CONTOS DAS RUAS DE PORTO ALEGRE - A FÍSICA DA FALÊNCIA
- Carlos A. Buckmann
- há 6 horas
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A FÍSICA DA FALÊNCIA
A lama baixou, mas a dívida subiu.
Tiago, dono de uma pequena livraria na Cidade Baixa, via os livros ainda encharcados sobre o balcão torto. Henrique, credor, pisava firme no chão manchado:
"Quero meu dinheiro."
Foram a juízo.
O advogado invocou Bergson: "O tempo é fluxo, não cronômetro."
O credor invocou o contrato.
"O capital também é movimento."
O juiz Castro, sábio e lento, deu a sentença.
“Metade da dívida, parcelada. A loja vai para o credor, mas o devedor a usa por dois anos. Ninguém para. Ninguém perde tudo.”
Tiago ouviu. Seus olhos calcularam o peso dos anos. Seu peito, o peso do coração.
“Metade…” sussurrou.
E caiu.
O juiz, de pé, olhou o corpo no chão e pensou:
"Até a morte é movimento, só muda de direção."
Mas Tiago, ali, já não se movia mais.




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