CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A PERFEIÇÃO DO OFÍCIO
- Carlos A. Buckmann
- há 2 dias
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A PERFEIÇÃO DO OFÍCIO
Estação Rodoviária. O homem desceu do ônibus como quem desce de si mesmo.
Na Voluntários da Pátria, a noite era um ritual de corpos trocados por moedas.
Ele observou as meretrizes: gestos automáticos, sorrisos ensaiados, olhos que não perguntavam. Nenhuma delas, pensou, se detinha para questionar o próprio ofício. Eram eficientes, técnicas, mas vazias de sentido.
Viu.
Ela era diferente. Não no corpo, mas num certo descompasso: um instante de pausa entre um passo e outro.
Ele a escolheu por isso. Não pela carne, mas pela fresta.
Seguiram para o quarto. Ela falava, ele ouvia. Ela ria, ele calculava.
Quando ela tirou o vestido, ele pegou a faca e perguntou, baixo, para si mesmo: "Quem és tu neste fazer?"
Ela parou. Seu silêncio foi mais nu que o corpo.
Ele errou o golpe, não por piedade, mas por falta de perfeição: ela não era autômata. A faca cravou-se no colchão fétido.
E, ao errar, ele se viu errado. Saiu sem tocar nela.
Na rua, as outras continuavam girando, como rodas que nunca param para saber se ainda estão vivas.
Ele passou despercebido: uma sombra que também não sabia mais o que fazia ali.




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