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“GAMBATTE” – DÊ O SEU MELHOR

  • Carlos A. Buckmann
  • 9 de ago.
  • 3 min de leitura

“GAMBATTE” – DÊ O SEU MELHOR

            Há de se notar, logo à primeira mirada, que no Brasil, em sua exuberância mestiça, desejar “boa sorte” em uma tarefa, é talvez uma de suas expressões mais eloquentes, pois trata o trabalho sob o signo da paixão, do talento inato ou, inversamente, da exploração a ser combatida.

            O empregado sonha com o fim do expediente; o profissional liberal ou o artista cultua a “inspiração” como um relâmpago que o isenta da transpiração; mesmo nas equipes esportivas, cultua-se o gênio individual, o craque que resolve, o dom que justifica a exceção à regra.

            A dedicação, aqui, é quase sempre uma virtude heroica, um gesto que exige reconhecimento, uma narrativa de sacrifício pessoal que clama por aplauso ou por indenização afetiva imediata.

            Atravessando o oceano, tanto o físico como o do sentido, deparamo-nos com o “Gambatte” japonês, termo que, em sua intraduzível concisão, conjuga o verbo “ganbaru”, no imperativo ou no gerúndio encorajador.

            Não se trata de um mero “esforce-se” ou “aguente firme”. Trata-se, antes, de uma ontologia da persistência: o ato de esticar-se para além de si mesmo sem a expectativa de que o universo aplauda.

            O oleiro japonês que passa uma vida inteira tentando copiar uma única tigela perfeita do mestre Koetsu não busca a originalidade narcísica; ele se aniquila na técnica para que, um dia, o objeto respire por si. Esse esvaziamento do ego diante da obra é algo que nossa cultura do “protagonismo” e do “personal branding” simplesmente não consegue metabolizar.

            Eis que se instala o paradoxo brutal. A cultura brasileira, herdeira de um cristianismo da graça e de um romantismo do gênio, acredita que o valor está na singularidade disruptiva.

            Já a cultura japonesa, impregnada pelo zen e pelo confucionismo, localiza o valor no processo contínuo e coletivo.

            Enquanto no Brasil a equipe espera que um líder carismático a carregue nos ombros, na filosofia do Gambatte cada membro carrega sua parte não como fardo, mas como polimento diário da alma. É a diferença entre o fogo de artifício e a lâmpada de óleo; um deslumbra e se apaga em segundos, a outra aquece o silêncio durante a noite inteira sem alarde.

            Han Yu, letrado da dinastia Tang, já advertia em seu “Discurso sobre o Caminho” que a virtude não é um dom, mas um esforço rigoroso e incessante de retificação interior, algo que ecoa a disciplina do “Gambatte”.

            Em contrapartida, Oswald de Andrade, em seu “Manifesto Antropófago”, propunha a deglutição criativa, a absorção irreverente da alteridade, gesto tipicamente brasileiro de reinventar a regra em vez de curvar-se a ela.

            O paradoxo histórico se revela, contudo, em pontos de inesperada coincidência.

            Observem-se as missões empresariais japonesas no Brasil do pós-guerra, que resultaram na criação de cooperativas agrícolas no Pará e no Mato Grosso do Sul. Ali, o “Gambatte” nipônico, que insistia em fazer brotar arroz no cerrado hostil, fundiu-se à “ginga” brasileira, que improvisava soluções contra as pragas tropicais; a persistência milenar japonesa, se não encontrou a submissão esperada, achou no jeitinho brasileiro uma resiliência adaptativa de outra ordem.

            Na música, Tom Jobim e Ryuichi Sakamoto, em tempos e modos distintos, partilharam esse encontro: a bossa nova, com sua matemática emocional disfarçada de preguiça, exigia um estudo harmônico tão obsessivo quanto a caligrafia de um monge; a paciência do “Gambatte” e a malemolência da bossa se tocavam na ponta dos dedos de pianistas que se recusavam a separar técnica e sentimento.

            Confesso que, como cronista exaurido pelo culto contemporâneo à performance visível, tenho me refugiado na penumbra filosófica do “Gambatte”.

            Não abraço a ideia em sua inteireza sacrificial, pois isso seria trair o meu chão tropical, que sabe que a vida é também dança e descanso, mas agarro-me ao detalhe crucial da “continuidade sem testemunhas”.

            Walter Benjamin, ao analisar o narrador, lamentava a extinção da arte de tecer histórias no tear da experiência lenta. É exatamente essa demora artesanal que o “Gambatte” restaura.

             “Gambatte” é o desejo para que você “dê o seu melhor”, não apenas um “boa sorte” para executar a tarefa.

            Na vida diária, essa filosofia opera uma revolução silenciosa: ela me faz sentar para escrever mesmo quando o texto não flui, não por ambição de publicar, mas por fidelidade ao ato. Ela me faz regar a planta mesmo na correria, cozinhar com atenção plena, ouvir um amigo até o fim sem planejar a resposta brilhante. É a transformação do ordinário em ofício sagrado.

            O “Gambatte” nos salva da tirania do resultado porque nos ensina que o valor reside na tensão íntegra do movimento.

            Enquanto o Brasil me deu o riso largo que zomba da dureza, o Japão me ofereceu a espinha ereta que permanece de pé na tempestade.

            E é na fricção entre essas duas madeiras que acendo o meu fogo particular para seguir vivendo e escrevendo, não para chegar a algum lugar, mas para nunca deixar de caminhar.

 
 
 

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