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O PORTO E A TEMPESTADE

  • Carlos A. Buckmann
  • 11 de jul.
  • 4 min de leitura

O PORTO E A TEMPESTADE.

(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)

            O Café Entre Fluxos nunca teve um relógio que funcionasse por muito tempo. O ponteiro grande insiste em tremular, preso entre o três e o quatro, como se o tempo, aqui dentro, fosse uma convenção que preferimos ignorar. No balcão, a máquina de expresso chia e geme, uma velha “Gaggia” que compreendeu que o vapor é uma forma de linguagem. Hoje, o ar cheira a cardamomo e madeira velha, e uma melodia de lira, gravada em um cilindro de cera desgastado, se arrasta pelo ambiente, compondo um tema que parece uma pergunta repetida: "E se...?"

            À mesa do canto, onde o sol da tarde desenha losangos no tampo de carvalho, dois homens se sentam. Suas vestes são simples, e suas peles, curtidas por jornadas distintas.

            Um deles, Zenão de Cítio, tem o porte de quem sobreviveu a um naufrágio, não apenas do barco que o trouxe a Atenas, mas de todas as posses que definiam seu antigo eu. Seus olhos, no entanto, são calmos, como a superfície de um mar que já se enfureceu. Diante dele, uma xícara de café preto, sem açúcar. "A virtude", pensa ele, "é um fluxo de vida bom, e este café é parte desse fluxo."

            O outro é Pirro de Élis, com o olhar de quem suspendeu o julgamento sobre todas as coisas. Ele gira a colher entre os dedos, observando a luz se distorcer no metal polido. "Parece prata", murmura. "Mas e se não for? E se for apenas a nossa percepção que insiste em chamá-lo de prata?" Sua bebida é um chá de hortelã, que ele encara como um fenômeno a ser examinado, não consumido.

            Ao fundo, uma jovem escriba, com as mãos manchadas de tinta, corrige um papiro. Ela resmunga sobre a imprecisão dos copistas, enquanto o som das xícaras parece ser a única certeza inabalável.   

            “Atenas é uma cidade de palavras, Zenão.”  Pirro quebra o silêncio, sua voz um fio de ar. “Palavras que afirmam, palavras que negam. Eu cheguei a preferir o silêncio que existe entre elas, como este que se forma entre o chiar da máquina e o próximo gole. Pois a ataraxia, a tranquilidade da alma, não está na resposta, mas na suspensão da pergunta.”

            Zenão inclina a cabeça, um gesto que evoca o Pórtico Pintado, onde seus discursos desafiavam o vento da Ágora.

            “E, no entanto, a natureza nos dá uma razão, um ‘logos’ que governa o fluxo de todas as coisas. Minha felicidade, Pirro, não está em duvidar do fogo que aquece o mundo, mas em compreender que ele ‘É’ O sábio não se perturba com o que não controla. Como disse um dia a meus alunos: ‘A felicidade é um fluxo de vida bom’ . Não um fluxo de dúvidas.”

            Pirro sorri, um sorriso que é quase uma pergunta em si.

            “E se este ‘logos’ que você abraça, Zenão, for apenas uma construção mais sofisticada para o medo do caos? Você se agarra à ideia de uma razão universal para não encarar o abismo da indeterminação. Tive a oportunidade de viajar com Alexandre até a Índia. Lá, vi homens que viviam sem a necessidade de uma verdade final, e eram tão serenos quanto qualquer estoico. A felicidade para mim não está na aceitação do destino, mas na consciência de que o destino pode ser uma ilusão.”

            Eu barista, ao ouvir isso, rabisco em um guardanapo:

            "A certeza de um, a dúvida do outro. Será que ambos não estão, no fim, buscando a mesma paz?"

            “E suas palavras, Pirro, como ecoam?”  Zenão insiste, segurando a xícara.  Eu escrevi minha para propor uma sociedade de sábios, onde a lei fosse a própria razão . Mas meus escritos são queimados, perdidos, citados por outros que mal compreendem a essência. O que resta de um filósofo em Atenas? Resta o que ele vive. Pois ‘a melhor indicação da filosofia de um indivíduo não é o que ele diz, mas como ele se comporta’. O que eu vivi, o naufrágio que me trouxe até aqui, é minha prova.”

            “Eu, que nada escrevi”, ou quase nada, retruca Pirro com uma leveza quase cruel, “talvez seja mais lido do que você. Meu legado não está em um papiro, mas no ato de ensinar o jovem Timão a duvidar do que vê. Escrever sobre a suspensão do juízo é uma contradição. É como tentar capturar o vento em uma rede. Nossas escolas, Zenão, são disputas de sombras. Você fundou a sua em um pórtico, eu a minha na práxis da dúvida. E no fim, os romanos pegarão suas ideias e as transformarão em manuais de conduta para soldados, e as minhas, em ceticismo que abre portas para a fé cega. Nenhum de nós escapa à interpretação.”

            A música de lira parece hesitar, um chiado no cilindro. O escriba ao fundo ergue os olhos, e por um instante, o café inteiro parece prender a respiração.

            “E está tudo bem, Pirro”.  A voz de Zenão é grave, mas não pesarosa. “O fluxo do rio não se importa com o nome que lhe damos . Apenas segue. Talvez eu tenha ensinado que devemos viver de acordo com a natureza. E sua filosofia, a de duvidar da natureza, também é uma forma de viver de acordo com ela. Pois a natureza também criou o homem que duvida. Até a dúvida é parte do logos.”

            “E a certeza, meu caro Zenão, é parte do fluxo da dúvida.” Pirro ergue sua xícara, não para beber, mas para observar o movimento do líquido quente. “Pois até a mais firme convicção é dissolvida pelo próximo instante.”

            O encontro se dissipa como a fumaça do café. Limpando as xícaras, reflito sobre o que vi e ouvi. Eles não chegaram a um acordo. Mas o espaço entre suas verdades pareceu maior e mais iluminado do que qualquer uma delas isoladamente.

            A lição que deixaram, gravada não em livros, mas no modo como seguraram suas xícaras, é que a história abraça tanto o homem que constrói a muralha da razão quanto aquele que desconfia da solidez de cada pedra.

            A filosofia, no fim, não é sobre vencer o outro, mas sobre como cada um negocia com o peso de sua própria época.

            Em um guardanapo limpo, com a ponta do lápis já meio gasta, escrevo a frase que resume o diálogo:

            "Se a dúvida de Pirro é a tempestade, a certeza de Zenão é o porto. O sábio, porém, sabe que o porto só existe porque a tempestade o moldou."

 
 
 

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