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CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - DESUMANIZADOS

  • Carlos A. Buckmann
  • há 1 dia
  • 1 min de leitura

DESUMANIZADOS

            Na escadaria da Rua 24 de Maio,  os azulejos coloridos pareciam guardar fragmentos de histórias esquecidas.

            Pessoas subiam e desciam apressadas, como se cada degrau fosse apenas um obstáculo entre um ponto e outro da cidade.

            Sentado num degrau, Pedrinho observava o movimento.

            Aos quatorze anos, carregava um peso maior que a mochila que abandonara junto com a escola. Em casa, os conflitos eram constantes; na vida, as perguntas pareciam maiores que as respostas.

            Mariana surgiu entre os transeuntes.

            A professora o reconheceu de imediato.

            “Faz tempo que não te vejo na aula.”

            Pedrinho baixou os olhos.

            “Acho que a escola não faz falta para ninguém.”

            Mariana permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois apontou para a escadaria.

            “Está vendo esses mosaicos? Cada peça, sozinha, parece sem valor. Mas, quando uma falta, a imagem inteira se rompe.”

            O menino acompanhou o olhar dela. Percebeu que os degraus não eram feitos apenas de pedras, mas de encontros.

            As pessoas continuaram passando, indiferentes.

            Contudo, naquele instante, uma professora decidiu enxergar um aluno, e um aluno voltou a enxergar a si mesmo.        

            Talvez a desumanização comece quando deixamos de notar quem está sentado no degrau ao lado.

 

 
 
 

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