O ÚLTIMO ENCONTRO
- Carlos A. Buckmann
- 18 de jul.
- 4 min de leitura

O ÚLTIMO ENCONTRO
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
O vento que entra pela porta entreaberta do Café Entre Fluxos não vem de lugar nenhum. Não tem cheiro de maresia nem de terra molhada. Tem cheiro de papiro seco e de tinta de ferrogálica. Sei disso porque sou eu quem senta, com a caneta pronta, o guardanapo liso à minha frente. O café range um pouco, como um navio de madeira que resolveu ancorar no meio do tempo.
Hoje, a música de fundo é um “oud” solitário, tocado por um músico cego que ninguém viu entrar. As cordas gemem em modos que não são maiores nem menores, são modos que guardam o eco de bibliotecas incendiadas. As xícaras, de porcelana fina, têm uma trinca quase invisível no cabo, como se cada gole fosse uma pergunta feita à cerâmica.
No canto, um homem de chapéu-coco rabisca equações em um guardanapo com a fúria de quem tenta provar que o infinito é par. Ao fundo, duas mulheres discutem se a alma é harmonia ou número, enquanto uma terceira, de olhos vendados, saboreia um bolo de laranja como se fosse a última vez.
E então elas chegam.
Hipátia entra primeiro, não porque seja mais apressada, mas porque seu silêncio tem peso de lei. Traz a túnica azul-claro e o “himation” branco, mas nos ombros carrega uma poeira que não é de Alexandria, é de todas as estrelas que ela mapeou sem telescópio. Senta-se com a gravidade de quem sabe que o mundo é redondo e que isso não é metáfora.
Cristina de Pisano entra depois, com passos curtos e certeiros. Seu vestido é vermelho como a tinta dos iluminadores, e os dedos, manchados de ocre, seguram um livro que não está aberto, mas que ela lê como se lesse o ar. Ela inclina a cabeça, como quem avalia o peso de uma sentença.
O “oud” modula para uma nota mais aguda, como se perguntasse algo.
“A verdade não se prova, diz Hipátia, sem cumprimentar. A verdade se demonstra. E o que não pode ser demonstrado é sombra.”
Cristina sorri, mas seus olhos não acompanham o sorriso.
“E a fé? A fé também é sombra?”
“A fé, responde Hipátia, pegando a xícara com a ponta dos dedos, como quem manipula um astrolábio, é o que move os que não sabem ler os céus. Mas o céu é geometria. E geometria não se reza.”
Cristina apoia o livro na mesa. Não é um livro cristão. É um livro de poemas, escrito por ela mesma. Em francês antigo, com rimas que desafiam a gravidade.
“Eu passei minha vida escrevendo para a rainha, para a corte, para os homens de lei. Eles queriam que eu falasse de amor. Eu falei de guerra. Eles queriam que eu falasse de Deus. Eu falei da cidade ideal. E você, Hipátia, com seus círculos e elipses, o que deixou? Cálculos. E eu deixei versos. Os versos ainda são lidos.”
Hipátia bebe um gole. O café está amargo, mas ela não se queixa. Amargo é o gosto do saber.
“Seus versos são belos, concede, com a precisão de quem mede ângulos. Mas a beleza sem verdade é um ornamento. Minhas elipses não cantam, mas explicam o movimento dos planetas. E os planetas, Cristina, não precisam de rimas para existir.”
Cristina inclina-se sobre a mesa. O livro range.
“Você acha que eu não sei de geometria? Minha cidade ideal, a Cidade das Damas, foi construída com ângulos retos e muralhas lógicas. Mas eu coloquei mulheres dentro dela. Você colocou números. Quem habitou seus círculos?”
O “oud” suspira. O homem do chapéu-coco para de escrever e olha para o teto, como se esperasse uma prova divina.
“Eu coloquei o pensamento, responde Hipátia, e pela primeira vez sua voz treme, como uma corda esticada. E por isso me mataram. Não por ser mulher, como dizem. Mas por pensar que o universo pode ser lido. Eles não suportam a leitura.”
Cristina toca a trinca da xícara de Hipátia com a unha. O som é agudo, quase um lamento.
“Eles me leram, diz ela, baixo. As rainhas leram meus versos. Os clérigos leram meus debates. Sobrevivi porque escrevi para elas, não contra elas. Você escreveu contra o deus deles. Essa é a diferença.”
Hipátia ri um riso seco, como o estalar de um papiro antigo.
“Não escrevi contra deus algum. Escrevi contra a preguiça de pensar. Eles preferiram o mito. Eu preferi o número. E o número, Cristina, é mais cruel que qualquer dogma.”
Cristina pega o livro e o abre em uma página onde não há texto, apenas manchas de tinta.
“E a alma? pergunta. O número tem alma?”
“A alma, responde Hipátia, com a calma de quem responde pela última vez, é a sombra do movimento. Não existe. Mas o movimento existe. E é belo.”
Silêncio. A música do “oud” se desfaz em um acorde que não termina, apenas se dissipa, como fumaça.
As duas mulheres se encaram. Uma vê a outra como um espelho torto. A geometria encontra a poesia. A demonstração encontra a metáfora. O século IV (a.C) encontra o século XIV (d.C).
O homem do chapéu-coco, finalmente, diz em voz alta:
“E se a alma for uma equação não resolvida?”
Ambas viram para ele, e por um instante, são apenas três mortais em um café. O vento traz um cheiro de jasmim. A xícara de Cristina estala no silêncio.
Hipátia se levanta. Cristina também. Não se abraçam. Trocam olhares que poderiam ser páginas de um livro perdido.
“A história, diz Hipátia, já quase na porta, não lembra de mim pelo que provei. Lembra de mim pelo que rasgaram. Isso é triste.”
“A história, responde Cristina, ainda sentada, lembra de mim pelo que construí. Isso é mais triste ainda.”
O “oud” cala.
Fico sozinho com o guardanapo. Rabisco devagar:
"Entre o número e a palavra, há um fio invisível. Quem o corta, chama-se dogma. Quem o tece, chama-se coragem. Ambas teceram. Ambas foram cortadas. Mas o fio ficou."
O Café Entre Fluxos range de novo. A porta se fecha. O vento para.
A crônica termina, mas o livro, agora é seu.




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