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UMA SINFONIA ESQUECIDA

  • Carlos A. Buckmann
  • 21 de jul.
  • 4 min de leitura

UMA SINFONIA ESQUECIDA

            Na tarde em que o sol de outono se derramava como ouro derretido sobre as pedras irregulares da calçada, o músico de meia-idade, de barba por fazer e olhos de quem já viu o tempo dobrar esquinas, dedilhava seu violão de doze cordas.

            Sentado em seu banquinho de madeira, entre o bulício do Shopping Rua da Praia e a solenidade do prédio da Caixa Econômica Federal, ele não tocava para as moedas que ocasionalmente tilintavam no estojo aberto, mas para o eco que sua música encontrava entre os jacarandás da praça. Sua música era uma prece laica, um diálogo com os fantasmas do século XIX que ainda vagueavam pelos arcos da Alfândega.

            O velho aposentado, de paletó surrado e bengala de cabo de prata, fazia sua rota habitual: vinha pela Rua Sete, contava os passos até a esquina da Rua do Correio do Povo, e ia em direção a esquina da Rua da Praia. Sempre parava, como um relógio de pêndulo, diante do músico. Não por caridade, mas por reconhecimento. Havia ali, naquela melodia repetida e sempre renovada, algo que lhe recordava os concertos de outrora no Teatro São Pedro, quando a cidade ainda respirava o ar rarefeito da “belle époque”. O velho não jogava moedas; jogava memórias. Inclinava a cabeça, fechava os olhos e via, na poeira do fim de tarde, as carruagens e os casacos de cauda.

            Então ela surgiu, como uma nota dissonante em uma partitura bem-comportada.

            A estudante de música da UFRGS, com seu caderno de pautas debaixo do braço e o cabelo preso em um coque desalinhado, atravessou a praça com a pressa de quem foge do relógio. Seus olhos, no entanto, foram capturados pelas cordas do violão. Ela parou, não por educação, mas por perplexidade. Escutou por alguns instantes e, com a franqueza dos jovens que ainda não aprenderam a diplomacia da arte, disse:

            “O senhor está tocando em uma afinação antiga. Dó sustenido menor, com uma sexta aumentada. Não é a usual. Parece... parecia uma música que meu avô cantarolava, mas ele dizia que era de um compositor que nunca existiu.”

            O músico ergueu os olhos, e seus dedos, que até então pareciam autômatos, hesitaram sobre as cordas. O velho, que observava a cena, pigarreou.

            “Existe, disse o aposentado, com a voz rouca de quem guarda segredos em gavetas empoeiradas.- Essa melodia é a ‘Sinfonia Esquecida’. Foi composta em 1898 por um imigrante alemão que vivia na ‘Quinta Colônia’, antes de ela ser engolida pelo asfalto que liga a Santa Maria. Dizem que ele a escreveu para uma mulher que esperava na Estação da Viação Férrea, junto à Vila Belga, que ficava lá no início da Avenida Rio Branco e que nunca chegou. A partitura original foi queimada no incêndio do antigo armazém, mas o vento, o vento a levou para as cordas de um violão cego.”

            O músico sorriu, um sorriso amargo de quem conhece a origem de seus dedos. Ele não sabia que era essa a história. Ele apenas a ouvira, certa noite, em um sonho lúcido, quando as águas do Guaíba invadiram seu quarto e uma figura de chapéu-coco lhe soprou os acordes ao ouvido.

            A estudante, tomada por um fervor quase científico, ajoelhou-se na calçada fria e começou a transcrever freneticamente a melodia em seu caderno. O velho, por sua vez, aproximou-se e, com a ponta da bengala, desenhou no chão um pentagrama imaginário, dizendo:

            “A terceira corda, a que o senhor não pisa, é a nota que falta. Ela não está no violão; ela está no ar. É a nota que o vento sul traz do extremo do continente. O senhor não a toca porque ela não pode ser tocada; ela deve ser ouvida com os olhos.

            O músico, então, fez algo inusitado: suspendeu as mãos sobre o braço do instrumento e, sem tocar, começou a movê-las como se regesse uma orquestra invisível. As doze cordas vibraram sozinhas, num zumbido grave e dourado, e uma nota aguda, cristalina, emergiu do silêncio entre as vibrações, a nota que não estava lá. A nota que o velho dissera ser ouvida com os olhos.

            A estudante largou o lápis. O velho firmou a bengala. E o músico, com um movimento súbito e cortante, arrancou todas as cordas do violão com um só golpe de sua unha grossa, deixando-as cair como serpentes mortas no chão. Levantou-se, pisou no estojo fazendo saltar as moedas, virou as costas para a Caixa Econômica e, sem olhar para trás, jogou o violão desencordoado aos pés do cavalo do General Osório, a estátua esverdeada pelo tempo.

            “Agora a melodia está livre”, disse ele, enquanto os três olhavam o instrumento de madeira, mudo e nu, refletir o céu cor-de-rosa. “Quem a quiser, que a pegue no vento.”

            E foi-se, deixando para trás o velho e a estudante, que, por um longo instante, permaneceram imóveis, escutando o rumor das folhas dos jacarandás que, naquele momento, pareciam cantar, em uníssono, a Sinfonia Esquecida. 

 
 
 

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