top of page

UM ENCONTRO DE ALMAS PLENAS

  • Carlos A. Buckmann
  • 17 de jul.
  • 4 min de leitura

UM ENCONTRO DE ALMAS PLENAS

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            Há encontros que o tempo parece tramar em segredo, e este era um deles.

            A noite caía sobre o Café entre Fluxos como um véu de algodão cru, e as luzes, tênues, pareciam emergir das próprias xícaras. O ar, carregado de notas de café torrado e madeira velha, era cortado pelas primeiras notas de um Prelúdio de Debussy que saíam do velho gramofone. A música, fluida como um sonho, era a perfeita moldura para a visita que se anunciava.

            Nise da Silveira entrou primeiro, seus olhos pequenos e vivos percorrendo cada canto como se lessem a alma do lugar. Seu vestido simples, seu cabelo preso em um coque austero, sua presença serena. Acompanhava-a Carl Rogers, cujo sorriso franco e a postura reclinada na cadeira, com as pernas cruzadas, pareciam um convite silencioso ao diálogo.

            “Este lugar respira, disse Nise, admirando uma das pinturas na parede, uma expressão crua da vida interior de alguém. A psique, como a arte, não se fragmenta.”

            Rogers assentiu, pegando a xícara de chá de ervas que eu lhe servi.

            “A personalidade, Doutora, é um processo em constante formação. O que vemos no cliente, na terapia, não é um conjunto de sintomas a serem extirpados, mas uma tendência atualizante, uma força vital que busca sua expressão plena. Acredito no ser humano como um organismo em busca de sua totalidade.”

            Ao fundo, um homem lia um livro de poemas com a intensidade de quem decifra um mapa, e uma mulher esboçava algo em um guardanapo, os olhos fixos no movimento das mãos do barista. O Café, para mim, sempre foi um palco dessas sincronicidades.

            Nise inclinou-se sobre a mesa. A luz do abajur criava sombras que dançavam em seu rosto.

            “Eu passei minha vida combatendo a visão do homem como uma máquina, Dr. Rogers. No hospício, vi o que o racionalismo cartesiano fazia: eletrochoques, lobotomias, a loucura tratada como uma falha mecânica. Para mim, cada paciente era um universo em si. A arte, o contato com os animais, a expressão livre, isso era cura, não a reparação de uma engrenagem quebrada. O homem é uma totalidade indivisível . Sua ‘tendência atualizante’ ressoa com essa ideia.”          

            Rogers ouviu, seus olhos azuis refletindo a luz.

            “E eu passei minha vida tentando criar as condições para que essa tendência pudesse florescer. Escuta ativa, empatia, consideração positiva incondicional. Não é uma técnica, é uma postura. Acredito que, num ambiente seguro, o indivíduo tem os recursos para resolver seus próprios conflitos. Meu trabalho, na psicoterapia, era remover os obstáculos para que o cliente pudesse ouvir a si mesmo.”

            Nise sorriu, um sorriso que continha a sabedoria de quem viu o inferno e ainda assim escolheu acreditar no amor.

            “A escuta... sim. Há uma arte na escuta. No Centro Psiquiátrico, eu observava, desenhava, pintava com eles. Mas a psique, como bem sei, não é apenas um processo de adaptação, Dr. Rogers. Ela tem camadas profundas, um inconsciente coletivo, arquétipos que ecoam através dos tempos. A sua abordagem, tão centrada no ‘eu’, corre o risco de esquecer que somos também parte de um todo universal.”

            Rogers coçou o queixo, refletindo.

            “A experiência é subjetiva, Doutora. É nessa subjetividade que a mudança ocorre. Quando um cliente diz ‘eu me sinto’, ele está tocando o centro de sua própria atualização. Talvez o inconsciente coletivo, como o senhor Jung o chamou, seja a rica paisagem na qual essa atualização acontece. Mas o guia, para mim, é o sentimento, o agora. A comunicação genuína, a congruência, é a chave para uma relação que liberta.”

            Nise pegou um guardanapo e começou a desenhar nele, com uma calma zen.

            “Os meus pacientes, Dr. Rogers, me ensinaram que a loucura não é uma doença, mas uma reação, uma linguagem. As suas ideias sobre a autoaceitação são um farol. Mas acredito que o percurso para a totalidade, para aquilo que Spinoza chamava de ciência intuitiva, é também um ato de coragem e desapego. Quando falamos da alma, do espírito, estamos falando de algo que transcende o ajuste social . A sociedade, com suas paixões tristes e seus preconceitos, muitas vezes nos afasta da essência.”

            O silêncio que se seguiu era mais eloquente que qualquer palavra. Debussy havia cedido lugar a uma melodia mais introspectiva de Satie, e a fumaça dos cafés parecia se condensar em pensamentos.

            “A sua luta, Doutora, disse Rogers, quebrando o encanto, contra o preconceito, contra a lobotomia, contra a desumanização do paciente... essa é a essência da minha própria busca. Criar um mundo onde o outro possa ser ele mesmo, sem amarras, sem julgamentos.”

            Ela assentiu. E eu, que servia mais uma xícara a um cliente que discutia política em voz baixa, senti o peso daquele acordo.

            “A psiquiatria precisa de mais alma, Dr. Rogers, e a psicologia, de mais ação.  Nise deu um gole em seu café preto. O conhecimento se faz com o corpo, com o sentimento, com a intuição. Não basta entender a teoria da empatia; é preciso vivê-la, encarná-la. Como a arte, a terapia é um ato de criação contínua.”

            Ao sair, Nise tocou o ombro de um jovem que chorava silenciosamente em uma mesa, e eu vi Rogers deixar um bilhete para a garota que desenhava no guardanapo, um bilhete que, imagino, dizia algo sobre a beleza de seu processo criativo. Eles partiram, deixando um rastro de possibilidades.

            O Café entre Fluxos guardou na memória o eco daquele encontro. As ideias de Nise da Silveira, com sua aposta na totalidade do ser e sua visão de que a alma, como a arte, não se fragmenta, encontraram no humanismo de Carl Rogers uma ponte, uma prova de que a escuta e a empatia são o solo onde a mudança verdadeira floresce.

            Eles nos deixaram um legado, uma lição: que o encontro entre a ciência e a humanidade é um território sagrado, onde a condição humana, com toda a sua beleza e sua dor, deve ser respeitada como um todo indivisível.

            A noite, agora, era mais silenciosa. As estrelas, refletidas nas poças da chuva recente, pareciam pequenas frestas para o infinito.

            No meu livro de guardanapos, escrevi, com a caneta de tinta invisível que sempre carrego:

            "A verdadeira cura não está em consertar a engrenagem, mas em dançar com a música que a alma já conhece."

 
 
 

Comentários


CONTATO

Porto Alegre, RS 

​​

Tel: (51) 9 9259-6364

Skype: betobuckmann​

betobuckmann@yahoo.com.br

Nós recebemos a sua mensagem, aguarde contato.

  • LinkedIn - Círculo Branco
  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

© 2023 por Hugin. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page