OS SONHOS E OS FATOS
- Carlos A. Buckmann
- 14 de jul.
- 4 min de leitura

OS SONHOS E OS FATOS
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
A noite caía como um véu de cetim cinzento, e eu, das minhas trincheiras atrás do balcão, observava o ritual das xícaras vazias. Os ponteiros do relógio antigo pareciam se mover contra a própria vontade, como se o tempo ali fosse um líquido mais denso.
Uma nesga de luz de um poste lá fora incidia sobre o tampo de madeira gasta, onde uma mancha em forma de continente esquecido se formava, ganhando contornos imaginários.
A música de fundo, uma composição melancólica de Nino Rota que eu mesmo havia colocado, parecia suspensa no ar, dançando com as partículas de pó que o sol poente iluminava antes de se render à noite. Era uma melodia que falava de circos vazios e de palhaços que ninguém mais recorda . Havia um ar de ritual no ambiente.
Entre os poucos clientes, uma figura se destacava pela imobilidade: um senhor de sobretudo cinza, sentado sozinho, que não tocava no expresso que pousava diante dele. Em outra mesa, um homem enérgico gesticulava para o ar, ensaiando um discurso, os olhos faiscando por trás dos óculos.
O silêncio foi quebrado pela chegada do cineasta que todos reconheceram, mesmo sem nunca terem visto seu rosto. Sua presença era um manifesto: o olhar carregado de imagens ainda não filmadas. Ele sentou junto ao homem de sobretudo.
“Federico Fellini, você sempre chega como uma cena que começa no meio,” disse o primeiro, com um leve sorriso. “Eu sempre chego no final, tentando entender o começo.”
“Costa Gavras, meu amigo”, respondeu Fellini, a voz com um timbre que parecia vir de outro século, “a verdade é que eu não começo nem termino nada. Apenas sigo o fluxo dos sonhos . Meus filmes não são para entender. São para ver.”
Costa Gavras acendeu um cigarro, a chama do isqueiro iluminando por um instante a gravidade de sua expressão.
“O problema, Federico, é que o mundo não quer ver. Quer explicações. Quer que aponte o dedo para os culpados. Meus filmes são sobre isso. Sobre a dor de saber que o sistema é uma engrenagem que esmaga os inocentes.”
Fellini riu, um som que parecia vir de um carnaval distante.
“E você acredita que apontar o dedo muda alguma coisa? Meu caro, a política é apenas uma farsa como outra qualquer. O verdadeiro teatro está na alma humana. Roma, Cidade Aberta, meu filme com Rossellini, era sobre a guerra. Mas a guerra que me interessa é a que acontece dentro de cada um de nós.”
“Você se afastou do neorrealismo, Federico. Eu me aproximei ainda mais. Costa Gavras inclinou-se para a frente, o gesto carregado de convicção. ‘Z’ não é um sonho. É um grito. Mostrei ao mundo como a democracia pode ser assassinada com um sorriso.”
“E o que isso mudou? Fellini olhou para o vazio, como se visse uma tela em branco. Mostrei a doce vida, a decadência da sociedade italiana. Meu personagem, Marcello, queria ser escritor e falar sobre algo relevante. Mas ele percebe que faz parte das futilidades que despreza . Há mais verdade nesse paradoxo do que em mil documentários.”
Os dois homens se entreolharam, e por um momento, o silêncio entre eles era mais eloquente que qualquer palavra. Ao fundo, a música de Nino Rota se tornava mais melancólica, como se o próprio café estivesse ouvindo.
“Você chama isso de verdade? Sonhos, fantasias, a memória distorcida?”
Costa Gavras desviou o olhar.
“A memória é o único documento que importa, respondeu Fellini, a voz baixa, quase um sussurro. No ‘Oito e Meio’, Guido Anselmi não consegue terminar seu filme porque todas as histórias já foram contadas. Ele vive num labirinto de lembranças e desejos . Você já se sentiu assim? Como se o mundo já tivesse dito tudo, e você apenas repetisse?”
Gavras finalmente provou seu café, agora frio.
“Me sinto assim todos os dias. Mas a diferença é que eu ainda acredito que denunciar a injustiça é um ato de resistência. E você, Federico? Você acredita em quê?”
Fellini sorriu, um sorriso que era ao mesmo tempo triste e luminoso.
“Acredito no espetáculo. A vida é uma grande farsa tragicômica, e a arte é o espelho que mostra essa verdade . Meus filmes não são sobre respostas. São sobre a beleza das perguntas.”
Quando os dois cineastas partiram, a noite já se fazia densa. Eu, o cronista-barista, apanhei os guardanapos onde anotara os fragmentos do diálogo. Pela janela, vi Fellini caminhar devagar, como se cada passo fosse uma cena de um filme que só ele via. Gavras seguiu em frente, decidido, como quem ainda acredita que pode mudar o roteiro.
Fiquei com a sensação de que aquela conversa era um resumo de todos os debates que agitam a humanidade: o que vale mais, a denúncia ou o sonho? A ação política ou a poesia?
Escrevi no meu livro de guardanapos:
"A política nos ensina a gritar. A arte nos ensina a ouvir o silêncio. E a sabedoria, essa rara flor, está em saber quando cada uma é necessária."




Comentários