despedida dos prazeres, o último banquete do pecado antes da longa travessia do deserto espiritual. Na Roma antiga, os nobres já se mascaravam para participar das festas populares sem serem reconhecidos, invertendo temporariamente a ordem social . A máscara, portanto, não é um adereço: é a chave simbólica que abre as portas do possível.

            Se o Carnaval tem uma raiz, espalhou-se em múltiplos galhos pelo globo. Em cada lugar, a fantasia coletiva assumiu a cor local. Em Veneza, as máscaras aristocráticas transformavam a cidade em um teatro de mistério e sedução discreta. Em Nice, as flores substituíram a serpentina em batalhas perfumadas. Em Nova Orleans, o jazz deu alma ao Mardi Gras, fazendo ecoar pelos pântanos da Louisiana a mesma pulsão de liberdade que os escravos africanos traziam nos tambores.

            Mas foi no Brasil que o reinado de Momo encontrou seu trono mais exuberante.

            Chegou ao país no século XIX, trazido pelos portugueses sob a forma do Entrudo, uma brincadeira primitiva onde os foliões atiravam água, farinha e limões de cheiro uns nos outros. Pouco a pouco, porém, esta celebração europeia foi sendo transformada pela alma brasileira. Os negros dos morros trouxeram o samba, os cordões e ranchos deram lugar às escolas, e o Carnaval deixou de ser cópia para se tornar invenção. O que era festa de branco nos salões tornou-se ocupação negra e mestiça das ruas, numa alquimia cultural que ainda hoje nos define como povo.

            Há quem veja no Carnaval apenas um espetáculo de estatísticas. E é verdade que o rei Momo também movimenta os cofres. A indústria da folia gera milhares de empregos diretos e indiretos, injeta bilhões na economia, movimenta o turismo e aquece o comércio. As fantasias, os carros alegóricos, os instrumentos, a cerveja, tudo isso compõe um gigantesco motor econômico que, por alguns dias, faz o país girar em ritmo de batucada.

            Mas reduzir o Carnaval à economia seria como avaliar um poema pelo número de páginas. A verdadeira moeda que circula nestes dias não é o real, mas a alegria, essa estranha mercadoria que, quanto mais se dá, mais se multiplica .

            É na psique popular que o fenômeno encontra sua morada mais profunda. O psicólogo Carl Jung, se vivo fosse, certamente se deleitaria em observar como o inconsciente coletivo brasileiro extravasa na avenida, liberando arquétipos que dormitam no subsolo da alma durante todo o ano. As fantasias não são meros tecidos brilhantes: são a materialização de desejos recalcados, de identidades que a vida cotidiana nos impede de experimentar.

            O Carnaval opera como uma gigantesca catarse coletiva, conceito que a psicologia toma emprestado do teatro grego para designar a purificação das emoções através da vivência intensa .

             Durante o resto do ano, usamos máscaras sociais coladas ao rosto com a cola invisível das convenções: o profissional contido, o pai responsável, a esposa dedicada.

            Nos dias de Momo, estas máscaras caem, ou melhor, dão lugar a outras, mais coloridas, que nos permitem ser, por algumas horas, aquilo que jamais ousamos . É uma suspensão temporária do superego, uma licença poética que a sociedade concede a si mesma para lembrar-se de que a vida não é apenas dever.

            Freud, em sua troca de cartas com Einstein sobre as guerras, apontou que tudo o que produz laços emocionais entre as pessoas tem efeitos contrários à destruição. O Carnaval, nesse sentido, é uma celebração de Eros, a pulsão de vida que une, que agrega, que faz o corpo do outro ser percebido não como ameaça, mas como extensão da própria alegria.

            Nos blocos de rua, nos desfiles, na multidão que canta e pula junto, dissolve-se temporariamente o indivíduo isolado e emerge o ser coletivo, experiência rara numa sociedade que nos condena ao narcisismo e à solidão.

            Há algo de profundamente terapêutico nessa entrega. A psicologia positiva enxerga no Carnaval uma oportunidade de expansão da humanidade, de experimentação de novos modos de ser pessoa.

            A psicanálise, por sua vez, lembra que a fantasia não é fuga da realidade, mas linguagem do desejo. No ato de vestir uma fantasia, dizemos ao mundo, e a nós mesmos, que não somos apenas aquilo que aparentamos ser. Somos também o personagem que sonhamos, o arquétipo que nos habita, a possibilidade que a vida cotidiana nos nega.

            E agora, diante da realidade destes dias de Momo, o que fazer?

            A resposta é ao mesmo tempo simples e terrivelmente difícil: entregar-se. Não como quem se perde, mas como quem se encontra. Não como quem foge, mas como quem, paradoxalmente, retorna ao centro de si mesmo através do outro.

            O Carnaval nos convida a experimentar a suspensão do tempo normal, a habitar o intervalo entre aquilo que fomos e aquilo que poderemos ser. É um divã coletivo onde as dores do ano se dissolvem no suor da dança, onde as mágoas se transformam em refrão cantado em coro. O psicólogo Luís Miguel Neto sugere que talvez haja mais verdade no Carnaval do que no resto do ano. Afinal, de que adianta a coerência se ela é apenas uma camisa de força para a alma?

            Diante do reinado, cabe reconhecer que a alegria não é um luxo, mas uma necessidade antropológica. Cabe compreender que o riso, como ensinou Mikhail Bakhtin, é uma força de resistência contra toda forma de opressão e dogmatismo. Cabe perceber que, ao ocuparmos as ruas com nossos corpos pintados e nossas fantasias, estamos afirmando que a cidade nos pertence, que a vida merece ser celebrada, que o amanhã (se houver) pode esperar mais um pouco.

            E quando a quarta-feira chegar, como sempre chega para quem sobreviveu, com suas cinzas e seu silêncio, que não venha o vazio, mas a memória. Pois o Carnaval verdadeiro não acaba no fim da folia. Ele permanece como um arquivo de afetos, uma lembrança de que fomos capazes de parar o tempo e dançar. As cinzas na testa dos cristãos lembram a finitude; as cinzas do Carnaval lembram que, apesar de tudo, fomos felizes.

            E se a vida é feita de dias comuns, que pelo menos uma vez por ano ela se permita ser extraordinária.

            Que venha o rei, que venha a multidão, que venha o suor e o confete. Depois, sim, a cinza. Mas primeiro, que venha a festa.

 

 
 
 

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