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SONHOS QUE SANGRAM

  • Carlos A. Buckmann
  • 15 de jul.
  • 4 min de leitura

SONHOS QUE SANGRAM

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O relógio de pêndulo, ali no canto, marcava não as horas, mas o peso de um segundo que se recusava a passar.

            O Café Entre Fluxos, hoje, cheirava a madeira úmida e a pólvora seca, um paradoxo que só o ar denso da tarde de outono poderia justificar. As gotas de chuva escorrendo na vidraça, desenhando mapas de um mundo que se desfazia antes de se formar. Uma pianola no fundo, tocada por dedos invisíveis, cuspia uma valsa de Chopin, mas as notas pareciam tropeçar umas nas outras, como se o próprio instrumento temesse o que ouviria.

            Eles chegaram em ondas. Danton, o primeiro, ocupou a mesa como quem ocupa uma tribuna. Sua voz era um trovão abafado, um rolo compressor prestes a descer a ladeira. Pediu um conhaque escuro, não para beber, mas para ter algo entre os dedos grossos.

            Robespierre deslizou pela porta, impecável, sua peruca tão branca quanto a alma que ele acreditava possuir. Escolheu a cadeira oposta, um gesto de cálculo, e solicitou um chá de hortelã, pureza da bebida espelhando a pureza de seus decretos.

            Por fim, Marat, envolto em xales e em mistérios, arrastou-se para a mesa. Pediu café, preto como a bile que ardia ao subir-lhe à garganta.

            A pianola hesitou em um acorde menor. E então, o fogo começou.

             “A virtude, Robespierre, disse Danton, sem o pão do povo, é um altar vazio. Com que direito exiges a alma de um homem que ainda tem o estômago vazio? A revolução não é um seminário, é uma forja! Eu vi Paris pegar fogo. Eu não a apaguei para que ela iluminasse apenas os seus tratados.”

            Robespierre mexeu o chá com uma precisão cirúrgica. A colher tilintou contra a porcelana, um som que parecia uma guilhotina caindo.

            “E eu vi a virtude ser linchada nas praças por sua libertinagem, Danton. A liberdade é uma flor que só desabrocha no gelo da razão. Você quer uma república de saciados, eu quero uma república de santos. O medo é apenas a justiça armada. Seu conhaque e sua gula são o que apodrecem o corpo da nação.”

            Marat ergueu a xícara, mas não bebeu. A luz da janela, distorcida pela chuva, refletiu-se em seus olhos, que pareciam dois buracos negros de obsessão.

            “Enquanto vocês discutem a forma da taça, o vinho da traição está sendo servido! A revolução não é um debate, é um diagnóstico. Eu, do alto do meu jornal, vejo o pus escorrer de cada poro da contrarrevolução. Vocês falam em pão, em virtude... eu falo em sangue. O meu, se for preciso, para que a hidra da tirania seja decapitada a cada novo dia.”

            Com o avental manchado de gérmen de trigo e de história, servi um pão de centeio a três velhos sábios na mesa ao lado. Eles discutiam Platão, alheios ao que se passava à sua volta. Uma mulher, de chapéu de feltro, lia Rimbaud em voz baixa, e suas palavras se misturavam ao Café como um perfume de lírio no meio do enxofre.

            Danton, rindo, um riso que era quase um uivo:

            “A hidra, Marat? Então me diga, profeta das catacumbas, quem segura a espada que cortará a segunda cabeça que brotar? Você? Que mal consegue sair da banheira por causa de sua pele de convalescente? A audácia, meus caros, é o que nos moveu. Não a audácia de matar, mas a de viver a revolução como quem respira. Agora, ela se tornou um cadáver embalsamado por discursos.”

            Robespierre aguçou o ouvido. A valsa havia morrido na pianola. Um silêncio de cemitério tomou o canto da mesa.

            “A audácia sem princípio é apenas crime. A vida sem virtude é apenas agonia. O Terror, Danton, não foi um excesso, foi uma necessidade. Queimei minhas pontes para que o povo pudesse cruzar o rio. Mas vocês, com suas paixões e seus instintos, só veem as pontes queimadas, não o rio que se tornou navegável.”

            Marat deixou a xícara cair. O café escuro manchou o guardanapo de linho, uma mancha que se espalhava como uma conspiração.

            “E o povo, Robespierre? Ele está no rio ou já se afogou no seu conceito de virtude? Eu ouço as ruas, não a Assembleia. Eu escrevo para os miseráveis, não para os doutores. A minha verdade é a gritaria dos mercados, o fedor das fossas, o suor das costas curvadas. Sua revolução é um altar, a minha é uma trincheira.”

            Atrás do balcão, eu polia uma xícara com a mesma devoção com que um historiador poliria um fato. Observava a trindade desfeita. O tempo, naquele Café, não era linear. Era um círculo. Danton via o presente como uma labareda; Robespierre, o futuro como uma lei; Marat, o instante como uma ferida aberta. O debate mordia as próprias entranhas. Concordavam na origem, na chama inicial; contradiziam-se na forja, no martelo.

            De repente, a porta se abriu. Um vento frio, vindo de outro século, apagou uma das velas sobre o piano. Os três olharam para a rua vazia. Viram, por um instante, a sombra de suas próprias mortes: a banheira para um, a guilhotina para outro, o suicídio calculado para o terceiro. Calaram-se. Não era mais um debate. Era uma elegia.

            O relógio pêndulo bateu seis horas. Eles se levantaram, sem se despedir, pagaram suas contas com moedas de outro tempo e saíram. Danton, com o passo largo; Robespierre, rígido; Marat, arrastando seus xales como grilhões.

            A pianola, enfim, encontrou a melodia certa. Tocava agora “O Lago dos Cisnes”, e o Café Entre Fluxos era apenas um café novamente. Os velhos sábios guardaram Platão, a moça fechou Rimbaud.

            Peguei meu livro de guardanapos. A mancha de café deixada por Marat ainda estava ali.

            Como as ideias que plantaram, regadas a pólvora, luz e sangue, as lições brotaram tortas, mas floresceram.

            Aprendi que a revolução não é filha do tempo, mas sua mãe mais cruel. E que toda virtude sem a carne do povo é um esqueleto de altar; e toda paixão sem a espinha da razão é um incêndio que devora o próprio fogo.

            Então, com a pena que usava para desenhar corações nos copos, escrevi a frase que seria a única testemunha eterna daquela tarde:

            "Os sonhos que não sangram conosco são apenas pesadelos que nos olham de longe."

 
 
 

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