O ENCONTRO DOS VERSOS ENTRE FLUXOS
- Carlos A. Buckmann
- 13 de jul.
- 3 min de leitura

O ENCONTRO DOS VERSOS ENTRE FLUXOS
(Da série RETORNO AO CAFÉ ENTRE FLUXOS)
Sou o cronista-barista do Café Entre Fluxos.
Hoje o tempo teimou em dobrar-se sobre si mesmo, criando um véu de possibilidades. O aroma que pairava não era o do café colombiano habitual, mas algo mais antigo, um misto de papel velho, maresia e pólvora seca. As paredes, sempre cúmplices, pareciam escutar atentas.
Ao fundo, a música de hoje era uma “fantasia” de Dowland, alaúde e melancolia, notas que dançavam como ondas num mar incerto.
Uma compositora, que mais parecia um pássaro noturno, tomava notas em um guardanapo enquanto o som gotejava. Ela, Patti, cliente de todas as terças-feiras, buscava a melodia de um refrão antigo.
A porta rangeu e dois homens adentraram o fluxo. Um, de olhar cansado e brilhante, trazia na alma o peso de naus e tempestades. Outro, de porte elegante e bigode farto, parecia esculpido em cera e vaidade. Luiz Vaz de Camões e Olavo Bilac.
Sentaram-se à mesa central. A xícara de Camões era de barro simples, a de Bilac, de porcelana fina. Enquanto servia o café, o espesso líquido preto, ouvi Camões murmurar, como quem conversa com o vento:
“Escrevi para cantar a alma de uma gente, mas a alma que cantei era também a minha, dilacerada e só. O rei que me negou o pão quer agora que eu cante a glória dele. Que ironia...”
Bilac, num gesto polido, respondeu:
“A glória, amigo, é uma moeda que se paga aos poetas... em vida, com desprezo; após a morte, com estátuas. ‘Pátria é a língua em que se diz: pão, água, amor, céu, terra, mar.’ Escrevi para embelezar essa língua, mas o ouro que ela me trouxe foi o preço do meu aprisionamento.”
“O ouro, Camões riu, um som rouco, o ouro que os meus versos descrevem é o que cega os homens. Eu, que perdi um olho em Ceuta, vi mais claramente a cobiça do que aqueles que têm dois. A língua que você embeleza, eu a moldei em armas, para falar de mares nunca dantes navegados.”
Bilac inclinou a cabeça, como quem saboreia um vinho raro.
“Eu a penteei e perfumei, para que fosse cortesã dos salões. Mas a cortesã, meu caro Camões, às vezes tem mais poder que o guerreiro. Ela cativa o tirano enquanto o guerreiro luta contra ele. Sua obra é a epopeia de uma nação; a minha, o retrato de uma época que se queria civilizada.”
O alaúde ao fundo modulou para um acorde menor. A compositora ergueu os olhos, como se aquelas palavras fossem a letra que faltava à sua música.
Camões, então, olhou para a xícara como se buscasse a profecia no borra do café:
“Você fala de poder, Bilac, mas eu falo de sobrevivência. Escrevi Os Lusíadas no exílio, com a fome a roer-me o estômago e a dúvida a roer-me a alma . A sociedade do meu tempo me queria calado ou morto. A sua, ao que parece, queria você adornado, um cisne a cantar num lago de ilusões. Qual é o maior fardo?”
Bilac suspirou, e por um instante perdeu a postura.
“O fardo de ser amado e esquecido na mesma hora, Camões. O fardo de saber que a beleza que crio é um eco, e que o eco, por mais belo que seja, não é a voz original. Eu lutei contra a mesquinhez dos meus contemporâneos, que só viam na poesia um ornamento, não uma verdade. Você, pelo menos, foi um arauto. Eu fui um joalheiro.”
“E não é o joalheiro um arauto da beleza?” Camões ponderou, um brilho de surpresa nos olhos. “Talvez a sua luta seja mais sutil que a minha. Talvez a sua batalha seja a de fazer o belo ser levado a sério, em tempos de feiura triunfante.”
Um cliente ao fundo, que lia um livro de capa gasta, fechou-o com um estalo, como se tivesse encontrado a resposta para uma pergunta que nem sabia que tinha.
O diálogo oscilava como um navio em águas turbulentas. Camões, o guerreiro ferido, via a poesia como um campo de batalha. Bilac, o artífice da palavra, via-a como um espelho da alma. E, no entanto, ambos sabiam o preço do ofício: a solidão.
Quando se levantaram, Camões deixou uma moeda antiga sobre a mesa; Bilac, um cartão de visita imaculado. As xícaras estavam vazias, mas a conversa pairou no ar como uma bruma.
Compreendi que a literatura não é apenas a crônica do que fomos, mas o diálogo do que poderíamos ser. Camões e Bilac, o herói e o esteta, ensinaram que a palavra, seja na espada ou na flor, é sempre um ato de resistência. E entre a glória e a vaidade, o que fica é o verso.
No meu livro de guardanapos, anotei:
"A palavra verdadeira, Camões, é aquela que sobrevive ao naufrágio; a palavra bela, Bilac, é a que nos faz esquecer que estamos a naufragar."




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