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O MUNDO NA PAREDE

  • Carlos A. Buckmann
  • 19 de jul.
  • 4 min de leitura

O MUNDO NA PAREDE

            A parede era o mundo. Não o mundo inteiro, mas o suficiente. Rachaduras que se abriam como vales secos, o relevo áspero do reboco, a fresta luminosa por onde o ar quente entrava e onde os voadores pequenos, suas presas, zumbiam em círculos tolos. O nome que ela dava àquele lugar, se tivesse nome, era um calafrio na ponta dos dedos pegajosos, um eco de vibração que sentia na barriga ao se aplainar contra a superfície. Não era um pensamento, era uma sensação:

             A casa-grande-de-pedra.

            Dentro dela, dois seres grandes e barulhentos. Ela os chamava de Os Que Mordem o Ar, por causa dos sons que soltavam, fricativos e guturais, como se tentasse mastigar a própria respiração. Um deles, o de pelos brancos na cabeça, arrastava os pés como se carregasse pedras. O outro, o de pelos encaracolados, gemia ao se sentar. Para a osga, eles eram montanhas que se moviam, fontes de calor e de perigo. Seus olhos de mil facetas captavam cada movimento brusco deles, cada sombra que se alongava. O perigo vinha quando a montanha de pelos encaracolados a via.

            “Olha a lagartixa!”, gritava ela, e o som era um terremoto. “É venenosa, homem! Não deixa ela subir na parede da cozinha!”

            A osga não entendia “venenosa”. Entendia a alteração no ar, a onda de choque que a fazia congelar, seu corpo se tornando uma extensão da pedra, sua pele cinzenta se confundindo com as manchas de umidade. O perigo era o movimento brusco, a vassoura que descia como um relâmpago de cerdas, a toalha que se enrolava como uma nuvem agressiva. A fuga era um deslizar lateral, uma corrida de dedos minúsculos que não fazia barulho, mas que era sua única sinfonia.

            Ela os observava. Eles não caçavam. Isso era o mais estranho. Passavam horas imóveis diante de um retângulo brilhante que emitia luz e sons de outros seres que mordiam o ar. Era o Quadrado-Cintilante. Para ela, era uma toca plana, uma fenda mágica onde outros monstros se mexiam, mas que não tinham cheiro. Não se podia comer o que não tinha cheiro. Então, ela os ignorava.

            Mas ela via. Via o que eles não viam. No canto do móvel de madeira escura, onde eles guardavam os círculos de metal que tilintavam, ela via a teia. Não a teia da aranha que ela mesma devoraria mais tarde, mas a teia de segredos que os dois teciam com seus silêncios. Os Que Mordem o Ar não se olhavam mais como antes. Quando a montanha de pelos brancos trazia o círculo de papel com as marcas pretas (o Correio-Plano), ele o escondia debaixo de um pano, longe dos olhos encaracolados. Quando a montanha encaracolada falava ao aparelho preto que cantava, sua boca se movia em sons que não eram para o pelos brancos. A osga sentia a mudança no calor do ambiente. Havia um frio que não vinha da fresta da janela, um frio que vinha de dentro deles. Um cheiro de coisas que apodreciam lentamente, como os restos de mosca que ela deixava no peitoril.

            Ela não nomeava aquilo como “traição” ou “medo”. Ela sentia como uma vibração na superfície da parede. Como quando uma aranha se aproxima e a teia treme. Era um aviso. O ar ficava mais pesado, menos apto a carregar os pequenos voadores. Uma noite, o pelos brancos abriu um armário que sempre ficava trancado. Dentro, um retângulo menor, com um sorriso de mulher que não era a encaracolada. Ele tocou o sorriso com os dedos, e a osga sentiu seu coração (que era só um tubo pulsante) acelerar. Não por ele, mas pela vibração que emanava do objeto. Era um segredo sólido, como uma casca de besouro, mas com a fragrância de lágrimas secas.

            A encaracolada, por sua vez, escondia pequenos papéis dentro do livro de capa dura. Não os que mordiam o ar, mas outros, com desenhos de uma planta de caules finos. A osga não via a planta, via os traços, e sabia que aquilo não era para ser visto. Porque quando a encaracolada os escondia, seu corpo exalava um odor ácido, igual ao do frasco de limpeza que ela usava na cozinha.

            A osga não julgava. Não havia bem ou mal em seu universo de patas pegajosas. Havia apenas o movimento e a imobilidade. A fome e a saciedade. O segredo dos humanos era apenas mais uma textura no mundo, como o musgo úmido do tanque ou a asa da mariposa que se desfazia em seus maxilares. Ela via o pelos brancos arrumar uma mala pequena, viu a encaracolada não olhar para ele enquanto ele a arrumava. Viu as duas xícaras de chá (os Montes de Vapor) ficarem vazias na mesa por um dia inteiro, sem que ninguém as levasse. O silêncio deles era mais ensurdecedor que o voo do pernilongo.

            Certa manhã, o pelos brancos saiu pela porta-grande. Não levou o Correio-Plano. Não olhou para trás. A encaracolada ficou sentada na cadeira de balanço, que rangeu como um grilo enfermo. A osga, do alto do batente da porta, viu a mala que ele carregava. E viu o sorriso do retângulo do armário agora dentro dela. A vibração do segredo estava indo embora.

            Ela desceu pela parede. Um mosquito gordo, tonto pelo calor, pousou na mão da encaracolada, que olhava imóvel para a tela brilhante.

            Ela não lamentou pelo pelos brancos. Não celebrou a solidão da encaracolada. O que importava era a parede. E a parede estava ali, firme, quente e cheia de frestas. Seu mundo. Seu breve e suficiente mundo.

 
 
 

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