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CONTOS DE PORTO ALEGRE - O SEXO NA NOITE

  • Carlos A. Buckmann
  • 22 de jul.
  • 4 min de leitura

O SEXO NA NOITE.

            O uísque queimava minha garganta, um conforto familiar na noite fria. O bar, o "Velho Lobo", é meu refúgio. Não pelo brilho ou pela música alta, mas pela penumbra que acolhia minha solidão sem fazer perguntas. Eu sou um homem de meia idade, com um casaco surrado e olhos que já tinham visto dias melhores. Buscava uma bebida, sim, mas também uma distração qualquer que me arrancasse do silêncio do meu apartamento.

            O bartender, um homem de rosto marcado e olhar avaliador que se chama Sérgio, enxuga um copo com um pano. Ele conhece meus gostos. Sem eu pedir, serviu a terceira dose de uísque. O líquido âmbar dançava no copo.

            “Noite de quarta, Heitor. Sempre as mais quietas, disse Sérgio, inclinando a cabeça em direção à porta. Mas hoje tenho algo diferente. Uma que acabou de chegar. Fria, mas de uma beleza... poética.”

            Eu segui seu olhar. Ela estava sentada numa mesa ao fundo, um ponto de luz na escuridão. Cabelos negros como a noite, pele pálida, olhos cor de mel que pareciam guardar segredos antigos. Vestia um vestido vermelho simples, que contrastava com a vulgaridade do lugar. Sérgio, ciente de seu papel como agenciador, fez os sinais. Ela se levantou e veio até mim.

            “Posso sentar?” - Sua voz era suave, quase um sussurro.

            Chama-se Lara. Falamos sobre a chuva fina que caía lá fora, sobre a cidade que nunca dormia, sobre livros e músicas. Havia uma tristeza nela que me atraía como um ímã. Quando Sérgio ergueu uma sobrancelha em minha direção, entendi o recado. Paguei a conta, deixei uma gorjeta generosa e saímos, seu braço enlaçando o meu, em busca de um motel.

            O quarto é pequeno, com uma cama de casal, um abajur de luz fraca e uma garrafa de uísque barato sobre o frigobar. Pedi que ela servisse as doses. O álcool desceu quente, afrouxando as amarras.

            Então, repentinamente, Lara mudou. A máscara de profissional caiu, revelando uma angústia genuína. Seus olhos, antes enigmáticos, agora marejavam.

            “Preciso te pedir uma coisa, Heitor, disse, a voz trêmula. Não sou o que pareço. Bem, sou, mas... eu trabalho para um homem. Um gigolô. Ele controla tudo, os pontos, os valores, a nossa ‘proteção’. E eu... eu precisei desviar o dinheiro de um programa hoje, um cliente importante. Meu cartão de crédito, uma dívida do tratamento da minha mãe. Se ele descobrir, vai me matar, ou pior, vai machucá-la.

            Ela se aproximou, segurando minha mão com uma força desesperada.

            “Preciso de mil reais para repor o valor antes do amanhecer. Ele vai conferir os ganhos. Você parece um homem bom, um homem que entende de solidão e de segredos. Me ajuda? Juro que te pago, de qualquer jeito que você quiser.”

            A história é comovente, a atuação, impecável. Uma armadilha clássica, pensei. Por um instante, a solidão em meu peito se confundiu com a dela. Eu podia ser o herói. Podia salvá-la.

            Um sorriso lento e amargo começou a se formar em meus lábios. Eu estava bêbado, não cego. E, na verdade, eu havia reconhecido seu truque desde o momento em que Sérgio a apontou. Conhecia a história da mãe doente, o cliente importante, o desvio de dinheiro. Era uma narrativa que eu mesmo havia ensinado a muitas de minhas garotas.

            “Deixe-me ver se entendi, Lara, comecei, minha voz baixa, mas firme. Você precisa de mil reais para devolver ao seu ‘gigolô’ antes do amanhecer, senão ele... bem, senão ele fará o que os homens como ele fazem.”

            Ela assentiu, uma lágrima escorrendo pelo rosto.

            “É uma história muito triste. Mas tem um furo nela, Lara.”

            Levantei-me da cama e caminhei até a janela, de costas para ela. Senti o momento em que a verdade a atingiu, como um balde de água fria. Seu corpo inteiro se imobilizou.

            “Sérgio te mandou aqui para me testar? Ou você, por conta própria, achou que poderia passar a perna em um velho bêbado?  A história da sua mãe é verdadeira, Lara. Sei disso porque fui eu quem a levou ao hospital da Santa Casa na semana passada, quando você estava desesperada e me ligou. A dívida é comigo.”

            Lara empalideceu. A garrafa de uísque escapou de seus dedos e caiu no chão, espalhando o líquido pelo carpete.

            “Heitor... não... eu não sabia... você nunca se apresenta... Sérgio só disse que era um cliente comum...” -  ela gaguejou, recuando em direção à cabeceira da cama.

            Dei um passo à frente, minha sombra cobrindo-a por completo. O homem solitário e bêbado se foi. Em seu lugar, está o dono da noite, o senhor das almas perdidas. O gigolô.

            Toquei seu rosto, agora molhado de lágrimas verdadeiras, não as encenadas de antes.

            “Sua mãe está melhor, Lara. A cirurgia foi um sucesso. E sua dívida... ela está perdoada.”

            Ela ofegou, confusa.

            “Perdoada?”

            “Sim. O desvio era para testar sua lealdade. Mas, mais do que isso, era para provar seu amor por ela.”

            Peguei o dinheiro do bolso do casaco, uma maço de notas, e coloquei em sua mão trêmula.

            “Vá embora, Lara. Pegue seu dinheiro, sua mãe, e suma da cidade. Comece uma vida nova. Nunca mais trabalhe para mim ou para qualquer outro homem. Você pagou sua liberdade.”

            Ela ficou atônita, o rosto um turbilhão de alívio, medo e gratidão.

            “Mas... por quê? Por que faria isso?”

            Sentei-me na beira da cama, o peso de todos os meus anos e de todas as minhas escolhas caindo sobre meus ombros. Peguei a garrafa de uísque do chão, que não tinha quebrado, e bebi um gole direto.

            “Porque, querida, respondi, com uma voz que era quase um sussurro de veludo e aço, você é minha filha. E a história da mãe doente que você contou... bem, é a única história verdadeira que você disse hoje. E é sobre a única pessoa que um monstro como eu ainda é capaz de amar.”

 
 
 

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